Pautas antissistema e anticorrupção e polarização ideológica na disputa do segundo turno
Na esteira das análises sobre o resultado do primeiro turno da disputa pelo Palácio do Planalto, Felipe Nunes, da Quaest, avalia que escândalos e crises políticas, como o caso do Banco Master e as fraudes nas aposentadorias, passaram a ser interpretados pelo eleitorado como problemas do próprio sistema político, e não de uma candidatura específica. Ele afirma ainda que a identificação ideológica orientou claramente as escolhas eleitorais.
Em paralelo, integrantes da campanha lulista dizem que a crise do Supremo Tribunal Federal (STF) afetou o desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na medida em que os ruídos gerados pelos vazamentos impediram a comparação entre as candidaturas de Lula e do senador Flávio Bolsonaro.
Ou seja: o senador Bolsonaro foi poupado do desgaste esperado porque o eleitorado atribuiu a responsabilidade ao sistema. Por outro lado, entre a atenção às propostas, o balanço de políticas públicas e o debate econômico, prevaleceu o foco nos escândalos e nas crises políticas. E isso ocorreu sob a regência de uma polarização ideológica acirrada, isto é, de visões de mundo e de cultura. A dinâmica polarizada recortou todas as dimensões da campanha, da aprovação do governo aos limites dos efeitos positivos e negativos das notícias.
Em comum, essas percepções compartilham a conclusão tácita de que o sentimento antissistema, permeado pelo impulso anticorrupção, prevalece como vetor, em meio a uma parcela exígua da população que escolhe entre as abordagens de esquerda e de direita. Não por acaso, o início da onda conservadora no Sul e no Sudeste coincidiu com um programa da campanha bolsonarista, no horário eleitoral, pregando contra o sistema, mas ressaltando que ele não muda de uma vez, e a “velha política”.
De grosso modo, isso sugere que a vantagem potencial reside em se diferenciar do sistema político, em relação às más práticas e condutas a ele atribuídas, apresentar uma agenda concreta de combate à corrupção, por dentro de generalidades como a reforma do Legislativo e do Judiciário, e direcionar o sentimento antissistema para alvos que estejam acima da comparação entre candidaturas.
Reação lulista
A favor da reação lulista, segmentos como católicos, mulheres e trabalhadores de baixa renda, que compõem a base do presidente, são majoritários na população. Neste último segmento, que é transversal como os outros, há mais potencial disponível para um posicionamento enfático contra o setor que celebrou, com o Ibovespa acima de 200 mil pontos, o dólar abaixo de R$ 5 e os juros futuros em queda, a vantagem de Flávio no primeiro turno. Aliás, a nítida preferência de investidores e empresários por ele embute a marca de candidato do chamado andar de cima.
Nesse sentido, no Nordeste, inclusive como reflexo possível da onda conservadora no Sul e no Sudeste, há margens ainda a serem exploradas, valiosas em uma disputa que terminou a etapa inicial com menos de dois pontos percentuais de diferença para a oposição.
Isso, porém, não significa que programas sociais, bandeiras trabalhistas, melhora econômica, soberania e comparação de gestões sejam secundários. Eles fazem parte do arcabouço que sustentou a posição de Lula no primeiro turno. Para especialistas, basta que haja uma explicação mais politizada, sob viés classista, dessas entregas. Um teste tende a ser a análise da votação, pelo Senado, do fim da escala 6×1, a partir de terça-feira.
Com a reação da Bolsa, as primeiras adesões do Centrão ao senador Bolsonaro, como a da federação União Progressista, e o revés de nomes como Davi Alcolumbre, Hugo Motta, Renan Calheiros e a família Barbalho, Lula pode aproveitar sua maior liberdade para criticar, ao mesmo tempo, os estabelecimentos econômico e político. Em relação a este último, provavelmente sem o risco de perder franjas aliadas, uma vez que elas já estão emparedadas pelo resultado do PL para o Congresso, principalmente para o Senado. A partir de 2027, se reeleito, o chefe do Executivo terá de sustentar mais sua popularidade do que sua governabilidade parlamentar, sob risco real de sofrer um processo de impeachment.
Dando preferência a uma abordagem antissistema e à disputa pela bandeira anticorrupção, Lula tem condições de ampliar a mobilização para reduzir a abstenção, que ficou apenas um ponto acima da média histórica, e de qualificar a batalha pela migração dos votos da direita alternativa, mobilizados em torno do perfil outsider de Augusto Cury, e do vetor antissistema e anticorrupção relevante nas bases de Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. Essa relevância também existe nos grupos populares e na classe média, onde, conforme especialistas, está mais concentrado o voto indeciso e já houve entusiasmo com o PT antes do partido ser alvejado por denúncias a partir de 2005.
O senador Bolsonaro, por sua vez, assumiu a condição de favorito, mas também de principal vidraça da eleição, deixando ao petista o papel de franco-atirador. Sem redirecionamento lulista, navegará em sua vantagem nas intenções de voto, em um possível acordo para fazer um governo de transição para Tarcísio de Freitas em 2030 e na vulnerabilidade do Judiciário para conter excessos retóricos e de campanha. Enquanto isso, o posicionamento mais ideológico exigido pelo eleitorado não é incompatível com uma frente ampla democrática, pois esta funciona como antídoto à própria abordagem antissistema da direita, focada nas instituições, preservando também as pontes de diálogo com o centro e com o eleitorado moderado.
Para o segundo turno, agentes econômicos prevêem uma diferença de 3 a 4 pontos percentuais para o senador Bolsonaro nas próximas pesquisas, com suas chances de vitória estimadas em 70%. O vitorioso no primeiro turno sempre venceu as disputas presidenciais, mas Jair Bolsonaro foi também o primeiro incumbente a não ser reeleito no país.


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