A destruição de crianças e adolescentes
A destruição de um país pode se dar de várias maneiras: erodindo sua soberania, desconsiderando os interesses nacionais e submetendo-se a uma espécie de neocolonialismo, comprometendo a democracia e suas instituições, atacando e reduzindo direitos sociais e econômicos da população, apostando em “tesouraços” que enfraquecerão a economia e paralisarão os investimentos etc.
Bolsonaro pretende fazer tudo isso. Pretende criar a tempestade perfeita para acabar com o Brasil.
Mas há mais.
O fascista Bolsonaro pretende implantar aqui um modelo de segurança pública importado do também fascista Bukele, de El Salvador. Um modelo que criou um campo de concentração chamado de El Cecote e que encarcerou cerca de 2 % da população de El Salvador. Um modelo que mata, tortura e desrespeita totalmente os direitos civis fundamentais que embasam qualquer forma de civilização digna do nome.
Ressalte-se que o Brasil já tem a terceira maior população carcerária do mundo (940 mil encarcerados) e uma das polícias que mais matam em todo o planeta.
Proporcionalmente, a letalidade da polícia brasileira supera em dezenas de vezes a média de grandes economias globais (como a média dos países do G20) e é várias vezes superior à registrada nos Estados Unidos. Em cinco anos (2009-2013), a polícia brasileira matou mais do que a dos EUA em 30. E olha que a polícia dos EUA já mata muito.
Porém, Bolsonaro quer aumentar esse descalabro violento, que não contribui em nada para fornecer segurança à população.
Uma das propostas, dentro desse modelo tenebroso, é a redução da maioridade penal para 16 anos, em relação à maior parte dos crimes, e para 14 anos, no que tange a crimes hediondos, tortura, tráfico de drogas, terrorismo, organização criminosa, associação criminosa e outros.
Ora, não é de todo incomum que adolescentes e crianças de 14 anos se envolvam em atividades do tráfico nas chamadas comunidades e favelas, as quais são dominadas, muitas vezes, por milícias e outras organizações criminosas.
Nos EUA, praticamente a metade da população carcerária está presa por crimes não-violentos vinculados ao tráfico de drogas.
No Brasil, apenas os crimes relacionados à Lei de Drogas representam um quarto (cerca de 25%) da população carcerária do Brasil . De acordo com dados oficiais da Secretaria Nacional de Política Penal (Senapen), o tráfico de entorpecentes é isoladamente o crime com o maior número de registros e condenações no sistema prisional do país.
Ante isso, não é necessário ser um gênio para imaginar o que vai acontecer: crianças e adolescentes entre 14 e 17 anos que vivem em áreas periféricas e pobres serão encarcerados, principalmente se forem pretos e pardos, de forma massiva e ingressarão nas nossas masmorras para serem treinados por adultos na alta escola do crime.
Bolsonaro criará um jovem exército de reserva para as milícias e o crime organizado.
Essas crianças e esses jovens não terão futuro algum. Essa é também uma maneira de destruir o país e seu futuro: destruir a vida de suas crianças e adolescentes.
Os imbecis e mal-informados alegam que em alguns países, como a Inglaterra, crianças podem ser condenadas, como adultos, a partir dos 10 anos. Mas há diferenças brutais entre o que os bolsonaristas querem fazer e o que a Inglaterra faz.
Dou como exemplo o infame caso de James Bulguer, que horrorizou toda a Inglaterra.
Em fevereiro de 1993, James Bulguer, de apenas 2 anos, foi sequestrado e assassinado por duas crianças inglesas de 10 anos: Robert Thompson e Jon Venables.
Pois bem, em novembro de 1993, Thompson e Venables foram condenados por homicídio e sequestro, tornando-se as pessoas mais jovens a serem condenadas por assassinato na história moderna do Reino Unido.
Os idiotas dirão: está aí a prova. Um país avançado e civilizado como o Reino Unido (mais precisamente a Inglaterra, pois a lei muda em cada região) fez o que o Brasil precisa fazer.
Ledo engano,fake news.
Em primeiro lugar, essas crianças não se juntaram à população carcerária comum. Nenhuma vai. Eles foram encaminhados para um centro especial de detenção, bem longe de uma prisão comum. Não entraram para a escola do crime.
Lá, eles tiveram acompanhamento psicopedagógico amplo e foram obrigados a estudar 30 horas por semana, como qualquer criança comum. Não foram forçados a trabalhar e conviveram com outras crianças, sob estrita supervisão de psicólogos, professores etc.
Em 2001, quando completaram 18 anos, ambos foram libertados sob a chamada “licença vitalícia” (liberdade condicional permanente) e receberam novas identidades com anonimato vitalício garantido pela justiça para sua proteção e para poderem construir uma vida normal.
Obviamente, Bolsonaro et caterva não vão fazer nada disso. Eles querem mais violência e vingança. Vão, repito, formar um exército de reserva para as milícias e as organizações criminosas. Não querem recuperar ninguém. Querem enfrentar a violência com mais violência obtusa.
Observe-se que, de acordo com a UNICEF, cerca de 80% dos países do mundo adotam a maioridade penal aos 18 anos.
Ademais, países que testaram a redução da maioridade penal — como os Estados Unidos (em determinados estados) ou a Dinamarca — posteriormente reverteram ou criticaram a medida devido ao aumento de carreiras criminosas mais violentas entre os jovens afetados.
O fascista sempre apresenta soluções aparentemente simples e falsas para problemas complexos. Tenta sempre manipular sentimentos negativos da população, como raiva, ódio e ressentimento, para justificar suas políticas irracionais.
E tenta sempre atingir os mais frágeis, os que têm menos poder de defesa.
Até mesmo crianças.



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