Entre radicalização à esquerda e montagem de frente ampla, PT começa a viver eleição da vida
O PT está diante da eleição da vida. Após o desempenho arrasa-quarteirão do PL na eleição parlamentar, o partido não teve tempo de curar a ressaca e já entrou em um dilema. Claramente, em posicionamentos expressos ao longo do ‘day after’, líderes da legenda apontaram caminhos diferentes sobre como realizar uma virada inédita na eleição presidencial.
Pela esquerda, a defesa é por medidas de governo como um reajuste forte no salário mínimo, a ser jogado dentro do pacote de bondades que o presidente Lula foi anunciando ao longo do primeiro turno. Com mais pragmatismo, uma ala parece ter tocado a atenção presidencial ao sugerir o anúncio do vice-presidente Geraldo Alckmin como ministro da Fazenda no próximo mandato.
As duas propostas são incompatíveis. Turbinar o mínimo levantaria novas críticas de irresponsabilidade fiscal. Indicar Alckmin seria passar a mensagem da austeridade, ao menos até um certo ponto. Essa linha combina mais com a anunciada disposição de Lula, logo após o anúncio do resultado, de dar mais protagonismo ao vice na campanha.
Para acirrar o discurso expressamente dirigido à base popular do partido, a defesa de um aumento imediato do salário mínimo vem acompanhada da implantação da tarifa zero no transporte público. Já se calculam os custos em R$ 100 bilhões, para implantação gradativa a partir das maiores cidades do país.
Em paralelo, um consenso que se vai formando entre lideranças do partido é o de que é preciso acirrar a desconstrução de Flávio Bolsonaro e, ao mesmo tempo, passar mensagens de futuro para as pessoas. A dúvida presente é sobre como essas duas linhas de abordagem serão exploradas.
O foco está no campo dos 30,2 milhões de eleitores que se abstiveram de votar em primeiro turno. Esse contingente não costuma ser muito sensível a apelos de última hora. O histórico mostra números muito semelhantes nos dois turnos. Somados aos votos brancos e nulos, os não eleitores compuseram 25% do eleitorado de domingo. A aproximação do marqueteiro João Santana à campanha de Lula é um sinal de que haverá mudanças na forma das peças publicitárias. Cobra-se coordenação entre as várias frentes de comunicação da campanha, da TV à internet, passando pelos atos de rua e materiais de campanha. Notou-se que Lula, de campanhas vitoriosas com jingles históricos, não teve este ano uma música para chamar de sua. Bola fora.
Passado o impacto inicial da derrota em primeiro turno, houve reconhecimento de que Lula teve um bom desempenho, atribuindo-se a fatores inesperados a dianteira de Flávio. No Nordeste, especialmente, as dúvidas sobre a existência de compra de votos se multiplicam. A Polícia Federal anunciou a apreensão de R$ 30 milhões em espécie, no curso do primeiro turno, que seriam destinados a capturar eleitores. O questionamento faz sentido.
É falso dizer que há desânimo no partido, mas sim grande preocupação. O entendimento geral é o de que é possível virar, dada a menor diferença da história entre dois adversários que escalaram ao segundo turno. Fica a saber se o PT irá vencer o maior desafio de sua vida.



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