Brasil tem 42% do PIB em dívida pública de curtíssimo prazo
Cerca de 42% do PIB brasileiro está em dívida pública de curtíssimo prazo: títulos que vencem nos próximos 12 meses ou que são remunerados pela Selic. É mais do que nos Estados Unidos (31,7%), o caso sempre lembrado quando se fala em “muralha de vencimentos” entre os países ricos. É também mais do triplo de França, Canadá ou Espanha.
O número que a conta tradicional esconde
Na métrica usual, que conta apenas o que vence em até um ano, o Brasil aparece com 14% do PIB. Ficamos no meio do pelotão, atrás de Estados Unidos, Japão e Itália. O quadro muda quando entram as LFTs, os títulos atrelados à Selic. Elas são metade da dívida federal e pagam a taxa básica do dia, qualquer que seja o vencimento.
Uma LFT que vence em 2030 não precisa ser rolada agora. Mas o custo dela para o Tesouro é recalculado a cada decisão do Copom. Para a política monetária, ela se comporta como dívida de curtíssimo prazo. Somando a dívida que vence em 12 meses e as LFTs de prazo mais longo, chegamos aos 42% do PIB. Sem as LFTs, o Brasil ficaria em 14%; com elas, passa à frente de todos os países da amostra.
Como construí o gráfico
Usei a mesma régua para 14 países: o valor da dívida do governo que vence em até 12 meses dividido pelo PIB nominal. Os dados vêm dos Tesouros e agências de dívida de cada país. Em geral cobrem a dívida em títulos do governo central: as letras de curto prazo e os títulos longos que vencem no período.
No caso brasileiro, parti do Relatório Mensal da Dívida de setembro de 2026. O estoque da Dívida Pública Federal era de R$ 9,38 trilhões, e 19,95% dele vence em até 12 meses, o que dá R$ 1,87 trilhão. O PIB de 12 meses, de cerca de R$ 13,39 trilhões, sai da dívida bruta do governo geral: R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do PIB. Assim, o que vence em um ano corresponde a 14% do PIB.
Vale um cuidado de leitura. Os 19,95% que o Tesouro divulga são uma parcela do estoque da dívida, não do PIB. Como a dívida federal equivale a cerca de 70% do PIB, 19,95% dela dão 14% do PIB.
Depois somei as LFTs. Elas totalizam R$ 4,84 trilhões, ou 51,6% da dívida federal. Cerca de R$ 1,08 trilhão delas já vence nos próximos 12 meses e está na conta anterior. Os R$ 3,75 trilhões restantes vencem depois disso, mas são remunerados pela Selic. Isso equivale a 28% do PIB, que somados aos 14% dão os 42%.
Há três ressalvas. A primeira é que os títulos pós-fixados de outros países ficaram de fora: as FRNs americanas, os CCTs italianos e os Bondes mexicanos. Eles existem, mas pesam bem menos na dívida do que as LFTs no Brasil. A segunda é que também deixei de fora as operações compromissadas do Banco Central. São operações de um dia, remuneradas pela Selic, e levariam o número brasileiro para ainda mais alto. A terceira é que os períodos e a cobertura variam um pouco: alguns países usam o ano-calendário, outros o ano fiscal. Canadá e Alemanha incluem só o governo federal. No Japão excluí os Financing Bills, que levariam o país a cerca de 33% do PIB.
A LFT é quase dinheiro
A LFT é uma herança da alta inflação dos anos 1980. Ela rende a Selic diária e seu preço quase não oscila, então quem a carrega praticamente não corre risco de mercado. Foi o instrumento que permitiu ao Tesouro se financiar numa época em que ninguém aceitava emprestar a taxa fixa.
O resultado é uma espécie de moeda indexada. As LFTs estão, em grande parte, na carteira de fundos DI e de renda fixa com resgate diário, nas tesourarias dos bancos e como lastro das compromissadas do Banco Central. Na ponta, o poupador enxerga sua cota como um depósito remunerado que pode sacar no dia seguinte.
É por isso que esse dinheiro pode sair a qualquer momento. Formalmente, o Tesouro só paga a LFT no vencimento, mas o fundo que a carrega deve ao cotista no mesmo dia ou no dia seguinte. Se muitos cotistas resgatarem de uma vez, por exemplo para comprar dólar, os fundos precisam vender as LFTs, e alguém precisa comprá-las. No limite, quem compra é o Tesouro, com seu caixa, ou o Banco Central, com compromissadas que vencem em um dia.
Por que isso amarra o Banco Central
Com metade da dívida atrelada à Selic, a política monetária e a política fiscal deixam de ser coisas separadas. Cada decisão do Copom vira, quase no mesmo dia, despesa ou economia para o Tesouro. Isso cria quatro problemas.
O primeiro é que o custo fiscal dos juros é imediato. Pela simulação do próprio Banco Central, um ponto percentual a mais de Selic, mantido por 12 meses, aumenta a dívida bruta em R$ 64,9 bilhões, ou 0,48 ponto do PIB. Nos 12 meses até setembro, os juros nominais somaram R$ 1,2 trilhão, ou 8,99% do PIB. O déficit nominal chegou a 9,51% do PIB, com um déficit primário de apenas 0,52%. Quase todo o rombo vem dos juros.
O segundo é que a transmissão da política monetária fica mais fraca. Onde a dívida é prefixada e longa, juros mais altos derrubam o preço dos títulos, quem os detém fica mais pobre e gasta menos. Com a LFT acontece o contrário: a alta da Selic aumenta a renda de quem carrega a dívida. Parte do aperto se anula, e o Banco Central precisa de juros mais altos, por mais tempo, para obter o mesmo efeito.
O terceiro é que o risco de rolagem nunca vai embora. Quando a confiança cai, o mercado só aceita títulos curtos ou atrelados à Selic, e o Tesouro encurta a dívida justamente no pior momento. O colchão de liquidez do Tesouro, de R$ 1,27 trilhão, cobre 7,7 meses de vencimentos. Ele garante a rolagem por alguns meses, mas não protege o custo.
O quarto é a armadilha da dominância fiscal. Para segurar a inflação e o câmbio, o Banco Central sobe a Selic, hoje em 13,75%. Isso amplia o déficit nominal e a dívida, o que pode elevar o prêmio de risco e pressionar o próprio câmbio que se queria conter.
Os Estados Unidos também têm muita dívida curta, mas emitem a moeda de reserva do mundo. A T-bill é o ativo de liquidez de bancos e fundos no planeta inteiro, e a demanda por ela não some quando a confiança oscila. A demanda por LFT, ao contrário, pode migrar rapidamente para o dólar.
O caminho de saída
Sair dessa armadilha leva tempo, porque o investidor só aceita título prefixado e longo quando acredita em inflação baixa e numa trajetória sustentável da dívida. Isso exige um resultado primário capaz de estabilizar a dívida bruta, hoje em 82,9% do PIB e subindo. Exige também uma troca gradual de LFTs por títulos prefixados e indexados à inflação, aproveitando as janelas de queda de juros.
Há ainda uma agenda de coordenação entre Tesouro e Banco Central: reduzir o peso das compromissadas e usar mais os depósitos remunerados para gerir a liquidez dos bancos. Enquanto metade da dívida estiver atrelada à Selic, cada decisão do Copom será também uma decisão fiscal. É o preço de uma dívida que, na prática, vence todo dia.
Fontes: Tesouro Nacional (Relatório Mensal da Dívida, setembro de 2026), Banco Central, US Treasury/JEC, Ministério das Finanças do Japão, Tesouro da Itália, Finance Canada, Tesoro Público, Agence France Trésor, National Treasury da África do Sul, SHCP, UK DMO, Finanzagentur, Hazine, Kemenkeu e RBI. Elaboração própria.



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