Lula escolhe a Palestina; Flávio Bolsonaro, o sionismo
No domingo 4 de outubro, milhões de brasileiros decidirão os rumos políticos, econômicos e sociais do Brasil. Também colocarão em confronto duas concepções antagônicas de política externa e do próprio lugar do país no mundo.
De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva representa uma diplomacia soberana, comprometida com o multilateralismo, o direito internacional e a autodeterminação dos povos. Do outro, Flávio Bolsonaro apresenta-se como herdeiro da submissão de seu pai aos Estados Unidos e ao regime supremacista de “Israel”.
A Palestina é uma das expressões mais evidentes desse antagonismo. São projetos inconciliáveis, que envolvem soberania ou submissão, solidariedade ou cumplicidade com a opressão e o genocídio.
O compromisso de Lula com a Palestina não nasceu da conjuntura atual.
Como demonstro no livro Palestina: do mito da Terra Prometida à terra da resistência, durante seus primeiros mandatos Lula desenvolveu uma verdadeira diplomacia presidencial em defesa da autodeterminação palestina, da retirada israelense dos territórios ocupados e da criação de um Estado soberano nas fronteiras anteriores a 1967.
Em dezembro de 2003, durante viagem à Síria, ao Líbano, aos Emirados Árabes Unidos, ao Egito e à Líbia, Lula colocou a Palestina no centro de seus pronunciamentos.
No ano seguinte, na Assembleia Geral da ONU, advertiu que o povo palestino continuava distante da autodeterminação a que tinha direito.
Em março de 2010, Lula tornou-se o primeiro chefe de Estado brasileiro a visitar oficialmente a Palestina. Em Ramallah, depositou flores no mausoléu de Yasser Arafat e inaugurou a Rua Brasil, diante da sede da Autoridade Palestina.
Recusou-se, apesar das pressões, a prestar homenagem a Theodor Herzl, fundador do movimento sionista. O gesto demonstrou que a diplomacia brasileira poderia dialogar com todos sem renunciar à dignidade nem equiparar o ocupante ao povo submetido à ocupação.
O ponto culminante ocorreu em 1º de dezembro de 2010, quando Lula reconheceu oficialmente o Estado da Palestina nas fronteiras de 1967. Não foi uma decisão meramente simbólica. A iniciativa desencadeou uma onda de reconhecimentos e, em poucos meses, praticamente todos os países da América do Sul seguiram o Brasil.
Diante do genocídio em Gaza, Lula retomou essa trajetória e tornou-se um dos primeiros chefes de Estado a chamar os crimes israelenses pelo nome: genocídio!
Enquanto governantes ocidentais repetiam o falso argumento do “direito de defesa”, o presidente brasileiro denunciou a matança de crianças, o cerco pela fome, a destruição de hospitais e o deslocamento forçado da população palestina.
Nas dez vezes em que abriu o Debate Geral da Assembleia Geral da ONU, Lula colocou os direitos palestinos entre as questões centrais que exigem resposta da comunidade internacional e do Conselho de Segurança.
Em seu décimo discurso, voltou a denunciar o genocídio em Gaza, condenou os crimes de guerra do governo Netanyahu e reafirmou que a paz somente será possível com uma Palestina livre e soberana. Essa constância não é retórica, mas revela uma convicção política mantida ao longo de décadas.
Há, contudo, uma contradição que precisa ser enfrentada. Mesmo denunciando os crimes de “Israel” em Gaza e na Cisjordânia, Lula ainda reproduz a classificação equivocada sobre o papel da resistência palestina como “terrorismo”, esquecendo que a Carta da ONU assegura o legítimo direito de defesa dos povos oprimidos e colonizados.
Flávio Bolsonaro oferece o caminho oposto. Ele visitou “Israel”, reuniu-se com Netanyahu e acusou Lula de antissemitismo por condenar o massacre em Gaza. Como escrevi em várias ocasiões, confundir a crítica a “Israel” com antissemitismo não é um erro conceitual inocente, mas uma escolha destinada a proteger um projeto supremacista de colonialismo por assentamento do regime sionista na Palestina ocupada.
A presença de Netanyahu, por meio de mensagem gravada, no lançamento da candidatura de Flávio revelou algo ainda mais grave. O primeiro-ministro de um “Estado” estrangeiro, acusado internacionalmente por crimes cometidos contra os palestinos, manifestou apoio a um candidato à Presidência do Brasil.
A convergência entre Netanyahu, Donald Trump, Javier Milei e o bolsonarismo, expressa uma articulação internacional da extrema direita para recolocar o Brasil sob a tutela dos EUA e de “Israel”.
Enquanto isso, Lula foi recebido com tapete vermelho pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, expressão de uma geração política que denuncia a violência contra os palestinos e reconhece o Sul Global.
Em 2026, a Palestina estará inevitavelmente nas urnas brasileiras.
Não será apenas uma escolha entre dois candidatos, mas entre a dignidade e a cumplicidade. Entre um Brasil que denuncia o genocídio e outro disposto a estender o tapete aos sionistas criminosos.
Apoiar um “Estado” que extermina civis, transforma a fome em arma de guerra, pratica crimes contra a humanidade e tenta interferir na política brasileira para favorecer seu candidato não é uma posição diplomática, é uma escolha moralmente indefensável. Flávio Bolsonaro representa essa escolha.
Defender Lula nessa disputa significa impedir que o Brasil volte a se ajoelhar diante daqueles que ocupam, massacram e tentam apagar o povo palestino de sua própria terra e de sua existência.



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