Carcereiro de Lula lança livro e revela cotidiano do presidente na PF do Paraná
247 – As tensões, a rotina de isolamento e o diálogo político mantido durante a prisão injusta do presidente Lula (PT) na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba ganham registro detalhado na obra “Banho de Sol: os 580 dias da prisão de Lula”, do agente policial Jorge Chastalo Filho. O livro, publicado pela editora WMF Martins Fontes, organiza em 592 páginas a experiência de acompanhar o líder petista ao longo de todo o período em que permaneceu detido na capital paranaense, informa a Folha de São Paulo.
Em um formato estruturado como diário cronológico, a publicação expõe inclusive o trajeto inicial de transferência de Lula, em abril de 2018. Durante o voo de helicóptero de 15 minutos do aeroporto Afonso Penna até o prédio da Polícia Federal, frequências de rádio captaram hostilidades direcionadas à comitiva. Frases como “joguem esse lixo pela janela” e “não o soltem nunca mais” ressoaram na fonia do sistema aéreo.
A atitude provocou a intervenção imediata do piloto que comandava a aeronave: “peço que respeitem meu trabalho e se limitem a falar na fonia somente o essencial”. Na sequência, o controle de tráfego aéreo do aeroporto do Bacacheri reforçou a advertência, frisando “que toda fonia é gravada, e isso poderá ser utilizado contra vocês [quem se manifestava]”.
Ao ingressar nas instalações da PF, Lula apresentou uma postura silenciosa e abatida. “Me senti constrangido com a situação”, relembra Chastalo no livro. O espaço reservado para a custódia era composto por uma cama de solteiro, uma mesa quadrada de alumínio, uma cadeira e um armário antigo. As duas janelas do recinto possuíam grades e correntes que limitavam a abertura a apenas dez centímetros. Entre os pertences do então ex-presidente estavam poucas peças de roupa — dois calções, uma calça de moletom, três camisetas e um chinelo branco —, além de um kit de higiene. Utensílios como cortador de unhas e barbeador ficavam sob guarda da equipe e só eram liberados mediante pedido.
Diante do cenário, a convivência diária aproximou Lula e o policial, que passou a ser chamado pelo presidente de “querido” e virou alvo de brincadeiras sobre seu cabelo. O agente também tomou providências para garantir a segurança dos mantimentos de Lula. No segundo dia, encomendou uma refeição em um restaurante da região: “não pela qualidade da comida da PF, mas por cuidado mesmo. Imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida”.
O acesso ao ambiente externo ocorria em uma área sem aberturas laterais, cercada por paredes de dois metros, anteriormente destinada a reuniões e fumantes. A primeira saída para o ar livre aconteceu apenas no quarto dia de detenção, ocasião em que Lula externou desconforto e comparou o local a uma jaula.
Entre as poucas solicitações feitas durante o período esteve uma bola de futebol para brincar com o neto Arthur, de sete anos, com quem costumava desenhar em folhas em branco ao longo das visitas familiares. A criança faleceu em abril de 2019. A ida ao sepultamento do neto foi uma das duas únicas oportunidades em que Lula teve permissão para deixar o prédio — a outra ocorreu para prestar depoimento na 13ª Vara Federal de Curitiba. Três meses antes, o pedido para acompanhar o velório do irmão Vavá havia sido negado sob a justificativa de falta de tempo hábil.
Durante os 580 dias de custódia, as conversas entre o agente e o atual mandatário versavam de forma contínua sobre o cenário nacional. O policial ressalta no diário que os diálogos “quase sempre foram sobre política” e aponta que “são poucas as confissões que guardei”. Em uma das ocasiões, Lula analisou os desdobramentos da Operação Lava Jato e comentou sua relação com Marina Silva (Rede-SP), afirmando que gostava muito da ex-senadora e ministra, mas que ela havia ficado “muito carola”. Tempos depois, a reaproximação política entre ambos consolidou-se na campanha eleitoral de 2022, resultando na recondução de Marina ao Ministério do Meio Ambiente.
O cotidiano da cela também registrou momentos de contrariedade. Em um determinado dia, o presidente demonstrou forte irritação ao saber que seu passaporte havia sido furtado do veículo de um assessor. Embora o policial houvesse recomendado que o episódio não fosse relatado a Lula para evitar sobressaltos, uma comitiva de 11 senadores acabou repassando a notícia durante uma visita.
Ao tomar conhecimento do fato, Lula interpelou o agente: “você sabe o que aconteceu com meu passaporte?”. Logo em seguida, desabafou: “tem adulto que parece criança. Quando tira nota boa na escola, vem logo mostrando o boletim, mas, quando tira nota vermelha, diz que não recebeu o boletim do bimestre”.
A operação logística para receber o presidente exigiu três dias de planejamento prévio e a elaboração de quatro planos estratégicos. “Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso”, pontua o policial. A rotina de vigilância envolvia ainda o monitoramento de drones que sobrevoavam o prédio em busca de registros fotográficos, além da gestão do contato com veículos de comunicação, sobre o qual o autor relata ter tido uma “primeira experiência desagradável”.
Para evitar o uso do livro como “peça política ou instrumento de campanha”, a editora WMF Martins Fontes optou por aguardar o término do processo eleitoral para efetuar o lançamento. A articulação do projeto contou com a intermediação do jornalista Juca Kfouri, que conheceu Chastalo durante uma visita a Lula na prisão em abril de 2019 e, mais tarde, ao entrevistá-lo para a TVT ao lado de José Trajano.
O processo de edição foi liderado pelo jornalista Lino Bocchini. “O Jorge Chastalo teve uma sacada muito grande. Ele começou a fazer o relato antes mesmo de o Lula chegar na cela. Ele só não conta de um ou outro dia que ele teve folga”, avalia Bocchini. O texto original do policial passou por uma redução substancial de páginas para eliminar trechos considerados irrelevantes e adequar a linguagem. “O Chastalo é uma pessoa com muito boa educação, que escreve bem, mas o original ainda tinha muitos jargões policial. Tivemos que adaptar para o leitor comum e dar um jeito de não ficar excessivamente grande”, explicou o editor.



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