É proibido errar na eleição em que detalhes definirão entre democracia e barbárie
Em uma eleição que será decidida nos detalhes, é proibido errar. A candidatura do presidente Lula começou a semana saboreando, na segunda-feira (28), duas pesquisas de opinião, BTG/Nexus e Quaest, que lhe deram 5 pontos de vantagem sobre o adversário da extrema-direita. Na sequência, Flávio Bolsonaro cometeu o pecado eleitoral de atacar a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) no contexto da intenção de seus correligionários de retirarem do ícone católico Nossa Senhora de Aparecida a condição de padroeira do país. Esse movimento foi um erro eleitoral nítido, uma vez que motivou a cúpula do catolicismo a acirrar a defesa da santa representativa da fé religiosa do povo brasileiro, com impacto negativo para Flávio entre o eleitorado católico.
A divulgação das mensagens trocadas entre Flávio e o ex-sócio Alexandre Santini, também nesta reta final da disputa, expôs ainda mais a candidatura bolsonarista. Ficou claro que ele recebeu presentes caros de pessoas interessadas em acesso privilegiado ao sistema de justiça. A situação se agravou com a revelação de que o candidato extremista participou de orgias organizadas pelo antigo parceiro, com grande repercussão negativa nas redes sociais. Como se diz no boxe, Flávio foi para as cordas, atordoado em razão de seus próprios erros.
Do lado da candidatura à reeleição, sobre a qual a mídia tradicional acentua as falhas e esconde as qualidades, o improviso arriscado nos palanques dos grandes comícios também suscitou erros. Em Belém, ao discursar diante de milhares de pessoas, também na segunda-feira, o presidente Lula abordou a questão da importância, para os homens, da realização de exames regulares para detecção do risco de câncer de próstata. Ele disse que muitos homens são covardes por não realizarem a checagem periodicamente, enquanto as mulheres “aprendem a tomar toque desde pequenas”. Foi o que bastou para a máquina de contrainformação bolsonarista divulgar que Lula havia se referido à importunação sexual de crianças, quando, na verdade, estava abordando a cultura feminina de cuidar melhor da saúde na comparação com o público masculino. Uma frase pequena, retirada do contexto, que está custando dor de cabeça para a campanha do campo democrático.
A distorção da frase dita por Lula em Belém foi comandada pelo deputado Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais. Qualquer pessoa que acompanha os esforços desse personagem para se manter em evidência sabe que, para ele, a regra vigente é a do vale-tudo. Condenado pelo TSE, dois anos atrás, por disseminar fake news contra o presidente Lula em suas redes sociais, trata-se de um franco-atirador posicionado na extrema-direita do campo político. Não tem compromisso com fatos e informações, mas apenas em aparecer como polemista, fazer as vezes de valentão e praticar métodos populistas que juntam agressividade e irresponsabilidade. Um problema para os adversários está em seu poder de repercussão, dono de estimados 22 milhões de seguidores no Instagram. O jogo rasteiro de Nikolas é um perigo real para a democracia brasileira, fruto das distorções de um modelo permissivo de comunicação com poucas travas contra mentiras e desinformação.
Com esse histórico, Nikolas deveria, por questão de segurança, ser solenemente ignorado pela campanha de Lula. Mas não foi isso o que se viu no bem-sucedido comício de Salvador, ontem, que arrastou mais de 100 mil pessoas para ouvir o presidente. Lula sentiu-se atingido, como seria natural, e classificou o político mineiro de “canalha”. Para reforçar a crítica, passou o microfone para a primeira-dama Janja, que lascou um “piá de bosta” para se referir ao extremista.
Era tudo o que o mineiro queria. Ele aproveitou a deixa para intensificar os ataques ao presidente, acentuando o desgaste promovido pela distorção das palavras do mandatário. Flávio Bolsonaro também aproveitou o improviso arriscado de palanque para dizer que o “piá” Nikolas caminha para ser o candidato a deputado federal mais votado do país. A conferir.
Os erros de lado a lado estão custando caro para os dois lados em disputa nesta reta final da campanha de primeiro turno. Cada palavra está ganhando intensa repercussão, fazendo da proximidade com as urnas uma etapa de alta sensibilidade a deslizes. A mídia tradicional tem tratado escândalos como o do banco Master, no qual Flávio Bolsonaro está diretamente envolvido, com o mesmo peso jornalístico de palavras soltas em momentos de emoção em comícios numerosos. O critério principal é ferir Lula e proteger Flávio. Nesse contexto, quem menos pode errar é o presidente, que tem pela frente a difícil decisão de participar ou não, amanhã, do debate na TV Globo com os demais candidatos. Numa eleição ainda mais acirrada do que a de 2022, quando Jair Bolsonaro foi derrotado por pouco menos de 2% do total de votos pelo próprio Lula, todo cuidado é pouco.



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