Lula x Bolsonaro: O que está em jogo na relação do Brasil com América Latina e com EUA
No próximo dia três de novembro, os norte-americanos votarão nas eleições legislativas que definem a renovação do Congresso dos Estados Unidos. As pesquisas apontam que os democratas, opositores de Trump, sairiam vencedores, confirmando a insatisfação popular principalmente em relação à sua política externa – guerra com o Irã e o reflexo no aumento dos combustíveis. A plataforma de análises eleitorais ‘Silver Bulletin’, que se baseia nas últimas pesquisas, afirma que os democratas têm 93% de probabilidades de conquista da maioria na Câmara dos Representantes e de 72% no Senado.
‘Onda azul’
Esse cenário, se confirmado nas urnas, tem efeito direto na chamada ‘onda azul’ – extrema-direita – que é registrada atualmente no mapa político da América Latina. E deixará uma série de perguntas. O que acontecerá, por exemplo, com o ‘Escudo das Américas’, liderado pelo presidente Trump e assinado por quase 20 países da região? O que acontecerá com a certeza do presidente Javier Milei, da Argentina, de que pode contar com o apoio dos Estados Unidos em momentos de sufoco? No ano passado, dias antes das eleições legislativas na Argentina, o governo Trump liberou cerca de US$ 20 bilhões para socorrer o país da corrida cambial.
Milei, vigésima viagem aos EUA
Nos próximos dias, Milei fará sua vigésima viagem aos Estados Unidos desde que tomou posse. Será a quinta ao mesmo destino neste ano. Sua política externa é clara – a prioridade número um é a relação com o governo Trump. Em casa, o argentino tem problemas como o fechamento de 32 mil empresas, segundo dados oficiais, desde que tomou posse em dezembro de 2023, o incremento nos índices de pobreza, de 28% para 32%, também de acordo com indicadores oficiais, e a queda no consumo. A economia não decola, e os economistas apontam que o país está em recessão técnica, não sendo, portanto, exemplo de exportação.
Freios
Hoje, o mapa da América Latina conta com o Brasil, o Uruguai, o México e a Guatemala com governos que são as exceções na onda da direita tradicional e da extrema-direita que hoje governa vários países da região. Estes governos são vistos como “freio” contra a ‘onda azul’.
Eleição e a política externa brasileira
Também por este tabuleiro, a eleição no Brasil é vista como fundamental para os rumos regional e global. Está claro, como comentam analistas em política externa e diplomatas com os quais conversamos, que a política externa do presidente Lula é muito diferente da que poderia ser, em caso de eleição de Flávio Bolsonaro. Na memória de grande parte da diplomacia brasileira (e além dela) ainda estão vivas as políticas “improvisadas” ou “de confronto”, comenta-se nos bastidores, realizadas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Trabalhamos tanto para reconstruir o que tinha sido desfeito no governo Bolsonaro… Trabalhamos tanto para reconstruir a credibilidade do Itamaraty… E agora há o risco de voltarmos a ver a política externa brasileira perdendo novamente”, disse um dos entrevistados ao Brasil 247, sob a condição do anonimato.
América Latina
Durante o atual governo do presidente Lula, o Brasil revalorizou a relação com a América Latina. Uma das primeiras medidas foi a reincorporação do país na Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), logo depois da posse de Lula em 2023.
O ex-presidente Bolsonaro tinha suspendido a participação do Brasil neste fórum que reúne 33 países do continente, à exceção do Canadá e dos Estados Unidos. Na época, em 2020, Bolsonaro argumentou que a Celac dava espaço e protagonismo para Cuba, Nicarágua e Venezuela. “A Celac não tinha resultados na defesa da democracia ou em qualquer área. Ao contrário, dava protagonismo a regimes não democráticos como os da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua”, argumentou o governo da ocasião.
“Reconstrução”
Agora, ao repassar a relação com a América Latina nestes quatro anos do governo Lula, negociadores da política externa brasileira temem que ocorra um “retrocesso”. A política externa brasileira manteve sua trajetória durante décadas e, para especialistas, o “desvio” no Itamaraty ocorreu durante a administração Bolsonaro, quando a pasta era liderada pelo diplomata Ernesto Araújo e o assessor especial da Presidência, Felipe Martins, então sob a influência ‘olavista’.
Multilateralismo x ‘submissão’
Na gestão de Lula, o Brasil optou por intensificar o multilateralismo, recorda ao Brasil 247 um embaixador sob a condição do anonimato. “Mas, dependendo do resultado do segundo turno da eleição presidencial, a política externa brasileira corre o risco de um imenso retrocesso. De passar da soberania à submissão aos Estados Unidos”, disse o experiente diplomata. “O Brasil é grande demais para virar submisso. Torcemos para que isto não ocorra”. A eleição legislativa nos Estados Unidos (além da eleição no Brasil) é, por isso mesmo, muito importante para o Brasil e o restante da América Latina.
Brasil e seus vizinhos
Nos bastidores do poder em Brasília costumam recordar que Milei é “a única figura” com quem o presidente Lula não dialoga. “É verdade que o presidente Lula apoiou a eleição de Massa (do kirchnerismo) na disputa eleitoral com Milei. Mas o presidente Lula não fez como o argentino que chegou aqui no Brasil e o insultou diretamente (ao lado de Flávio Bolsonaro na convenção do PL)”, disse um dos entrevistados.
“Gigante da América Latina”
Neste ano de 2026, o mundo viu as ações mais diretas e mais intensas do governo Trump em relação à América Latina. Foram os casos do sequestro de Nicolás Maduro, da Venezuela, do lançamento do Escudo das Américas (que, além de segurança, envolve recursos naturais) e das declarações sistemáticas de Trump em relação à América Latina, reforçando a tese sobre a ‘Doutrina Donroe’ – em lugar de Monroe. Por tudo isso, a eleição no Brasil é importante para os rumos políticos, econômicos e sociais do nosso próprio país, mas também para a política externa deste país, que é chamado por seus vizinhos de “gigante da América Latina”.


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