Como reconhecer o fascismo?
A linguagem humana é uma construção histórica e social, permanentemente modificada pelas experiências, pelos conflitos e pelas necessidades humanas.
Embora a palavra fascismo tenha uma origem histórica determinada, associada ao movimento político de Benito Mussolini, na Itália, no início do século XX, as práticas autoritárias não passaram a existir depois que alguém inventou o substantivo. A erupção pliniana, assim chamada em referência aos relatos de Plínio, o Jovem, sobre a erupção do Vesúvio, não esperou a classificação científica para destruir Pompeia. O fenômeno precedeu o nome. O nome apenas nos permite reconhecê-lo, estudá-lo e estabelecer distinções.
Embora o termo ainda não existisse, eram fascistas em suas práticas e ideias: escravocratas; conquistadores coloniais que desumanizavam povos; supremacistas raciais; inquisidores perseguidores de divergentes; defensores do absolutismo; tiranos da Antiguidade; segregacionistas; nacionalistas expansionistas; governantes repressores; eugenistas; antidemocratas; propagandistas do ódio contra minorias; governantes autoritários que se proclamavam salvadores da pátria; defensores da desigualdade humana como destino natural; e apologistas e defensores da ditadura, da tortura e da violência política.
Machado de Assis compreendeu a dimensão tragicômica dessa lógica autoritária em O Alienista. Simão Bacamarte, investido da autoridade de classificar a loucura, transforma sua teoria em instrumento de poder, até que a própria coerência de seu sistema se volta contra ele. Quando alguém se atribui o direito exclusivo de definir a normalidade, a razão pode tornar-se serva da arbitrariedade. O problema não está apenas em quem é declarado louco, mas em quem detém o poder de declarar.
Não basta procurar camisas de determinada cor, saudações coreografadas ou personagens de bigode ridículo. É preciso observar comportamentos, discursos e práticas políticas: a intolerância ao contraditório, o culto fanático ao líder, a transformação dos adversários em inimigos que precisam ser silenciados, a exaltação da força, a hostilidade às instituições democráticas e a tentativa de submeter a verdade aos interesses do poder. O fascismo não se resume a uma estética; é uma concepção autoritária da vida e da sociedade.
A exclusão pode assumir diferentes justificativas: etnia, religião, origem social, orientação política ou qualquer característica que sirva à fabricação de um inimigo. Primeiro, desumaniza-se o outro e desqualifica-se o outro; depois, apresenta-se sua perseguição como defesa da sociedade. A violência deixa de parecer violência e passa a ser vendida como virtude.
Quando um fascista perde uma eleição, apresentar-se como vítima de uma conspiração; quando é contrariado, denuncia perseguição; quando suas próprias ações ameaçam a democracia, proclama-se seu maior defensor. A democracia é celebrada enquanto produz os resultados desejados e condenada quando permite que a vontade popular contrarie seus interesses. Todos podem escolher, desde que escolham segundo seu critério autoritário.
O que caracteriza o fascista não é o que ele diz ser, mas o que faz: se respeita o direito do outro pensar, opinar e se expressar livremente, mesmo quando discorda; ou se, ao ser contrariado, tenta desqualificar o outro dizendo que ele não tem o direito ou a autoridade para se expressar.
O fascismo se revela na prática, sobretudo na incapacidade de aceitar que o outro tenha os mesmos direitos que ele reivindica para si.
A linguagem desempenha papel decisivo nesse processo. Palavras são escolhidas, significados são distorcidos, mentiras são repetidas até adquirirem a aparência de verdades. A propaganda transforma preconceitos em convicções, agressões em atos de coragem e privilégios em direitos naturais. Ao mesmo tempo, o fascista procura controlar o vocabulário público, desqualificando críticas e reivindicando para si o monopólio da definição do que é legítimo, patriótico ou verdadeiro
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O fascista não admite que o outro pense e se manifeste livremente, porque acredita que a autoridade para opinar pertence exclusivamente a ele e aos que pensam como ele. Para os demais, a liberdade de expressão depende de sua autorização.
Para o fascista, até o fascismo só pode ser definido com sua chancela. Quem discorda não compreende; quem lista não tem competência; quem opina é insolente.
Afinal, ele se julga proprietário exclusivo da linguagem, da inteligência e da verdade. O fascista exige o reconhecimento de firma alheia no cartório no próprio ego e alvará para o pensamento dos outros.
O fascismo não se define pelo que o fascista diz ser, mas pelo que ele faz: censura quem discorda, desqualifica quem opina, ataca quem questiona e se declara vítima quando contrariado. É só observar…



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