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A Bancada Anti-Trans

15.10.2026 6 min read

Não existe bancada anti-trans no regimento de nenhuma casa legislativa, e é essa falta de nome formal que torna o fenômeno tão difícil de enxergar e tão fácil de negar, porque ninguém precisa assinar uma frente parlamentar para transformar a perseguição a pessoas trans em conteúdo, em plataforma e em mandato. Chamo de bancada, portanto, uma categoria de análise e não um colegiado. A base desta coluna é a minha tese de doutorado, Programa de travesti: educação & mídia, que já trazia, muito antes das urnas de 4 de outubro, os pontos desse ódio dirigido à comunidade trans, e cujo levantamento realizo ao longo da vida, em falas públicas, nos artigos acadêmicos e nos textos de opinião que produzimos. O que 2026 acrescenta ao que já estava escrito é a escala, e a escala é aritmética.

Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais, foi reeleito com 3.119.318 votos, a maior votação do país pela segunda vez consecutiva, e o repertório de quem o acompanha é conhecido: em 2023 subiu à tribuna de peruca loira, no Dia Internacional da Mulher, para dizer que se sentia mulher e se apresentar como “deputada Nikole”; foi condenado pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais a indenizar Duda Salabert em 30 mil reais por ofensas transfóbicas; e em 2024 dirigiu a Erika Hilton, numa audiência da Comissão da Mulher, um comentário que aponto e registro como transfóbico. Lucas Pavanato, também do PL, teve 3.038.438 votos em São Paulo, o mais votado do estado e o segundo do país, depois de apresentar como vereador projetos sobre banheiros, esportes e saúde de pessoas trans, de ter 28 vídeos da campanha de 2024 classificados pela agência Lupa como transfóbicos ou machistas e de ter visto a Justiça Eleitoral suspender, em setembro, o impulsionamento pago de um vídeo seu contra Erika Hilton. O Sexuality Policy Watch descreveu a disputa paulista, antes do voto, como a de uma mulher trans contra uma candidatura que fez da oposição às pessoas trans uma de suas principais bandeiras, e o resultado deu à moldura uma precisão quase didática, Hilton foi reeleita com 1.596.472 votos, a mulher mais votada da história da Câmara, e ficou em segundo, atrás de Pavanato.

Na Assembleia Legislativa de São Paulo, a mais votada foi Eduarda Campopiano, aos 23 anos, com 1.956.238 votos nas contagens da CNN e do Intercept (a Gazeta do Povo registra 1.956.205, diferença que o painel do TSE esclarecerá). No dia seguinte à eleição ela publicou no X, marcando Erika Hilton, a pergunta de como era saber que “um homem biológico” jamais ocuparia o espaço da mulher mais votada de São Paulo, e a deputada eleita Sofia Favero, do PSOL, levou o caso ao Ministério Público paulista como transfobia e violência política de gênero, representação que segue sem decisão. Em Santa Catarina, Julia Zanatta foi reeleita com 560.223 votos, a deputada federal mais votada da história do estado, depois de debater o uso de banheiros por pessoas trans com Hilton e, segundo o Metrópoles, de usar as redes para ofendê-la. Somados, os quatro chegam a 8.674.217 votos, e o Distrito Federal acrescenta Victor Jansen, eleito aos 25 anos para a Câmara Legislativa com 32.120 votos e a promessa de combater a “ideologia de gênero” e os “marmanjos” nos banheiros femininos.

O antifeminismo também entra na conta, porque as duas bandeiras andam juntas e se retroalimentam. O Intercept contou mais de 6,5 milhões de votos para seis mulheres do PL eleitas em 2026 e identificadas com a pauta antifeminista, entre elas Campopiano, que se declara antifeminista, e Zanatta, cuja carreira se construiu contra o feminismo e a “pauta de gênero”. Ana Campagnolo, a deputada estadual mais votada de Santa Catarina outra vez, com 387.523 votos, é autora de um livro de 2019 que trata o feminismo como “perversão e subversão”. Há uma ironia que nenhuma dessas campanhas esconde bem, as mesmas lideranças que invocam as “mulheres biológicas” para negar a existência de mulheres trans combatem, no restante do tempo, o movimento que abriu a porta para que mulheres chegassem à tribuna, e usam a própria presença como prova de que o feminismo seria dispensável. A proteção das mulheres, nesse arranjo, é pretexto e não programa.

O pretexto tem endereço e agenda social organizada, a Mátria, associação registrada em 2023, sediada em Joinville, que a reportagem da AzMina descreve como ator central da articulação entre movimentos de mulheres e a ultradireita, atuando com advocacy no Legislativo e com litigância no Judiciário. O balanço de ações reunido pela AzMina é um mapa do que a ofensiva quer, uma sugestão ao Senado para segregar banheiros pelo sexo de nascimento, ações civis públicas pedindo a suspensão das cotas para pessoas trans na UFSC, na UnB, na UESB e na Unicamp (as decisões reafirmaram a legalidade das cotas, objeto da minha dissertação de 2020), uma ação contra a decisão do CNJ sobre mulheres trans e travestis em presídios femininos, pressão sobre o Conselho Federal de Medicina para restringir a saúde de pessoas trans até os 21 anos e a atuação como amicus curiae na ADI 7806. A associação nega ser antitrans, diz atuar para assegurar direitos das mulheres com base no sexo e afirma viver de recursos próprios e de mensalidades de 50 reais, mas a mesma reportagem registra que ela não defende explicitamente o aborto legal, o combate à violência doméstica nem a promoção da igualdade de gênero, o que torna difícil sustentar que a agenda seja a das mulheres, e que colabora com parlamentares cristãos e bolsonaristas na aprovação de projetos antitrans. Os vínculos internacionais foram mapeados pelo Dossiê Matria, organizado pelo Sexuality Policy Watch, pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da UFMG e pelo Coletivo Chama, entre outras entidades, parceria com a americana WoLF, litigância ao lado da Alliance Defending Freedom, o grupo cristão que levou a Suprema Corte dos Estados Unidos a derrubar a garantia constitucional do aborto em 2022, e o convite à relatora da ONU Reem Alsalem, que esteve no país em março de 2026.

No topo dessa cadeia global está J.K. Rowling, que financia com a própria fortuna o movimento que a Mátria replica no Brasil. A autora apoiou a ação do grupo For Women Scotland que levou a Suprema Corte britânica a decidir, em abril de 2025, que “mulher” na Lei da Igualdade significa mulher biológica, e em maio do mesmo ano criou o JK Rowling Women’s Fund, um fundo jurídico para custear ações de defesa do que chama de direitos das mulheres baseados no sexo, no trabalho, na vida pública e nos espaços reservados. O Brasil não é periferia dessa rede, é um de seus mercados de teste, e o vocabulário que circula entre Londres, Washington e Joinville é o mesmo que, no palanque de Nikolas, de Pavanato e de Campopiano, vira voto.

Sara Garbagnoli mostrou que a expressão “ideologia de gênero” foi forjada no Vaticano como instrumento de pânico moral, e o que chamei em um artigo de 2020 de transfobia recreativa, o ódio feito espetáculo e piada de tribuna, é a sua versão tropical e monetizável. Não sei quanto de cada voto é adesão e quanto é distração, e nenhum levantamento honesto o dirá sem pesquisa própria, mas sei que há uma rede internacional com dinheiro, advogados e fundo jurídico trabalhando para que a próxima legislatura encontre essa discussão já pronta, e quatro parlamentares com oito milhões de votos para levá-la ao plenário.

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