Quem tem o direito de contar a favela?
“Não queremos apenas aparecer na tela. Queremos decidir como nossas histórias serão contadas”
Em um marco para a literatura e a historiografia do audiovisual nacional, o cineasta, produtor e ator Luciano Vidigal e a jornalista, escritora e pesquisadora Isabella Rosado Nunes lançam a obra coletiva “Cinema de Favela”. Celebrando a potência estética e política do audiovisual periférico, o livro terá seu primeiro pré-lançamento no dia 22 de setembro, durante a edição de 2026 do prestigiado Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul. Um segundo evento de pré-lançamento ocorrerá no dia 28 de setembro, no Cine Nós do Morro, na comunidade do Vidigal, Zona Sul do Rio de Janeiro.
Realizado pela Dualto Produções e pela MINA Comunicação e Arte, com o apoio do Edital da Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, o livro propõe um debate profundo sobre diversidade, identidade e descentralização cultural. A obra atua como um manifesto e um registro crítico sobre a renovação estética, ética e política que vem transformando o cinema brasileiro nas últimas duas décadas, impulsionada pelo advento do cinema digital e pelas narrativas pensadas e produzidas a partir das favelas.
Autoria coletiva
“Cinema de Favela” conta com um prefácio inédito de Cacá Diegues (in memoriam), intitulado “Uma ponte sobre a cidade partida”. A abertura do livro traz o artigo “Daqui de Cima”, assinado por Luciano Vidigal, enquanto o posfácio “Damos nossa palavra” foi escrito por Isabella Rosado Nunes.
O corpo da obra reúne mais oito artigos de cineastas e pensadores negros de diversas regiões do país: Camila de Moraes, Daniel Bandeira, Emílio Domingos, Gabriel Martins, Gaut, Luciana Bezerra, Paulo Lins e Rayane Penha. Esses profissionais revisitam suas trajetórias e chamam a atenção para a diversidade cultural das favelas e periferias na criação da arte.
Para Luciano Vidigal, a publicação é um documento que norteará futuras gerações, ampliando o entendimento sobre a potência de uma produção que faz o Brasil repensar suas adversidades e diversidades.
“São dez artigos, dez autores diferentes, negros, fazedores do cinema de favela, conhecedores de como o campo de cinema transforma vidas e levanta discussões importantes para os corpos negros, periféricos, favelados. São textos escritos por quem vivencia e realiza cinema nesses territórios. A diversidade territorial de dentro das próprias Comunidades, as falas de cada um com seu olhar para a diversidade do Brasil. Essa obra trabalha o imagético também, trazendo fotos da memória do audiovisual periférico que se tornam arquivos históricos e referenciais para os futuros artistas/fazedores da sétima arte”, explica o cineasta.
Sobre o primeiro pré-lançamento, Luciano destaca o peso histórico do espaço escolhido: “lançar o livro num evento que leva o nome de Zózimo Bulbul que é mentor para toda uma geração que faz o cinema negro no lugar humano, poético, político, nome de peso para a herança na produção do cinema com reflexões sobre valorização dos corpos pretos nas telas do cinema, só reforça a importância da publicação e de movimentos como este”.
Desconstruindo rótulos e hierarquias
Com uma escrita livre e reflexiva, a publicação cumpre um papel crítico ao desconstruir hierarquias culturais e questionar os conceitos de centro e periferia a partir de um pensamento intelectual e estético de alcance universal. O livro propõe novas metodologias de criação e questiona o monopólio de quem fala e para quem se fala.
De acordo com Isabella Rosado Nunes, mais do que discutir o cinema feito nas periferias, a obra desafia categorias preconceituosas que excluem ideias essenciais: “Duvidar sobre o que é de dentro, de fora, da margem, do centro, regional, nacional ou universal nos parece essencial diante de uma sociedade que nomeia a partir de preconceitos e exclusões para criar hierarquias e estereótipos”, afirma a escritora.
Ela complementa sobre o processo da obra: “É um livro sobre os filmes que as autoras e os autores dirigiram, roteirizaram, produziram, distribuíram; sobre o que pensam, por onde caminharam; é, também, sobre a oralidade, a prática e a vivência de cada uma e cada um. Uma escrita coletiva a partir de quem criou esse novo lugar”.
Luciano Vidigal reforça a necessidade da autoria: “É necessário repensar esses lugares de identidade, determinar essa referência, precisamos contar e produzir nossas próprias histórias. Esse livro reforça o entendimento sobre pertencimento, sobre o que é o Brasil através do cinema de favela pela ótica da literatura. A favela faz parte do sistema. É um espaço de potência cultural. De quem tem o que falar e capacidade de dar luz às suas próprias narrativas. Eu diria que é um movimento de referência sobre a relevância cultural da favela e dos que fazem essa força ser cada dia mais viva, capaz de levar a vida real com todas as letras para a tela do cinema”.
Estrutura dos Capítulos:
Sobre os Organizadores:
Luciano Vidigal
Ator, cineasta, produtor e professor de teatro. É diretor do episódio “Concerto para violino”, que compõe o filme Cinco vezes favela – Agora por nós mesmos (2010), produzido por Carlos Diegues e Renata Almeida Magalhães. O longa integrou a Seleção Oficial do Festival de Cannes (2010) e recebeu os prêmios de Melhor Filme Ficção (júri oficial e popular), Melhor Atriz e Ator Coadjuvante, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora e Melhor Montagem no Festival de Paulínia de 2010. Professor da ONG Nós do Morro, dirige peças de teatro e curtas-metragens, como Neguinho e Kika, premiado nos festivais de São Paulo, Londrina, Rio de Janeiro e Marseille (França). Trabalhou na preparação de elenco do filme Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles. Como ator, participou de diversos longas, entre eles Orfeu (1998), de Carlos Diegues; O primeiro dia (2000), de Walter Salles; e Proibido proibir (2006), de Jorge Durán. Em 2013, lançou o documentário Cidade de Deus – 10 anos depois, em codireção com Cavi Borges, adquirido pela Netflix e exibido globalmente. É também roteirista e diretor de Kasa Branca (2024), produção enaltecida por sua sensibilidade e inovação criativa, vencedora de quatro prêmios no Festival do Rio de 2024 (Melhor Direção de Ficção, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora). Em junho deste ano, foi agraciado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro com a Medalha de Mérito Pedro Ernesto — a maior honraria da Casa — em reconhecimento à sua contribuição à cultura e ao audiovisual brasileiro.
Isabella Rosado Nunes
Jornalista, pesquisadora, escritora e diretora da MINA, um espaço de produção coletiva e pensamento livre focado em promover vozes e causas diversas. Acumula mais de 35 anos de experiência nas áreas de Criação (Startup), Direção de Instituição Cultural, Gestão Estratégica Corporativa, Comunicação Corporativa e Responsabilidade Social Empresarial. Pela MINA, desenvolve projetos que unem arte e comunicação, destacando-se a publicação de livros de autoria coletiva, como: Escrevivência: A escrita de nós. Reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo (2020); Jenipapos: Diálogos Sobre Viver (2022) — vencedor do Prêmio Literário Biblioteca Nacional – Akuli (2023); Cidade Partida – 30 Anos Depois: Reflexões sobre a Obra de Zuenir Ventura (coedição MINA/Blooks, 2024); Cidade Partida – 30 Anos Depois – Seminário (coedição MINA/Blooks, 2025); e Raízes do Amapá: História e Cultura dos Povos Indígenas e Afro-brasileiros (coedição MINA/Sesi AP, 2025).


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