Atitude de Marco Nanini durante espetáculo gera protestos e vaias em teatro
247 – O ator Marco Nanini, de 78 anos, foi vaiado e alvo de protestos durante uma apresentação da peça Fim de Partida, realizada no domingo (18), em Porto Alegre (RS). A reação ocorreu depois que o espetáculo foi interrompido por um problema de iluminação envolvendo intérpretes da Língua Brasileira de Sinais (Libras). A encenação acabou sendo retomada sem o serviço de tradução, o que levou espectadores surdos e outras pessoas presentes a deixar o teatro.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o episódio aconteceu no Teatro Simões Lopes Neto, localizado no complexo Multipalco Eva Sopher, aproximadamente dez minutos após o início da apresentação. Nanini reclamou que a iluminação direcionada às intérpretes projetava sombras no palco e prejudicava sua visão durante a atuação.
De acordo com relatos de espectadores, o ator solicitou a retirada das profissionais responsáveis pela interpretação em Libras. A apresentação foi interrompida, as cortinas foram fechadas e integrantes da produção, técnicos e funcionários do teatro tentaram encontrar uma solução para o problema.
Como o impasse não foi resolvido, as intérpretes deixaram o palco. Uma representante do teatro comunicou à plateia que a apresentação seria retomada sem a tradução para Libras, provocando manifestações de indignação e vaias dirigidas a Nanini.
Vídeos divulgados nas redes sociais registraram parte da reação dos espectadores. Algumas pessoas gritaram contra o ator, enquanto outras questionaram a decisão de prosseguir com a montagem sem garantir as condições de acessibilidade anunciadas previamente.
O episódio também levou integrantes da comunidade surda a abandonar o teatro, já que não poderiam acompanhar integralmente o espetáculo sem a interpretação. Espectadores ouvintes decidiram sair em solidariedade ao público prejudicado.
À imprensa, a gestora cultural e professora de teatro Izabel Cristina da Silveira, que acompanhava a apresentação, relatou sua surpresa diante da interrupção.
“Imediatamente saí também do teatro e algumas outras pessoas saíram, outras ficaram revoltadas, indignadas. Eu quase não acreditei no que estava vendo acontecer, quando Nanini parou a apresentação e falou daquela maneira. Estou ainda incrédula que a maioria das pessoas permaneceu lá assistindo o espetáculo como se nada tivesse acontecido”, afirmou.
O artista surdo Lucas Bourscheid, que também estava presente, criticou a retirada das profissionais e o impacto da decisão sobre o público que dependia do recurso.
“Faltou empatia, faltou respeito com a comunidade surda, e isso é inaceitável. Não foi a produção, foi o Marco Nanini que falou para retirar a interpretação. Se falaram para as intérpretes saírem, significa que era para nós, surdos, também sairmos”, declarou.
Produtora reconhece falha e pede desculpas
Após a repercussão, a Pequena Central de Produções Artísticas, responsável pelo espetáculo e da qual Marco Nanini é sócio, divulgou um comunicado reconhecendo problemas na organização da sessão.
A empresa confirmou que houve incompatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e o sistema de iluminação utilizado na montagem. Segundo a produtora, as tentativas de solucionar a questão durante a paralisação não tiveram resultado.
“Não foi possível resolver o problema naquele momento, e a apresentação foi retomada sem interpretação em Libras, comprometendo o acesso do público surdo ao espetáculo”, informou a empresa.
A produtora também admitiu que deveria ter verificado antecipadamente as condições técnicas necessárias para oferecer o serviço de acessibilidade.
“Assumimos inteira responsabilidade por essa falha e por suas consequências”, declarou a organização, que apresentou desculpas ao público surdo, às profissionais de interpretação e às demais pessoas envolvidas.
A empresa acrescentou que a acessibilidade precisa ser considerada desde o planejamento das apresentações até sua execução, de modo a assegurar que os recursos oferecidos ao público funcionem adequadamente.
Fundação Theatro São Pedro lamenta episódio
Responsável pela administração do complexo cultural, a Fundação Theatro São Pedro também se manifestou sobre o ocorrido. Em nota, a instituição afirmou que sua equipe procurou mediar o problema e avaliou alternativas para permitir a continuidade da peça com interpretação em Libras.
Segundo a fundação, as soluções examinadas não foram suficientes para atender simultaneamente às necessidades técnicas da montagem e às condições de acessibilidade.
“A Fundação lamenta muito o ocorrido, especialmente os prejuízos causados à comunidade surda presente”, afirmou a instituição.
A entidade reiterou seu compromisso com a inclusão e destacou a importância de garantir que pessoas com deficiência tenham acesso às atividades culturais realizadas em seus espaços.
A empresa Para Todos Acessibilidade, responsável pelo serviço de interpretação em Libras durante a apresentação, também lamentou a situação e manifestou a expectativa de que o episódio contribua para mudanças nas práticas de acessibilidade do setor cultural.
Em seu posicionamento, a empresa defendeu que “atitudes como essa, de total desrespeito com o público surdo não se repitam”.
Espetáculo é baseado em obra de Samuel Beckett
Fim de Partida é uma adaptação da obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, um dos principais representantes do teatro do absurdo. A montagem brasileira tem direção de Rodrigo Portella e reúne Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França no elenco.
Na peça, Nanini interpreta Hamm, personagem cego que utiliza uma cadeira de rodas. A história acompanha as relações entre personagens que convivem em um ambiente isolado, marcado pela dependência, por conflitos e pela dificuldade de comunicação.
A apresentação de domingo havia sido anunciada com recursos de acessibilidade, incluindo interpretação em Libras e audiodescrição. O problema técnico comprometeu o atendimento ao público surdo que compareceu à sessão.
Até a publicação das reportagens consultadas, na segunda-feira (19), Marco Nanini não havia divulgado um pronunciamento individual sobre o episódio. A manifestação oficial sobre o ocorrido foi apresentada pela produtora do espetáculo e pela administração do teatro.



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