Tetra de Lula, janonismo e o fim da direita festiva bolsonarista
O ano de 2026 entra para a história política brasileira como o momento em que começou a ruir uma determinada forma de fazer política pela extrema direita: a direita festiva, escrachada e provocadora que encontrou no bolsonarismo sua expressão mais acabada.
Durante anos, o bolsonarismo apresentou-se como novidade antissistema. Sua linguagem combinava agressividade, irreverência, provocação e aquilo que seus defensores costumavam chamar de “humor ácido” ou “humor negro”. A estratégia consistia em transformar a ofensa em piada, a discriminação em provocação e a violência verbal em demonstração de coragem.
Essa fórmula funcionou durante algum tempo. Mas a política baseada permanentemente na catarse, na humilhação do adversário e no escárnio possui uma fragilidade fundamental: a piada pode perder a graça. E, quando perde a graça, resta a ofensa.
É justamente aí que se encontra uma das chaves para compreender o colapso político do bolsonarismo.
Toda ideologia política carrega contradições. Cabe à liderança política convencer a sociedade de que possui respostas plausíveis para administrá-las. No Brasil, uma das contradições fundamentais é conhecida por todos: como controlar as contas públicas sem abandonar milhões de brasileiros à desigualdade?
A direita tradicional costuma responder priorizando o controle do gasto público, muitas vezes aceitando como consequência a manutenção de desigualdades. O campo progressista, por sua vez, procura utilizar os recursos do Estado para reduzir essas desigualdades, enfrentando, ao mesmo tempo, os limites fiscais existentes.
O bolsonarismo tentou transformar essa discussão complexa em espetáculo político.
Sua força não estava propriamente na elaboração de uma nova resposta para os problemas brasileiros, mas na capacidade de transformar a política em entretenimento, confronto e provocação. O adversário deveria ser ridicularizado. A controvérsia deveria substituir a discussão. A indignação deveria produzir engajamento.
O problema é que a sociedade também julga o espetáculo.
Quando Flávio Bolsonaro recorreu à expressão “nove dedos” para atacar Lula, pretendia repetir uma velha fórmula de desqualificação política. A estratégia procurava transformar uma característica física do presidente em instrumento de escárnio. Em outro episódio, a tentativa de fazer graça em torno da morte de uma criança de apenas cinco anos, Ana Clara, atingida por uma bala perdida, mostrou os limites dessa política do deboche.
Diante da morte, a piada deixa de ser irreverência.
Torna-se insensibilidade.
E o julgamento do público pode ser implacável.
É nesse cenário que aparece o chamado janonismo. Mais do que uma simples estratégia eleitoral, a mobilização conduzida por André Janones ajudou a produzir uma mudança importante na linguagem política brasileira: a transformação do eleitor comum em protagonista da disputa.
Ao convocar um verdadeiro “exército de Lula”, Janones ajudou a mostrar que o Brasil não pertence a uma elite política que reivindica para si os símbolos nacionais. O verde e o amarelo não são propriedade da direita. A bandeira brasileira não pertence ao bolsonarismo. O patriotismo tampouco pode ser monopolizado por um grupo político.
O Brasil é do povo brasileiro.
E essa talvez tenha sido uma das grandes lições da eleição de 2026.
O quarto mandato presidencial de Lula não pode ser compreendido apenas como resultado de uma disputa entre candidatos. Ele representa também o resultado de uma mudança de percepção da sociedade sobre o próprio fenômeno político.
Lula chegou a 2026 diferente do Lula de outros períodos. Mais experiente, mais paciente e, sobretudo, profundamente conhecedor das contradições brasileiras. Em vez de disputar com a extrema direita no terreno da provocação permanente, o presidente parece ter escolhido outro caminho: o da experiência, da paciência e da capacidade de sobreviver politicamente às crises.
Essa experiência foi decisiva.
Ao longo da campanha, a estratégia de Lula expôs os limites de uma direita que apostou demasiadamente na provocação e pouco na construção de um projeto nacional capaz de dialogar com a maioria dos brasileiros.
O resultado foi o tetra.
Mas talvez o significado mais importante desse quarto triunfo seja outro: a demonstração de que o Brasil não está condenado ao espetáculo permanente da política como entretenimento.
A extrema direita ainda existe e continuará fazendo parte da democracia brasileira. O que parece estar chegando ao fim é uma determinada forma de expressão dessa extrema direita: aquela que mistura humor, ódio, preconceito e humilhação e depois tenta esconder tudo sob o argumento de que “era apenas uma piada”.
Não era.
E os brasileiros perceberam.
Há, nesse processo, uma dívida importante com os jovens da Geração Z. Eles cresceram em um ambiente político profundamente marcado pelas redes sociais e aprenderam, talvez antes de outras gerações, a desconfiar da política transformada em espetáculo. Conheceram o meme, a provocação e a linguagem da internet, mas também perceberam que a vida real é muito mais complexa do que uma postagem viral.
A nova geração pode não rejeitar o humor político. Pelo contrário: ela sabe utilizá-lo muito bem. O que parece rejeitar é a ideia de que o humor possa servir como salvo-conduto para o preconceito, a crueldade e a desumanização do outro.
É possível fazer política com humor sem fazer do adversário um inimigo a ser destruído.
É possível defender a responsabilidade fiscal sem transformar os pobres em culpados pela crise do Estado.
É possível defender políticas sociais sem ignorar os limites das contas públicas.
E é possível ser patriota sem transformar a bandeira brasileira em instrumento de exclusão.
Talvez essa seja a grande novidade que 2026 deixa para o Brasil.
O país não acabou com a direita. Tampouco acabou com a extrema direita. A democracia continuará produzindo disputas, contradições e conflitos.
Mas o Brasil pode estar encerrando o ciclo da direita festiva bolsonarista — aquela que confundiu agressividade com força, escárnio com inteligência e viralização com projeto político.
O tetra de Lula é, portanto, mais do que uma vitória eleitoral.
É também o sinal de que, depois de tantos anos de política transformada em espetáculo, uma parte significativa da sociedade voltou a procurar aquilo que a política deveria oferecer desde o princípio: esperança, responsabilidade e um projeto de país.
E, desta vez, talvez os jovens tenham sido os primeiros a perceber que o Brasil-piada acabou.



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