Lula em alta: vitória no Senado, alento nas pesquisas e fé na virada
A noite de ontem foi histórica para os trabalhadores do Brasil, que ganharam um dia de descanso semanal em suas vidas, e foi auspiciosa, talvez premonitória, para o presidente Lula. Poucas horas depois da divulgação da pesquisa Quaest, que o trouxe tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro (46% a 44%), ele colheu uma grande vitória no Senado, com a aprovação da PEC que acaba com a escala de trabalho 6×1, pelo vistoso placar de 75 a 1 votos. Até o adversário Flávio Bolsonaro, embora já tenha falado muito contra a proposta, foi obrigado a votar a favor. A iniciativa, entretanto, é do governo e ninguém tasca.
De quebra, a Câmara também aprovou outra matéria de interesse do Planalto, o projeto que corrige o limite de faturamento para os empreendedores que atuam como MEIs. Fixado hoje em R$ 81 mil, o teto subirá para R$ 120 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028.
A redução da jornada de trabalho sem perda salarial é o que se pode chamar de conquista histórica dos trabalhadores numa época de perda de direitos, precarização das relações trabalhistas e crescente gasto de tempo no deslocamento entre a casa e o trabalho. O ganho de mais um dia livre terá impacto notável sobre a vida privada e a vida social, e certamente a aprovação da PEC trará algum ganho eleitoral para Lula.
É revigorado por estes fatos, animado com os resultados da pesquisa Quaest divulgada ontem, e também pelas grandes manifestações populares de apoio dos últimos dias, que nesta quinta-feira Lula participa de entrevista-sabatina no Jornal Nacional (TV Globo). No domingo enfrentará o candidato do PL no debate da TV Bandeirantes. Aliás, muito ridícula, quase pueril, a explicação que Flávio Bolsonaro deu para seu recuo em relação ao debate: ele estava dizendo que não iria para induzir Lula a confirmar a ida. Como se Lula, temendo muito o confronto, tivesse aceitado pensando em chegar sozinho para um debate que acabaria sendo transformado em entrevista. Lorota. Flávio recuou porque avaliações de sua campanha concluíram que o desgaste com a ausência seria grande.
Lula, segundo auxiliares, neste momento está calçando as sandálias do realismo: evita o salto alto (ao contrário do adversário, que fala como presidente eleito) porque sabe, e o tracking da campanha mostra, que a virada ainda não aconteceu. Não aconteceu, mas ele acredita que ela é possível e está a caminho. A pesquisa Quaest deu uma indicação disso, ao trazer Lula empatado com Flávio Bolsonaro. Ele com 44%, o senador com 46%. Como esta foi a primeira pesquisa da Quaest no segundo turno, não é possível a comparação com índices anteriores.
Mesmo sem comparar indevidamente pesquisas distintas, podemos lembrar que a primeira do Datafolha, na semana passada, apontou diferença maior a favor do candidato do PL: 49% x 45% em votos totais, ou 52% x 48% em votos válidos. De lá para cá, Lula tem crescido, ganhando votos entre os que se abstiveram no primeiro turno, e mesmo de uma parte menor dos que votaram em outros candidatos da direita. Hoje veremos se o Datafolha confirma esta tendência.
Lula pode repetir Dilma em 2014, diz Lavareda
Analisando ontem a pesquisa Quaest conosco no Boa Noite da TV 247, o cientista político Antonio Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe, destacou a mudança de cenário e de expectativas trazida por ela:
“Ao final do primeiro turno, o presidente Lula era visto como um provável derrotado, como candidato com poucas chances de vir a ganhar a eleição, algo em torno de 20% a 30%. Nas primeiras pesquisas depois do dia 4, a distância entre ele e Flávio Bolsonaro começou com quatro pontos e chegou até a seis pontos. Na nossa, fechada na quinta-feira (8/10), a distância foi de 5,4%, correspondentes a mais de seis milhões de votos. Mas veio a reação, com a mobilização dos jovens, os atos de rua, a movimentação nas redes, tudo isso… Este esforço vem apresentando resultados. A diferença entre Lula e Flávio foi se reduzindo nas pesquisas do final de semana, como a da Nexus e a do PoderData. Esta da Quaest trouxe um passo a mais, uma nova melhora da performance do presidente Lula e de seus números, mostrando que há uma possibilidade ainda… Vamos deixar bem claro. Neste momento, Flávio Bolsonaro ainda é favorito para ganhar a eleição, mas Lula recuperou a competitividade, abrindo-se a possibilidade de vermos, entre tantas singularidades, a repetição da linha do tempo de 2014”.
Trata-se do segundo turno da disputa entre Aécio Neves e Dilma Rousseff. Como Lula, ela era a incumbente e buscava a reeleição. Lavareda recorda: Aécio saiu na frente e Dilma só conseguiu ultrapassá-lo nas pesquisas de 20 de outubro.
“Nas pesquisas dos dias 8 e 9 de outubro, ela perdia para Aécio de 46% a 44%, e na pesquisa de 15 e 16 de outubro ela perdia de 45% a 43%. Somente nas pesquisas de 20 de outubro ela conseguiu virar, com uma marca de 46% a 43% a favor dela, logo ampliada para 47% a 43%, fechando a última semana com este placar. Ela acabou obtendo uma diferença em votos válidos de 3,4% e de 2,5% em votos totais. Assim, a pesquisa Quaest de hoje alimenta a expectativa, entre os apoiadores e eleitores do presidente, entre os que fazem a campanha, de que venhamos a assistir algo semelhante ao segundo turno de 2014.”
Em todas as outras eleições que tiveram segundo turno, quem saiu na frente manteve a dianteira e a linha seguiu mais ou menos estável até a vitória de quem ganhou o primeiro turno e saiu na frente no segundo. “Ainda que Bolsonaro tenha chegado a colocar uma vantagem de 18 pontos percentuais sobre Haddad em 2018, para fechar com esta diferença reduzida a dez pontos percentuais”, ressalva Lavareda.
Se as pesquisas da Palver e do Datafolha, nesta quinta-feira, vierem com as mesmas inclinações da Quaest, estará sinalizada uma tendência de empate real, numérico. Se chegarmos ao dia da eleição com empate numérico, diz ele, para ganhar, o presidente precisaria chegar com uma vantagem que lhe permita compensar a perda com a abstenção, que alcança mais seu eleitorado.
“Se acontecer de Lula, que não é favorito, vir a ganhar a eleição, será por uma distância, digamos… peruana”. No Peru, a presidente Keiko Fujimori ganhou por aquela diferença mínima de 0,2%, bem menor que a diferença obtida por Lula em 2022. “Já Flávio, se vier a ganhar, poderá ser por uma margem mais folgada, porque ele perde menos com a abstenção. Ganhará por algo em torno de 3%, ou três milhões de votos.”
Lula, portanto, está em alta. As votações de ontem no Congresso serão mais um fator de impulso, somando-se à poderosa energia das ruas. Há quem considere sem futuro a busca de eleitores entre os que faltaram ao primeiro turno, mas a pesquisa da Quaest mostrou também que foi neste contingente, e menos entre os eleitores de Caiado, Cury e Renan, que Lula conseguiu os votos para reduzir a distância que o separava do adversário.



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