Aliados de Bolsonaro e de Trump na América do Sul: impopularidade, pobreza e queda na economia
A economia argentina está à beira da recessão, segundo dados oficiais divulgados nesta quarta-feira. Os indicadores mostram que a motosserra do presidente Javier Milei, propagada pela extrema-direita da região, incluindo a equipe do candidato Flávio Bolsonaro, têm efeitos severos para a atividade econômica. De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), a economia caiu 1,7% nos últimos doze meses, até agosto deste ano, que é o ultimo dado disponível.
Ataques de Milei – ‘a pontapés’ – No momento da divulgação destes dados negativos, em Buenos Aires, Milei estava em Madri, na Espanha, onde acusou o presidente espanhol Pedro Sánchez de “ditador” e disse que deseja que os espanhóis o expulsem “a patadas” (a pontapés) do cargo nas eleições do dia 29 de novembro. Na semana passada, Milei tinha usado as mesmas expressões ao se referir ao presidente Lula. Foi durante evento em Washington, nos Estados Unidos, onde abraçou efusivamente o irmão de Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro. “É preciso tirar ‘a patadas’ o ditador comunista”, disse em referência ao presidente do Brasil.
Milei, ‘tira votos’ – No caso do socialista Pedro Sánchez, Milei teve para com ele a mesma atitude agressiva que tinha exibido em relação ao presidente Lula no palanque da convenção do PL, neste ano, em São Paulo. Na convenção, Milei apoiou a candidatura de seu amigo Flávio Bolsonaro. Mas na Espanha, assim como ocorreu no debate da Band, quando Bolsonaro não respondeu ao presidente Lula se pegaria emprestada a motosserra de Milei, a direita e a extrema-direita espanholas evitaram se encontrar pessoalmente com o argentino na sua passagem por Madri. Em plena campanha para as eleições de novembro, Milei virou sinônimo de ‘tira votos’ diante dos efeitos da sua motosserra na realidade da Argentina.
A reação – Em Madrid, universitários realizaram protesto contra a sua presença. Ao mesmo tempo, Pedro Sánchez deu uma guinada nos ataques do argentino. Ele disse em suas redes sociais, por exemplo, que se apoiar aposentados, subindo seus benefícios, é ser ‘zurdo’ (de esquerda), “então sou zurdo, com muita honra”. Milei que pensava que apoiaria as candidaturas da direita e da extrema-direita acabou virando, inadvertidamente, cabo eleitoral do socialista Sánchez.
Impopular – Milei é hoje um presidente impopular na Argentina. A perda de poder aquisitivo, o aumento do desemprego (7%), da pobreza (32%) e o fechamento de 32 mil empresas desde que chegou à Casa Rosada geram preocupação e cansaço na população. Milei demonstrou que não acompanha a realidade dos argentinos quando disse, nesta semana, num evento na província de Neuquén, na região da Patagônia, que é mentira que as pessoas não tenham dinheiro para chegar ao fim do mês. Fez ironias sobre uma realidade que é comentada nas ruas e, diariamente, pela imprensa local. As manifestações de universitários, professores, aposentados e de familiares de pessoas com deficiência são um dos retratos do sufoco econômico e das queixas de que Milei “não está interessado” nas reclamações populares. O país realiza eleições presidenciais em outubro do ano que vem. Hoje, a oposição está fragmentada e ainda não consegue canalizar fortemente a insatisfação popular com o governo Milei.
Chile, desemprego recorde – No Chile, o presidente José Antonio Kast, também da extrema-direita, que tomou posse há apenas sete meses, é impopular como Milei. Tem cerca de 28% ou 30% de apoio, dependendo da pesquisa de opinião. O ajuste fiscal de Kast provocou uma taxa recorde de desemprego (9,6%, o maior em cinco anos). E dados oficiais apontam que a economia cai e está, como a da Argentina, à beira da recessão. O custo de vida subiu logo depois que Kast assumiu e aumentou os preços dos combustíveis. A insatisfação popular é crescente e as manifestações estudantis, contra os cortes na educação, passaram a ser frequentes – e com repressão policial.
Peru, com Keiko – Keiko Fujimori tomou posse há apenas três meses e levantamento da agência ‘Bloomberg en línea’ mostra que sua popularidade é de 28%. No Peru, historicamente, os presidentes costumam perder apoio popular rapidamente. Mas Keiko pode estar batendo recordes, segundo fontes do seu próprio governo, que falaram ao Brasil 247 sob a condição do anonimato. No caso de Keiko, comentaram, preocupa a sua falta de disposição para dialogar com os diferentes setores e inclusive com sua base parlamentar no Congresso.
Brasil – A Argentina, o Chile e o Peru fazem parte do chamado ‘Escudo das Américas’ que marca o forte vínculo com o governo Trump. Além deles, a Bolívia, governada por Rodrigo Paz, igualmente impopular, e o Paraguai, governado por Santiago Peña, o menos impopular entre eles, também integram esta aliança de segurança (que envolve igualmente os recursos naturais estratégicos). E todos estes presidentes estão de olho no que acontecerá neste domingo decisivo no Brasil – o maior país da América Latina e uma das maiores economias do mundo. “Não vamos romper nunca com o Brasil, não importando quem seja o eleito”, disse um assessor de Keiko. No Chile, o pensamento é parecido.
Itamaraty sobre ataques de Milei sobre fraude: “inaceitáveis” – Já Milei levou o Itamaraty a repudiar suas afirmações de que poderia haver fraude na eleição deste domingo. No comunicado, divulgado nesta semana, o Itamaraty diz que as “ofensas” constituem uma “nova e inaceitável” tentativa de ingerência no processo eleitoral brasileiro. A palavra “desequilibrada” também está no texto de repúdio do Ministério das Relações Exteriores do Brasil em relação às falas de Milei, para quem a política externa argentina tem uma principal prioridade – o governo Trump.


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