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O Brasil não é de direita

06.10.2026 6 min read

A maioria dos brasileiros não é conservadora. O Brasil não é um país de direita. O que falta para o campo progressista é organização e trabalho de base para disputar e vencer eleições.

Enxergo que a fórmula é relativamente simples. Um candidato forte. Um projeto de cidade, de estado e de país. Um partido coeso (ou melhor, a união de todos os partidos possíveis). Comunicação profissional. E trabalho de base. Por que política é o curioso caso onde a vitória vai sendo construída na véspera. Por exemplo: quem será o candidato a governador de São Paulo em 2030? 5 de outubro de 2026, a eleição já começou.

Vamos pegar o Maranhão como exemplo, um estado extremamente religioso foi o responsável por eleger o primeiro governador da história do Partido Comunista do Brasil. Incoerência? Não acredito. Antes de mais nada, é fundamental que a população saiba com antecedência quem é o candidato. Uma pessoa com chances reais de vitória. O líder do projeto. Já testado nas urnas. Que realmente seja de esquerda e cumpra o plano de governo. No caso, Flávio Dino capitaneou a missão.

Depois, é preciso ter uma equipe para criar palanque em todas as cidades do estado: um membro do Partido tem que estar na chapa, disputando eleição como prefeito ou vice, e mais uma vez com chances de ganhar. E aqui é papo de filiar candidatos de todas as vertentes, desde que respeite o projeto do Partido e seu líder. Isso sim é uma frente ampla. Amplíssima. Se determinado grupo político “domina a cidade faz 3 ou 30 anos” e vota com a extrema-direita, beleza. Quem relevante de lá é ou quer ser oposição, é leal e consegue organizar um grupo de vereadores? Sempre tem alguém. Tragam esse pessoal para o Partido e vamos pra luta. Foi assim que o PCdoB Maranhão fez 1 prefeito em 2008, 14 em 2012 e 46 em 2016. Eram todos bolcheviques? Marxistas-leninistas? Claro que não. Mas garantiram a vitória de Dino em 2014 e 2018.

Desse grupo de prefeitos sairão os deputados federais e estaduais, dividindo o estado em microrregiões, porque o trabalho é contínuo. Não dá pra todo mundo disputar voto na capital porque “tem mais eleitor” e esquecer do interior. Todas as cidades são importantes, todo voto tem o mesmo peso. Muito menos disputar eleição “cada um por si”. Não se comemora uma vitória isolada se o grupo como um todo perdeu.

Também não dá pra ficar aguardando o “voto orgânico” nas majoritárias, ideológico, espontâneo, porque “somos mais inteligentes”, “mais bonitos”, temos o melhor programa de governo. O voto tem que ser casado! Política é guerra. E na batalha você não vai querer estar sozinho, armado com um ramo de arruda enquanto seus adversários formam uma quadrilha portando fuzis. Ou seja, o cara que vota no seu vereador precisa votar no seu prefeito, deputado, senador, governador e presidente. O discurso tem que estar alinhado. Esse é o trabalho de base.

Feito isso, é preciso lembrar diariamente que toda revolução gera uma contrarrevolução. A luta deve ser permanente. Lula e o PT tiraram o Brasil do mapa da fome, reduziram as desigualdades, ampliaram as universidades, distribuíram renda, levaram luz para quem vivia na escuridão. Isso foi uma revolução. O que estamos vivendo agora é uma contrarrevolução, que começou em 2014.

O historiador Mark Bray publicou um livro em 2017 apontando alguns fatores fundamentais da luta antifascista. Primeiro, a Europa entreguerras nos ensinou que o combate ao fascismo começa pela capacidade de reconhecê-lo. Segundo, os fascistas nunca chegaram ao poder através da força (como a tentativa de golpe do 8 de janeiro). Eles chegaram ao poder por vias legais. É nítido o que estamos vivendo.

Antes da Marcha sobre Roma, em outubro de 1922, Mussolini já tinha sido convidado pelo rei Vítor Emanuel III para assumir o cargo de primeiro-ministro da Itália. Em 1923, Hitler fracassou na tentativa de golpe. Dez anos depois, sua ascensão ao poder aconteceu quando o presidente Hindenburg o nomeou chanceler. E a lei que lhe concedeu plenos poderes foi aprovada pelo parlamento.

Seguindo o raciocínio de Mark Bray, temos o terceiro ponto: “As lideranças socialistas e comunistas foram mais lentas do que suas bases em compreender a ameaça do fascismo”.

Em 2026 grandes nomes do campo progressista foram “desperdiçados” em competições perdidas em estados como Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, pois a esquerda quis disputar eleições de igual para igual no meio de uma luta desigual. E em outros estados sequer sabíamos quem era candidato do campo progressista. Puro suco do caos.

Enquanto muitos da esquerda insistem em “candidaturas individualistas”, isoladas em si mesmas, brigando dentro da bolha de esquerda para ver quem é mais de esquerda, a extrema-direita está disputando o voto de todo mundo, porque estão organizados, “aprenderam” a conversar com o eleitor.

Além disso, o discurso deles é extremamente simplório, direto e acessível: simplificar problemas estruturais do país atribuindo as responsabilidades a um único fator, o adversário político. “É culpa do Lula”. “É culpa do PT”. “Comunistas”.

Vejam as campanhas, acessem as redes sociais, assistam os programas eleitorais. É tudo muito bem feito, planejado, como também cantou a bola Mark Bray: “o fascismo rouba da ideologia, da estratégia, do imaginário e da cultura de esquerda”. Eles vestem a camisa do Brasil para dizer que são nacionalistas (mesmo entregando o país aos EUA), empregam “pessoas de direita” em seus negócios (atuando como faz um sindicato, usado como porta de entrada para empregos na indústria), eventualmente participam de ações de caridade, etc.

Então chegamos ao fatídico 4 de outubro de 2026. O resultado do primeiro turno é catastrófico. Ficamos paralisados, com a impressão de que disputamos por disputar, à medida que o Senado ia sendo tomado por psicopatas fascistas. A tática eleitoral deles deu certo. E, independente do que acontecer na majoritária no segundo turno, o Brasil já saiu derrotado. Destaco a quinta e última lição de Mark Bray: “Não são necessários muitos fascistas para instaurar o fascismo”. Regra que fala por si só.

Nós estamos à beira de uma tragédia.

Sou vizinho de uns bares. Enquanto o âncora apresentava na TV o resultado das eleições, de casa escutei algumas pessoas se divertindo, bebendo cerveja e conversando aleatoriamente. Lembrei daquela cena do filme Flores Raras, quando a atriz que interpreta Elizabeth Bishop toma um choque de realidade com o anúncio no rádio do golpe de 1964, observando da janela a extrema naturalidade da rotina carioca: pessoas jogando futebol na praia de Copacabana.

Alienados? Muitos. Conservadores? Tenho certeza que não. A maioria do povo só está preocupada com comida no prato, segurança, transporte e um salário digno. Mesmo que o projeto da direita nunca entregue isso, é muito grande o salto entre entender o que se está sentindo, transformar isso em luta (de classes) e chegar à conclusão de que, no limite, a saída sempre será à esquerda.

25 de outubro de 2026 se transformou em Lula ou barbárie. Depois, muita coisa precisa mudar. Estamos vivendo novos tempos. Mapear todas as cidades do Brasil, dividir o país por estados e regiões para organizar as bases me parece extremamente importante, o ponto zero dessa história. O surgimento de novas lideranças precisa ser induzido, não espontâneo.

E a Elizabeth Bishop do mundo real? Polêmica poetisa erradicada no Brasil durante duas décadas, dias após o golpe de 64 ela escreveu o seguinte: “Ando horrivelmente deprimida com o que está acontecendo por aqui, e meu único pensamento é ir embora por um tempo”. E assim foi.

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