Os participantes da orgia na lancha estão impunes
As reações à notícia da festa de Flávio Bolsonaro na lancha da suruba, mostrada em reportagem da revista Piauí, começam pela abordagem moral, por causa da presença de moças de programa. Mas os personagens mais importantes são os amigos de Flávio na farra de julho de 2020, no primeiro pico da pandemia: os lobistas quadrilheiros vendedores de vacinas superfaturadas.
A Piauí mostra que Flávio participou da festa na lancha, no Lago Paranoá, atraído por gente interessada em negociar vacinas com o governo. Lá estava Danilo Berndt Trento, levado por Francisco Emerson Maximiano, ambos diretores da Precisa. Maximiano organizou a festa, mas saltou fora na hora da farra.
Os dois, Trento e Maximiano, estão no relatório da CPI da Pandemia, entregue ao Ministério Público em outubro de 2021, com pedidos de indiciamento. São acusados de fraudes na tentativa de venda da vacina Covaxin superfaturada.
Mas nem Flávio, nem os empresários, nem os seis coronéis envolvidos nas negociatas com vacinas, nem os integrantes do gabinete paralelo da pandemia dentro do Ministério da Saúde – nenhum deles foi indiciado até hoje, de uma lista inicial com 79 nomes.
Francisco Maximiano foi acusado pela CPI por falsidade ideológica, fraude em contrato, formação de organização criminosa, improbidade administrativa, uso de documento falso e fraude processual. As acusações contra Danilo Trento envolvem fraude em contrato, formação de organização criminosa e improbidade administrativa.
Flávio Bolsonaro foi incluído no relatório por incitação ao crime, por ter atuado na disseminação de notícias falsas e estimulado a população a descumprir medidas sanitárias, no auge da propaganda da cloroquina.
O amigo Alexandre Santini, seu sócio na franquia de chocolates Kopenhagen no Rio, que estava na lancha, é outro impune, não por crimes na pandemia, mas por participação no esquema das rachadinhas.
O Ministério Público engavetou o relatório da CPI com os pedidos de indiciamento. São cinco anos de leniência, com apenas uma exceção sempre lembrada: a denúncia, pelo MP estadual de São Paulo, contra diretores da clínica Prevent, que fazia experimentos com cloroquina. Mas também eles estão impunes.
A chance de alcançar os vampiros da pandemia foi retomada por decisão de Flávio Dino, em setembro do ano passado, quando o ministro determinou a abertura de inquérito pela Polícia Federal. Dos 79 nomes iniciais, a PF escolheu 24, entre os quais Jair Bolsonaro, os três filhos (Flávio, Eduardo e Carluxo), Osmar Terra, o véio da Havan, Carla Zambelli, Bia Kicis e outros menos célebres.
Ninguém mais fala do inquérito, e ninguém mais irá falar se Flávio for eleito. A CPI teve pelo menos um mérito: o de interromper as negociatas, como as conduzidas por Flávio com os vampiros da lancha, para a venda de vacina superfaturada ao governo.
Enquanto Bolsonaro propagava o milagre da cloroquina e milhares de brasileiros morriam, Flávio, os coronéis da quadrilha montada dentro do Ministério da Saúde e empresários falcatruas armavam uma estrutura mafiosa para intermediar a venda de vacinas. E faziam bacanais.
Prestem atenção às relações promíscuas dessa gente, que envolvem serviços pagos com prostitutas, nesse caso dos quadrilheiros da lancha e nas relações com Daniel Vorcaro e outros mafiosos.
Mas não se esqueçam do que importa. A lancha, os charutos, o uísque e as mulheres eram a parte exposta e festiva de compensações por transações escabrosas já investigadas, mas sem qualquer consequência. Os vampiros da pandemia estão soltos.



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