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O buraco é mais em cima 

05.10.2026 7 min read

Flávio Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno, com 47% dos votos. Lula chegou ao segundo turno com 45%, por margem estreita. O resultado de 4 de outubro foi assustador para quem defende a democracia e deixou aberta, até 25 de outubro, a possibilidade de o clã Bolsonaro voltar ao Planalto. 

A campanha de Lula e o PT têm muito a examinar. O presidente precisa fazer sua autocrítica, reconhecer erros do governo e da comunicação, rever o que ainda for possível na estratégia eleitoral. A campanha precisa responder melhor às preocupações cotidianas com custo de vida, segurança e emprego. Não basta culpar Sidônio, Janja, o discurso “superado” de Lula, ou seja lá o que for. É preciso corrigir os rumos e disputar cada voto. 

Mas essa autocrítica não pode se transformar numa explicação que absolva o restante do cenário. Os erros da campanha importam, mas não explicam sozinhos a força de Flávio. O buraco é mais em cima: está na expansão da extrema direita, na articulação continental promovida por Donald Trump e na disputa dos Estados Unidos para trazer o Brasil para sua esfera de influência. 

Uma onda continental — e um projeto de poder 

A guinada à direita avançou em vários países sul-americanos. Daniel Noboa foi reeleito no Equador; Rodrigo Paz venceu na Bolívia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori voltou ao poder no Peru; e Abelardo de la Espriella venceu na Colômbia, com o endosso de Trump. A Argentina de Javier Milei tornou-se um polo de articulação regional. 

No mapa político atual, o pequeno Uruguai e o gigante Brasil são as exceções a dessa onda devastadora. Pelo menos, por enquanto. 

Esses governos sul-americanos têm diferenças importantes. O que os aproxima é a combinação de promessas de agendas de redução ou reorientação do Estado e maior alinhamento com Washington. A insatisfação econômica, a insegurança e o desgaste dos governos anteriores abriram espaço para a direita. Trump não produziu sozinho esses votos.  

Sua administração, porém, oferece apoio político, articulação e uma referência comum a lideranças que prometem “reorganizar” a região. 

A pretensão foi resumida numa frase oficial. Após a operação norte-americana na Venezuela, o Departamento de Estado publicou: “Este é hemisfério é nosso”. Marco Rubio, secretário de Estado, sustenta que Washington não permitirá que sua segurança seja ameaçada na região.  

É o espírito da chamada Doutrina Donroe, versão trumpista da Doutrina Monroe: os Estados Unidos reivindicam primazia no Hemisfério Ocidental e o direito de afastar potências rivais, sobretudo a China. 

O Escudo das Américas, apresentado como aliança contra cartéis e redes criminosas, oferece um instrumento de cooperação regional para esse projeto. A captura de Nicolás Maduro por uma operação dos EUA, a pressão sobre governos que não se alinham a Washington e o anúncio de Trump de que “Cuba é a próxima” compõem o mesmo ambiente. 

“América Latina é nossa” não foi uma citação literal: é a síntese política que se pode extrair dessa sequência. 

Brasil, a joia da coroa 

O Brasil é a peça decisiva. É a maior economia e população da América Latina, integra os BRICS, tem a China como principal parceira comercial e possui recursos estratégicos cobiçados por Washington.  

Para Trump e Rubio, a oportunidade de puxar o país para a órbita norte-americana não pode ser perdida. Lula defende a autonomia brasileira. Flávio oferece outra orientação: aproximação com Trump, adesão ao Escudo das Américas e oferta de minerais críticos brasileiros às prioridades dos Estados Unidos. 

Não se trata apenas de afinidade ideológica. Há uma estratégia de pressão e aproximação em curso. No ano passado, Trump vinculou tarifas contra produtos brasileiros ao processo judicial de Jair Bolsonaro.  

A tarefa de Eduardo 

Eduardo Bolsonaro mudou-se para os Estados Unidos em fevereiro de 2025 e passou a atuar em Washington para pressionar o governo Trump contra o STF e em defesa do pai. 

 Em junho deste ano, o Supremo o condenou a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, ao concluir que ele articulou sanções e tarifas para interferir no julgamento. Eduardo sustenta que buscava cobrar o cumprimento da Constituição. A Reuters relatou a condenação e seus fundamentos. 

Eduardo não ocupa cargo no governo americano. Instalou-se no Texas com a mulher e os filhos; em julho, a família recebeu residência permanente nos EUA. A CNN Brasil noticiou a concessão do green card à família.   

Em maio, acompanhou Flávio ao Salão Oval, onde os dois foram recebidos por Trump. Às vésperas do primeiro turno, segundo fontes americanas ouvidas pelo UOL, Eduardo foi a Washington e disse a interlocutores do governo Trump que um encontro entre Lula e o presidente dos EUA poderia favorecer eleitoralmente o petista.  

O mesmo relato afirma que Rubio e o secretário do Tesouro, Scott Bessent, atuaram para evitar que os presidentes se encontrassem. A Reuters confirmou a reunião com Trump; o UOL reconstituiu a articulação às vésperas do pleito. 

O próprio Eduardo apresentou essa rede como trunfo político: disse que consegue colocar Flávio diante de Trump e Rubio e facilitar medidas como a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.  

Flávio pediu essa designação; o Departamento de Estado a anunciou depois do encontro dos irmãos com Trump. A reportagem do UOL descreveu os contatos e essa sequência, que não prova alteração de votos, mas revela convergência política entre a campanha e setores do governo americano.  

Também em setembro Eduardo anunciou que voltaria a pressionar pela retomada de sanções dos EUA contra o ministro Alexandre de Moraes. A Reuters registrou a iniciativa. 

Há ainda uma dimensão de política externa 

Eduardo ameaça fazer uma “faxina” no Itamaraty caso o irmão vença e promete retaliar diplomatas que, segundo ele, sabotaram o governo Jair Bolsonaro. Em vídeo, insinuou que poderia comandar o ministério ou representar o Brasil em Washington; defendeu a entrada no Escudo das Américas e a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.  

A campanha de Flávio afirma que Eduardo não fala oficialmente pelo candidato, mas suas declarações mostram o projeto de alinhamento que ele pretende impulsionar. A Folha descreveu essas ameaças e planos. 

O governo Trump também tentou enviar ao Brasil funcionários que, segundo fontes ouvidas pela Reuters, pretendiam questionar a integridade do sistema eleitoral. O Brasil negou os vistos. A tentativa foi noticiada pela Reuters.  

Somada às tarifas, às sanções contra autoridades brasileiras e ao apoio político a interlocutores do bolsonarismo, ela forma um conjunto de pressões sobre a soberania e o processo político brasileiro — sem provar que tenha determinado o resultado das urnas. 

A candidatura de Flávio, portanto, não é apenas a volta de uma família ao poder. Uma vitória aproximaria a principal potência sul-americana da estratégia de Trump e daria ao bolsonarismo o governo para tentar reverter responsabilizações e pressionar instituições que limitaram seu poder.  

É uma possibilidade política anunciada por seus próprios protagonistas; seus efeitos dependerão do voto e da resistência dos contrapesos democráticos. 

A disputa não está decidida 

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como as democracias morrem, lembram que a erosão democrática pode avançar pelas urnas, conduzida por líderes eleitos que enfraquecem os limites ao próprio poder.  

Essa ideia ajuda a compreender o perigo brasileiro: Jair Bolsonaro foi condenado por tentativa de golpe, mas o movimento que sustentou seu projeto continua organizado e agora disputa a Presidência com seu filho. A condenação conteve uma ruptura; não desfez a força política que a tornou possível. 

Isso torna indispensável a autocrítica de Lula e do PT — e também impede que ela seja usada para ignorar a dimensão continental da disputa. A onda trumpista não é destino.  

É preciso corrigir os erros da campanha, falar de novo à vida concreta da população e mobilizar o campo democrático. Lula não pode fazer essa campanha sozinho. Cada conversa, cada rua e cada comunidade contam. 

Uma história de lutas e vitórias 

Lula já venceu três eleições presidenciais. Em 2002, foi eleito para governar de 2003 a 2006. Em 2006, reelegeu-se no segundo turno e governou de 2007 a 2010. Em 2022, venceu Jair Bolsonaro, pai do adversário que enfrenta agora. É uma história de lutas e vitórias — experiência que deve servir de força, não de acomodação. 

Militantes do PT e de todo o campo progressista: vamos à luta. O segundo turno ainda pode ser vencido, mas ninguém o vencerá por nós. Vamos conquistar os votos, defender a democracia e mostrar que o Brasil não será entregue a Trump nem aos Bolsonaro.  

Em 5 de janeiro de 2027, vamos subir de novo, junto com Lula, a rampa do Planalto.

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