Flávio prometeu “rebaixar” Nossa Senhora, sim!
Bastaria assistir à fala de Antonio Tabet no programa UOL News de 28 de setembro para que ficasse claro que é uma mentira imoral de André Mendonça e da mídia corporativa que Flávio Bolsonaro não propôs um golpe contra a Padroeira do Brasil.
Vejamos a transcrição do que ele disse:
“(…)Postei agora há pouco nas minhas redes sociais (…) uma pergunta real para todos os veículos de comunicação em relação ao uso do termo ‘fake news’, porque ‘fake news’ é realmente absurdo. Todos nós temos que combater as fake news.
A gente combate institucionalmente e publicamente. E eu acho que, ao rotular situações como essa de ‘fake news’, você acaba banalizando o tema e favorecendo quem de fato espalha fake news.
Nesse caso, o que aconteceu não foi fake news. O que aconteceu foi: teve um comentário da Maria Cristina Fernandes na GloboNews dizendo que setores da Igreja Católica estavam preocupados com um movimento para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Isso é verdade? É verdade.
A partir daí, resgataram um projeto de lei de 2007 de um deputado, o Victório Galli, que tinha a intenção de, entre aspas, ‘rebaixar’ Nossa Senhora Aparecida, tirando ela da condição de padroeira do Brasil e transformando-a em padroeira dos católicos. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
Anos depois, o Galli virou assessor especial de Jair Bolsonaro. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
O Galli está fazendo campanha para o Flávio Bolsonaro. Ele é visto na companhia do Flávio Bolsonaro. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
O Flávio Bolsonaro foi a público dizer que, se eleito, uma das primeiras coisas que faria seria declarar que o Brasil é um país de Jesus. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
Ele recorre ao Supremo Tribunal Federal, ao TSE, para derrubar milhares de posts. A grande maioria nem citava o candidato ou a candidatura pelo nome e falava especificamente da santa. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
Pouco depois, ele atribui a responsabilidade disso à CNBB, dizendo que a CNBB em conluio com o PT estava fazendo isso. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
A CNBB reage. É mentira ou é verdade? É verdade. E agora no país você vê, tem notícia de hoje, de ontem, de imagens santas que foram vandalizadas. Isso é mentira ou é verdade? É verdade.
Então, eu não entendo a narrativa de chamar uma sequência de verdades de “fake news”. Isso me parece muito estranho.”
É impossível negar que Tabet está coberto de razão. Mas ele se enganou em um ponto e esqueceu de destacar esse ponto. Flávio Bolsonaro não disse que “se eleito, uma das primeiras coisas que faria seria declarar que o Brasil é um país de Jesus”
Vale rever, textualmente, o que disse Flávio Nantes Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República Federativa do Brasil para um mandato de QUATRO ANOS (!!) :
“Eu quero debater, sim. Mas eu quero debater com quem está destruindo o Brasil e piorando a sua vida. […] Eu quero debater com quem é responsável por você, cidadão, estar parcelando em até seis vezes uma pizza no iFood. Eu quero debater com quem não acredita em Deus. Porque, quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.”
Captou, caro leitor? Talvez não. Ou, provavelmente não. Porque a diferença entre o que disse Tabet e o que disse Flávio é extremamente sutil, porém extremamente significativa.
Flávio não disse que um de seus primeiros atos seria “DECLARAR que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, ele disse, textualmente, que iria “DECRETAR que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”.
A diferença entre usar o verbo declarar e o verbo decretar é gigante, nesse contexto. O verbo declarar permite que Flávio diga que foi apenas “força de expressão”, pois “declarar” não torna o ato prometido uma medida de governo.
Já decretar significa que ele baixaria um decreto para instituir Jesus Cristo para o lugar de Nossa Senhora Aparecida, o lugar de novo protetor do Brasil — e Padroeira do Brasil significa protetora do país.
Analisando-se o contexto da fala de Flávio, usando o bordão evangélico de que “O Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, ele está aludindo à antiga e duradoura polêmica dos evangélicos contra imagens e santos católicos.
A lista de polêmicas é longa:
* Em 1995, um bispo da Igreja Universal chutou uma imagem de Aparecida na TV, no dia da santa.
* Em 2001, JB Carvalho, fundador da igreja em que Flávio foi batizado, escreveu num livro que “Deus odeia o culto à Rainha dos Céus”, um dos títulos de Maria.
* Em 2007, um deputado evangélico propôs que Aparecida deixasse de ser padroeira do Brasil para ser padroeira só dos católicos.
*Cidades como Carapicuíba (SP) e Nova Iguaçu (RJ) instalaram na entrada placas avisando que pertencem a Jesus.
Ou seja: para qualquer pessoa de boa-fé – e é de fé que estamos falando –, Flávio Bolsonaro tentou agradar os evangélicos prometendo algo que enorme parcela dos praticantes dessa ramificação do cristianismo acalentam.
Fake news uma ova!


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