A ética no país das maravilhas
Esta análise muito particular do resultado das eleições é tão sem importância quanto milhares de outras que estão circulando nas redes sociais. Não proponho ideias novas, apenas reciclar algumas velhas.
A primeira e basilar versa sobre o “desgaste” por ser governo por três vezes, além de duas eleições de Dilma. Lula está disputando o 4º mandato. É certo que seu rival não é exatamente novo, mas ocupou o papel da novidade. Coisa de marketing: misturar tudo e colocar a culpa “no governo”, ou seja, Lula.
Esse foi o peso da onda mundial de crescimento da direita mais “retrógrada”. E a resposta da esquerda – tudo aquilo que não fosse antipovo, longe de ideias de esquerda típicas – foi aceitar o jogo e transformar seu marketing numa vitrine de programas feitos no passado.
E o povo parece ter decorado aquela frase dos folhetos dos bancos de que “o sucesso do passado não garante resultados no futuro”. A decoreba não serviu para comparar óbitos por falta de vacinas com violência cotidiana e “falangeira” do Rio de Janeiro.
E o voto útil na direita foi em muito ampliado pela Rede Globo, que deu a notícia antes de ela ter acontecido. Quem nem sequer pensava nisso encontrou na Globo o respaldo para decidir.
Flávio Bolsonaro usou e abusou da confusão, misturando fatos e versões e propondo soluções que já não deram certo muitas vezes. A comunicação foi derrotada. O fundo partidário foi gasto com agências de publicidade que fizeram muito pouco.
Parece-me que os marqueteiros da esquerda esqueceram de dizer ao candidato que as questões éticas também foram valorizadas nesta eleição.
STF, INSS e Master foram o centro de boa parte do noticiário, e o governo ficou calado. No governo FHC havia uma Comissão de Ética Pública, que determinava o que os ocupantes de cargos públicos podiam fazer e, principalmente, o que não podiam fazer. Caberia a Lula recriar essa comissão, dando poderes a ela para afastar os servidores até a conclusão da investigação, que teria um tempo máximo. Os “presentes” também seriam alvo dessa comissão, assim como qualquer relação com empresas ou pessoas com interesses com o governo.
No caso do STF, embora não seja assunto do governo, mas do partido por conta da posição dos seus parlamentares, ele deveria ter dito algo como “a mulher de César não basta ser honesta, ela deve parecer honesta” e pedido à PF que listasse todos os servidores públicos que participaram das festinhas, surubas, charutadas ou tiveram algum tipo de relação com Vorcaro. E aí afastaria quem pudesse e pediria aos ocupantes de cargos com mandato que se afastassem dos cargos enquanto se apura se houve ilícito.
Quanto ao INSS, diria que todos os ladrões estão presos, inclusive os indicados neste governo, e assumiria o erro de ter nomeado Luppi ministro.
Para completar, afastaria Jaques Wagner, por quem tenho o maior respeito e consideração, de todos os cargos que tem no governo, deixando claro que corta na carne, porque é o exemplo da nação.
Na verdade, penso numa nova persona para Lula, menos celebrando o passado e mais um exemplo para o futuro. Cabe a ele ensinar ao nosso país que certas escolhas são políticas. E carregam o peso de serem difíceis de compreender. Mas é preciso que os cidadãos sempre possam ter claro que se jogar de braços abertos numa candidatura que defende anistia a golpistas, crime organizado e a misoginia não é compensação nem punição por erros de gestão. Ética raramente é a discussão do certo contra o errado.
As escolhas são nossas, e não adianta usar a camiseta amarela como se escondesse alguma vergonha por votar em determinado candidato. Todos somos senhores do nosso voto, queiramos ou não.



Pautas antissistema e anticorrupção e polarização ideológica na disputa do segundo turno
Muito barulho, poucas ideias
O buraco é mais em cima