O cérebro político, emoções e volatilidade
“Give me that man
That is not passion’s slave….”.
Shakespeare, Hamlet
Drew Westen, professor de psicologia e psiquiatria da Universidade de Emory e fundador da Westen Strategies, agência que presta consultoria ao Partido Democrata, publicou, em 2007, um livro seminal sobre o comportamento do eleitorado: “O Cérebro Político: O Papel da Emoção na Decisão do Destino de uma Nação”.
A apresentação do livro no Brasil coube a ninguém menos que Aloizio Mercadante.
Westen argumentava, nessa obra, que o Partido Democrata norte-americano, embora tivesse as melhores ideias e propostas para os EUA, havia perdido demasiadas eleições para o Partido Republicano, nas últimas décadas. Como ele próprio acentua, desde Franklin Roosevelt apenas um presidente Democrata conseguiu ser reeleito (Clinton), ao passo que os Republicanos deixaram de reeleger somente um candidato (Ford).
A explicação para essa disparidade residia essencialmente, conforme Westen, nas estratégias eleitorais equivocadas que o Partido Democrata em geral adota. Tais estratégias estavam baseadas numa concepção da mente como algo racional e desapaixonado, fruto das ideias iluministas que inspiraram a independência dos EUA e sua Constituição.
De acordo com essa concepção, nosso cérebro faz escolhas com base em análises cuidadosamente racionais, levando em conta os dados e informações disponíveis. Westen argumentava, com base nos recentes estudos da neurociência sobre o tema, que, ao contrário do que dá a entender essa concepção, o cérebro humano toma decisões fundamentadas principalmente em emoções.
O cérebro político, em particular, afirma Westen, é um cérebro emocional. Os eleitores fazem escolhas fortemente baseadas em suas percepções emocionais sobre partidos, candidatos, economia etc. Análises racionais e dados empíricos desempenham, em geral, papel secundário nesse processo.
Não posso deixar de observar que tal tendência, que Westen analisou, ainda na primeira década desse século, só cresceu nos últimos anos. O aumento do papel das redes sociais na formação de percepções e emoções do eleitor tornou-se bem mais substancial e, hoje em dia, esse papel é bastante dominado pela extrema-direita, pelas Big Techs estadunidenses e por agências de inteligência, tais como a NSA, a CIA etc. As esquerdas e o centro político ainda patinam nesses processos.
Me parece que as observações de Westen são úteis para se entender o que acabou de acontecer nas eleições de primeiro turno no Brasil.
Até as antevésperas desse pleito, havia uma tendência, detectada por todas as pesquisas, de ligeiro crescimento da candidatura Lula e de fragilização relativa da candidatura de “Tariflávio”, em razão de uma série de fatores, como o claro vínculo dessa candidatura com o caso Vorcaro, sua óbvia ligação com o crime organizado, sua briga com os católicos, seu descompromisso com a soberania nacional, suas relações com a ditadura, seu desprezo pela democracia, sua falta de propostas etc. Alguns até achavam que, caso a tendência persistisse, Lula teria chances de ganhar no primeiro turno.
Contudo, tudo mudou, de súbito, justamente na reta final.
O que aconteceu? Bem, o único grande fato marcante que ocorreu nesse breve período foi a não realização do debate da Globo e a intensa exploração negativa desse fato nas redes sociais e nas grandes mídias corporativas.
A Globo havia armado uma arapuca contra a candidatura de Lula. Um debate no qual Lula seria atacado, de forma inclemente, por todos os candidatos restantes (a linha auxiliar do bolsonarismo). Um programado assalto midiático. Lula, obviamente, recusou.
E começou a ser fortemente atacado por isso. Ressalte-se que, no pleito de 1998, Fernando Henrique Cardoso recusou-se a participar de quaisquer debates no primeiro turno. No entanto, FHC não foi criticado por isso.
Armou-se, então, outra arapuca: o debate seria realizado sem Lula, mas com um púlpito vazio a simbolizar sua ausência. Desse modo, os candidatos da extrema direita poderiam acusá-lo de qualquer coisa, sem que Lula pudesse responder a nada.
Mas a trampa não foi à frente porque, no último momento, diante da proibição do uso do púlpito vazio e da participação, decidida na justiça, do candidato Renan Santos, crítico de Bolsonaro, o próprio Tariflávio e a Rede Globo desistiram do debate.
Imediatamente, as redes bolsonaristas e as mídias corporativas começaram a associar esse fato a uma censura e a uma intervenção indevida, por parte do TSE e do STF, no processo eleitoral. De forma ardilosa, voltaram a colar a imagem da candidatura de Lula à imagem negativa do STF, associada, hoje em dia, em muitos setores do eleitorado, à corrupção, à censura, ao autoritarismo etc.
Isso deve ter exacerbado o antipetismo de setores do eleitorado e, ao mesmo tempo, ter criado uma onda de solidariedade a Tariflávio, que transferiu votos de outros candidatos e de indecisos para o bolsonarismo. Pode ter pesado também um certo voto envergonhado em Tariflávio, que não fora captado ainda nas pesquisas. E pode, ainda, ter pesado muito a interferência de potência estrangeira em nosso processo eleitoral, conforme advertiram a Abin, o Sisbin e a Polícia Federal.
Mas em que pé estamos? Essa derrotada candidatura de Lula, na eleição presidencial, por pequena margem no primeiro turno, significa que ela será inexoravelmente derrotada no segundo turno?
Me parece óbvio que não.
O que esses fatos demonstram, com certeza, é que há um alto grau de volatilidade e de emocionalidade nessas eleições.
Assim como o crescimento de Lula e sua provável vitória no primeiro turno se reverteram em pouquíssimo tempo, essa vantagem de Bolsonaro também pode se reverter, a depender da campanha que será realizada. Não se trata de tendência consolidada e irreversível.
Em geral, ganha as eleições o candidato que mais projeta esperança e futuro e, ao mesmo tempo, associa seu rival a emoções negativas.
A candidatura de Lula precisa fazer as duas coisas.
Vender-se como o único futuro viável para o país e seu povo (o que é verdade) e mostrar o comprometimento de Tariflávio com a criminalidade organizada e a corrupção, e seu total descompromisso com a soberania do país e com a democracia (o que também é verdade).
Na realidade, a eleição de Tariflávio, significaria a reeleição do velho, carcomido e criminoso Jair Bolsonaro e a volta a um passado sombrio. Seria o retorno do “sistema” comprometido com a morte, como o foi na pandemia, que não é suficientemente explorada, aliás, na campanha.
Para ganhar, a candidatura de Lula precisa, no fundo, fazer algo simples: combater as mentiras que se falam sobre ela e afirmar, com muita firmeza, as verdades que o eleitor precisa saber sobre Tariflávio.
Há uma montanha de eleitores absenteístas e indecisos e de gente que anulou o voto ou votou em branco. O somatório de absenteístas e de votantes que anularam o voto ou votaram em branco chegou, nesse primeiro turno, a quase 40 milhões de cidadãos (39,1 milhões).
Gente que pode ser engajada com emoções verdadeiras e com as emoções únicas, irretorquíveis, da verdade.
O campo é fértil e a luta apenas recomeçou.
E quem morre de véspera é só o peru.



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