Falhas descobertas com IA levam governos europeus a tirar sites do ar
247 – Órgãos públicos de Países Baixos, França, Dinamarca e Finlândia retiraram sites e serviços digitais do ar após a descoberta de duas vulnerabilidades críticas no PHP, linguagem de programação amplamente utilizada na internet.
Segundo a Reuters, as suspensões preventivas ocorreram na quarta-feira (21), enquanto equipes técnicas corriam para instalar correções e empresas de segurança relatavam tentativas de exploração das falhas.
Os desenvolvedores do PHP disponibilizaram atualizações emergenciais e recomendaram sua instalação imediata. Agências de cibersegurança europeias e asiáticas também orientaram os responsáveis pelos sistemas afetados a aplicar as correções ou interromper temporariamente o funcionamento dos sites até que pudessem protegê-los.
A dimensão das interrupções chamou atenção nos Países Baixos, onde o próprio Centro Nacional de Segurança Cibernética suspendeu seu site por precaução. O Porto de Roterdã, o portal governamental Overheid.nl, a associação nacional de futebol KNVB, hospitais e os cinco maiores partidos políticos do país também retiraram páginas do ar.
Na França, o Ministério do Interior colocou todos os seus sites em manutenção preventiva. Na Finlândia, a Valtori, responsável por serviços de tecnologia do Estado, informou que serviços públicos de rede do governo haviam sido desativados por precaução. Já a empresa dinamarquesa de tecnologia municipal Kombit interrompeu diversas operações, entre elas a plataforma nacional de comunicação escolar.
O impacto alcançou instituições fora da administração pública. A organização responsável pela Wikipédia informou ter desativado uma quantidade não especificada de sistemas até que as atualizações pudessem ser instaladas com segurança. O Internet Archive, biblioteca digital que preserva páginas e outros conteúdos, também relatou uma breve interrupção para lidar com o problema.
A preocupação das equipes de segurança vai além da disponibilidade dos serviços. Com as correções publicadas, especialistas avaliam que ferramentas de inteligência artificial podem facilitar a análise das mudanças no código e acelerar a criação de ataques contra servidores ainda desprotegidos.
Costin Raiu, cofundador da empresa de pesquisa e resposta a incidentes TLP:Black, afirmou à Reuters que a IA impulsionava uma “corrida pela exploração”. Ele advertiu que o próximo passo poderia ser a “invasão em massa de todos os servidores web vulneráveis da internet”.
Há indícios de que as tentativas começaram antes da divulgação pública. Em publicação na quarta-feira à noite, o chefe de segurança da Amazon, CJ Moses, informou que sua equipe identificou, em 17 de outubro, uma tentativa de explorar as vulnerabilidades em um sistema-isca — ambiente preparado para atrair e observar possíveis invasores.
Segundo Moses, a ação partiu de um endereço anônimo da internet. A empresa ainda não sabia como o responsável havia tomado conhecimento das falhas durante o período de divulgação restrita, quando os envolvidos trabalhavam nas correções.
Outras tentativas, atribuídas a diferentes agentes, ocorreram na quarta-feira antes do fim desse período. A Amazon afirmou que ainda não era possível determinar se elas teriam funcionado contra sites reais, mas declarou que as vulnerabilidades já estavam sendo amplamente exploradas.
A descoberta foi relatada separadamente por duas empresas de cibersegurança. A Calif informou ter identificado os problemas em 1º de agosto com auxílio de um grande modelo de linguagem e ter trabalhado desde então no desenvolvimento de uma solução.
A Wiz, pertencente à Alphabet, disse ter encontrado as vulnerabilidades com sua ferramenta autônoma de pesquisa Wiz Atlas, além dos modelos Gemini 4 Argon, do Google, e GPT-5.6 Sol, da OpenAI. De acordo com a companhia, as falhas permaneceram no código do PHP por mais de uma década, e sua exploração exigiria um trabalho extremamente complexo de um invasor humano.
“Antes da IA, esse trabalho manual seria difícil de implementar e ainda mais difícil de realizar em escala”, afirmou a Wiz. “Com a IA, isso deixou de ser uma barreira.”
Calif e Wiz disseram ter coordenado o trabalho entre si, com a equipe do PHP e com a OpenAI. A Casa Branca informou que tomou conhecimento do problema na sexta-feira anterior à divulgação.
A presença do PHP em diferentes plataformas amplia o alcance potencial das vulnerabilidades. A linguagem é utilizada em sistemas como WordPress, Drupal, Joomla e Magento. Segundo o serviço de monitoramento W3Techs, ela está presente em aproximadamente 75% dos sites cuja linguagem de programação pode ser identificada.
Tiffany Farriss, diretora executiva interina da Drupal Association, ressaltou a abrangência do problema. “Todos os servidores que utilizam qualquer versão do PHP lançada nos últimos 20 anos estarão vulneráveis”, afirmou. “Este problema afeta a maior parte da internet.”
Dados da empresa de inteligência da internet Censys citados pela Reuters indicavam que cerca de 1,5 milhão de um universo de 2,6 milhões de hosts identificados utilizavam versões do PHP para as quais não havia solução disponível naquele levantamento.
Lukasz Olejnik, pesquisador sênior visitante do King’s College London, também alertou para o risco de ataques acelerados por inteligência artificial. “A escala é enorme e, com a IA, a exploração pode acontecer instantaneamente”, disse.
A Automattic, operadora do WordPress.com, informou que os usuários de suas soluções de hospedagem e do Tumblr estavam protegidos contra a falha. Segundo a reportagem, a exposição era maior entre pequenos sites mantidos por pessoas ou organizações com poucos recursos técnicos, especialmente em hospedagens compartilhadas, nas quais os clientes dependem do provedor para atualizar os servidores.


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