Muito barulho, poucas ideias
Do A Terra É Redonda
1.
Um dos raros consensos que se pode extrair desta campanha eleitoral, talvez o único, foi o deserto de propostas que a caracterizou.
A questão da segurança atormenta os grandes centros urbanos. Uma parte importante dos seus territórios, sobretudo onde vivem as gentes mais pobres, já passou para as mãos dos traficantes e/ou dos milicianos que mal se distinguem entre si porque se igualam extorquindo as populações sob seu controle.
É certo que a responsabilidade pela segurança pertence aos governos estaduais, mas quem é, nesta altura, suficientemente estúpido para não perceber que os malfeitores atuam em escala nacional e internacional e que ações limitadas aos estados estão destinadas ao fracasso? Entretanto, alguma candidatura foi capaz ou se interessou por discutir seriamente o problema? E apresentar propostas para lidar positivamente com ele e superá-lo a longo prazo?
A corrupção, a partir do epicentro localizado na “ilha da fantasia”, codinome de Brasília, infesta todos os poros da República. Os candidatos são avaliados como desonestos pela imensa maioria dos eleitores. Um aventureiro chega do nada, funda um banco e suborna dirigentes políticos, supremos juízes, funcionários do Banco Central, raspa as economias dos aposentados e se prepara agora para participar de uma imensa pizza que já está no forno recebendo os últimos temperos.
Sabemos que a corrupção é inevitável, está nos evangelhos que a “carne é fraca”, mas não se poderia combatê-la de forma mais eficaz? Enquanto as prisões estão coalhadas de pobres e pretos, uma altíssima proporção sem culpa formada, e também sem advogados, os facínoras de colarinho branco passeiam tranquilos, sempre beneficiados pela impunidade proporcionada pelas pegadinhas jurídicas ou pela prescrição de penas que interrompem ou anulam demorados processos que se arrastam a golpes de recursos.
Tudo, claro, de acordo com o devido processo legal. Alguém sabe dizer, para além das condenações altissonantes, de alguma proposta consistente visando atenuar a gangrena da corrupção, de alguma legislação que seja capaz de coibir a impunidade?
2.
A educação enfrenta problemas estruturais. Algumas pequenas melhorias, a passos de tartaruga, são celebradas como notáveis progressos. Perante os índices internacionais, o país está praticamente estagnado. Os avanços vertiginosos das revoluções científico-tecnológicas desafiam as imaginações. Diversos países que, há vinte ou trinta anos, ocupavam posições inferiores às do Brasil, ultrapassaram em muito os níveis alcançados por aqui.
De que adianta falar em soberania nacional quando as comunicações do país, inclusive as que viabilizam informações e deslocamentos das forças armadas, encontram-se em mãos de empresas internacionais? O país precisa de uma política a longo prazo de ciência & tecnologia assim como um ser vivo precisa de oxigênio. Alguma candidatura comprometeu-se com propostas neste sentido?
No âmbito da saúde, a Constituição de 1988 deu um notável passo adiante, a criação do Sistema Único de Saúde, o SUS. Desempenhou inestimáveis serviços durante a pandemia em 2020. Mas ninguém ignora a precariedade na qual se debatem médicos, enfermeiros e pessoal auxiliar nos hospitais e postos de saúde públicos espalhados pelo país.
Prova disso: quem pode paga planos de saúde particulares. Apesar dos preços escorchantes e dos maus serviços prestados por eles. Mas é a eles que as pessoas (que podem pagar) recorrem em caso de necessidade. Alguém conhece algum candidato que tenha apresentado uma proposta séria para reestruturar o SUS, enfrentando suas carências?
E o que dizer do meio-ambiente? É raro ver a crise climática aparecer nas pesquisas. Mas os especialistas não cansam de avisar: teremos pela frente enchentes, chuvas torrenciais, alterações bruscas de temperatura. Algum partido apareceu com um programa a este respeito? Um conjunto mínimo de providências a serem adotadas pelo novo governo a ser eleito?
E as Forças Armadas? Na defesa da soberania nacional, constituem instituições importantes. Entretanto, recentemente, vários generais envolveram-se num plano golpista que quase liquidou a democracia, evidenciando a razão de ser do bolsonarismo. A conspiração tinha ramificações e apoios em muitos níveis. É que as escolas militares continuam formando oficiais impregnados por noções obsoletas relativas ao período da guerra fria.
Enquanto o mundo entra numa fase marcada pela multipolaridade, profundamente instável, colocando novos desafios, e nos Estados Unidos, o governo de Donald Trump anuncia que as Américas são sua “área de influência”, nossos cadetes continuam a ser arengados por líderes de extrema-direita no combate ao “inimigo interno”. Há algum plano para compatibilizar as Forças Armadas com a democracia? Para infundir nos oficiais a elementar noção republicana que eles são funcionários públicos uniformizados?
E o que dizer das polícias militares, uma aberração em si mesmas, pois polícias haverão de ser civis em qualquer república que zele e proteja a cidadania, em vez de assustá-la e aterrorizá-la. Algum partido cogita de uma proposta de reforma das forças armadas e das polícias militares para que possam cumprir com sucesso suas funções essenciais?
3.
Ao invés de planos e propostas reformistas, a atual campanha foi marcada pelo medo. Entre os bolsonaristas, o ódio raivoso a um novo mandato de Lula. E, entre os que votam em Lula, o pavor de um novo período sob o bolsonarismo, equivalente à destruição da democracia brasileira. Além do medo mútuo, sobraram invectivas, denúncias, fake news, insultos, bets, culminando na surpreendente entrada em campo de Nossa Senhora de Aparecida.
É conhecida a advertência de Antonio Gramsci, um revolucionário italiano: ele preveniu que, em determinadas condições, uma crise pode ver o velho morrer e o novo não nascer; podem aparecer então os fenômenos mórbidos mais variados.
Daniel Vorcaro? Num outro momento, o mesmo revolucionário falaria da hipótese de um “equilíbrio catastrófico”, quando nenhuma força política tem capacidade suficiente para derrotar a adversária e construir uma nova ordem. Mas, ao mesmo tempo, nenhuma aceita ou consegue recompor de maneira estável a ordem existente.
Será o caso do Brasil? Talvez o país tenha deixado de estar perto do precipício e já esteja caindo nele. É certo que os mais otimistas sempre dirão que o Brasil é maior do que qualquer abismo. Mas a campanha atual não oferece campo para o otimismo. Escrevo na véspera da eleição e o meu voto em Lula foi muito mais um veto ao horror do bolsonarismo que a confiança numa mudança esperançosa.
Uma coisa é certa: a dependermos das atuais lideranças, o futuro é sombrio. Se a sociedade não se mobilizar e se organizar e, de suas entranhas, não surgir um movimento que consiga propor e realizar as reformas indispensáveis, este grande país ficará à deriva, grande apenas no tamanho, apodrecendo lentamente, e substituindo ideias construtivas pelo barulho, muito barulho.


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