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O Brasil é Lula!

20.10.2026 7 min read

para barrar a ascensão do neofascismo. Apesar das dificuldades vividas pela maioria das famílias brasileiras em seu cotidiano, existe a percepção de que a volta do bolsonarismo é uma opção ainda muito mais grave para o povo. Além do potencial recuo político e institucional na linha daqueles que tentaram patrocinar um golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o retorno de um Bolsonaro ao Palácio do Planalto abre o espaço para a implementação de uma política econômica de terra arrasada, a exemplo do que está acontecendo atualmente na Argentina. Esse é o caminho inequívoco para a recessão a pleno vapor, para as demissões em massa e para o fechamento de milhares de empresas.

É a economia, estúpido!

Mas o problema é que a estratégia que foi oferecida pela equipe do Ministério da Fazenda de Lula para sua própria reeleição se assenta sobre a falácia de um pseudo-sucesso na economia. Ao vender ilusões a respeito de um crescimento pífio do Produto Interno Bruto (PIB) e de um patamar mínimo dos índices de desemprego na série histórica, seus assessores garantiam ao Presidente Lula que o candidato Lula não teria problema algum em sua caminhada rumo à reeleição. Ocorre que os tecnocratas de planilha que cercam o Chefe do Executivo apenas deixaram de avisá-lo que as pesquisas de opinião seguiam desaprovando fortemente o governo.

O fato concreto é que a situação vivida pela maioria da população não era em nada semelhante aos indicadores bem comportados apresentados pelos puxa-sacos de sempre. O PIB realmente cresceu no ano passado, mas muito abaixo das necessidades do País e da média de países da América Latina e do mundo de forma geral. Em 2025, crescemos apenas 2,3%, uma queda em relação aos 3,4% de 2024. Esse número se revela mais baixo do que o crescimento médio do PIB no mundo, que ficou em 3,3% no ano passado. Caso consideremos apenas os chamados países integrantes dos BRICS, a diferença é ainda maior, uma vez que esse bloco foi puxado pelo crescimento da China e apresentou uma média de 5,0%. O quadro é agravado pela redução da atividade econômica imposta pela área econômica para o ano que se encerra em breve. O PIB de 2026 pode fechar abaixo de 2% e estamos no olho de tal queda.

Basta dessa babaquice de austeridade fiscal!

Por outro lado, o dado de desemprego estar no menor nível da série histórica esconde o fato de que os empregos gerados estão regidos pelas 2 reformas trabalhistas levadas a cabo por Temer e Bolsonaro. Lula havia prometido durante a campanha de 2022 revogá-las, mas nada fez a este respeito. Assim, as pessoas podem até estar empregadas, mas os postos de trabalho são instáveis e precários, com salários muitas vezes inferiores até mesmo a um salário-mínimo. Some-se a esse quadro o aumento extraordinário do endividamento das famílias e a chegada do fenômeno desastroso das apostas esportivas, as bets. A realidade objetiva que os vendilhões das planilhas não demonstram é que as condições de vida estão em clara involução.

Assim, de nada adiantou o governo tentar vender a imagem de as coisas melhoraram para conquistar o voto dos eleitores. Mais uma vez, no atual processo eleitoral cabe como uma luva aquela famosa frase do assessor de campanha do Bob Clinton, James Carville, em 1992 na disputa pela Casa Branca: “É a economia, estúpido!”. À época, o candidato democrata derrotou o republicano George Bush em sua tentativa de reeleição. Apesar desta declaração ter sido utilizada a torto e a direito ao longo destas três décadas e meia nos mais variados contextos e países, o fato é que as dificuldades enfrentadas atualmente por Lula para sua reeleição residem justamente nos equívocos da política econômica a ele sugerida pelo ex ministro Fernando Haddad e sua equipe.

Ao optar pela continuidade da austeridade fiscal a todo o custo, Lula incorporou o Novo Arcabouço Fiscal (NAF) para substituir o Teto de Gastos de Temer de 2016. Com isso, contratou uma severa auto-restrição nas despesas públicas de natureza social e nos investimentos do Estado para seu próprio governo. Dessa forma, as promessas de “fazer mais e melhor do que nos 2 primeiros mandatos de 2003 a 2010” e “promover um crescimento de 40 anos em 4” ficaram letras mortas na execução do terceiro mandato. O governo passou o tempo todo preocupado em cumprir as metas restritivas da austeridade fiscal e muito pouco implementou de políticas públicas efetivas e voltadas às necessidades do futuro do Brasil e do presente da maioria da população.

A vitória depende da liberação das despesas públicas.

Lula seguia reverberando as bobagens a respeito de como os ensinamentos de sua mãe, Dona Lindu, seriam importantes para condução da política econômica de seu governo. A síntese do equívoco é o mantra falacioso do “não podemos gastar mais do que arrecadamos”. Ocorre que a lógica de operação e funcionamento do Estado é muito mais complexa do que a contabilidade rudimentar de entradas e saídas na conta bancária de um indivíduo ou de uma família. Lula jamais perde a oportunidade de se vangloriar de ter sido o único Presidente de países do G7 a ter apresentado superavit fiscal primário durante seus dois primeiros mandatos. Mas não menciona os volumes trilionários de pagamento de juros da dívida pública – as despesas financeiras do governo que não são controladas e não possuem teto nem limite, pois não recebem a etiqueta de “primárias”.

Ao fim do primeiro turno, com a colocação de Bolsonarinho à frente do candidato à reeleição, é bem provável que Lula tenha se dado conta da armadilha em que havia sido colocado por conta da obediência cega às regras da austeridade fiscal. Ao que tudo indica, ele mandou às favas o NAF sugerido por Haddad logo no início deste terceiro mandato e percebeu que a vitória no segundo turno dependeria basicamente de voltar a atender às pautas do povo. O atual movimento de vira voto tem início com decisões que ficaram engavetadas ou foram negadas pela área econômica há quase quatro anos. Esse foi o caso do reajuste do Bolsa Família, da inclusão das canetas emagrecedoras no protocolo de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), da proibição das bets, do pacote de apoio aos micro empreendedores individuais (MEIs), a definição do programa de Tarifa Zero no transporte urbano nos finais de semana, dentre outros.

Lição da campanha: a austeridade fiscal atrapalha o País, o povo, o Presidente e o candidato.

São todas elas medidas justas e necessárias, mas que vinham sendo boicotadas pela área econômica em razão da dominância da lógica de funcionamento da Esplanada com base na política de austeridade fiscal primária. Ou seja, era economia (estúpido) impedindo Lula de realizar um governo voltado ao atendimento das necessidades da maioria do povo. E agora, de novo, é a economia (estúpido) se liberando das amarras austericidas e neoliberais impostas pela tecnocracia a serviço do atendimento dos interesses do financismo

Lula tem pouco menos de uma semana para anunciar outras medidas ainda necessárias, a exemplo de um reajuste maior do salário-mínimo, uma forma tardia de compensar as perdas provocadas pelo quadriênio de Jair Bolsonaro à frente do governo. Caso consiga vencer o pleito, ele vai ter de desfazer a ampla teia de equívocos em que se viu enredado pela sua equipe econômica. É urgente que Lula incorpore, de forma definitiva, como filosofia de governo aquela frase que proferiu antes do primeiro turno em comício realizado em Curitiba:

(…) “E para o governo ter que investir, é preciso parar com essa babaquice de que tem que fazer superavit, fazer superavit, de tem que ter controle fiscal” (…) [GN]

Isso significa que na segunda-feira, dia 26 de outubro, logo depois de conhecido o resultado das eleições, ele deveria enviar um novo texto para a Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), que já está em tramitação no Congresso Nacional. Afinal, ali está um expresso um outro compromisso de paralisia do governo ainda maior para o próximo quadriênio. Sua equipe econômica lhe apresentou um documento para que ele enviasse ao legislativo contendo o absurdo de uma armadilha de perseguir meta de superávits primários crescentes a cada ano:

2027: 0,5% do PIB
2028: 1,0% do PIB
2029: 1,25% do PIB
2030: 1,5% do PIB

Essa verdadeira obsessão com o austericídio que está embutida em diversos documentos oficiais da área da economia (estúpido) podem comprometer ainda mais a necessária flexibilidade na condução da política econômica no eventual quarto mandato. Ele já deve ter se dado conta de que foi uma visão atrasada e obtusa da economia (estúpido) a principal responsável pelas dificuldades enfrentadas atualmente para consolidar apoios e votos. Assim, espera-se que sua vitória venha acompanhada daquilo que deveria ter sido sua opção estratégica desde o início de 2023: abandonar a austeridade fiscal e todos os resquícios de desvio neoliberal que foram a ele sugeridos pelos responsáveis pela economia.

Bora virar: Lula lá!

O Brasil está com Lula para barrar a barbárie. Mas se a maioria da população conceder a ele os votos necessários para encerrar sua trajetória política à frente do Estado brasileiro, está aberta a possibilidade e a necessidade de superar os impedimentos e os obstáculos que a sua própria equipe econômica lhe impôs desde 2023. Seu último mandato deverá ser de realizações e isso implica que a economia (estúpido) não seja uma amarra como tem sido até agora. Ela dever ser, pelo contrário, uma ferramenta de libertação para construir um País mais desenvolvido, mais justo, mais soberano e menos desigual.

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