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Eleição entre Lula e Flávio Bolsonaro segue indefinida e pode ser decidida por 7% dos eleitores, diz Datafolha

19.10.2026 7 min read

247 – A eleição presidencial entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) permanece indefinida a menos de dez dias do segundo turno, marcado para 25 de outubro. A decisão poderá ficar nas mãos de uma parcela de apenas 7% do eleitorado, formada por brasileiros que ainda admitem mudar de voto. A avaliação é de Luciana Chong, diretora do Datafolha, em entrevista publicada pelo jornal Valor Econômico, na qual analisa as tendências da disputa, os efeitos da polarização e as possibilidades de crescimento dos dois candidatos.

Com mais de 30 anos de experiência no instituto, Chong afirma que a eleição deverá ser apertada e ressalta que os indicadores tradicionais de aprovação e rejeição já não são suficientes para determinar o comportamento dos eleitores. A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (15) mostrou Flávio Bolsonaro com 47% das intenções de voto totais, contra 45% de Lula, configurando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Em apenas uma semana, a diferença entre os candidatos diminuiu de quatro para dois pontos, movimento que reforça a avaliação de que a disputa continua aberta.

Sete por cento do eleitorado podem definir a eleição

Segundo Luciana Chong, a forte polarização política tornou muito difícil a transferência direta de eleitores de um candidato para o outro. Por isso, a atenção das campanhas se concentra em um grupo relativamente pequeno, mas potencialmente decisivo.

“Os 7% [dos eleitores] que ainda podem mudar [o voto] são quem vão decidir a eleição. Porque é muito difícil ter uma migração do Lula para o Flávio ou do Flávio para o Lula”, afirmou ao Valor.

O levantamento revela características importantes desse segmento do eleitorado. Entre os brasileiros que ainda admitem mudar de posição, 57% são mulheres, 57% recebem até dois salários mínimos, 56% não rejeitam nenhum dos dois candidatos e 52% não estão alinhados a nenhum deles.

A composição desse grupo indica que fatores econômicos, propostas sociais, debates e mobilização política podem ter relevância para a decisão final.

A diretora do Datafolha também destaca que a presença dos candidatos nas ruas e seu desempenho nos debates da Band e da Globo podem influenciar os eleitores que ainda não consolidaram suas preferências.

Lula cresce sete pontos entre os jovens e recupera apoio de 2022

Um dos movimentos mais expressivos identificados pelo Datafolha foi a recuperação de Lula entre os eleitores de 16 a 24 anos.

Após uma onda de manifestações favoráveis ao presidente, sua intenção de voto nesse segmento cresceu sete pontos percentuais, recuperando o patamar de apoio registrado em 2022.

No mesmo período, Flávio Bolsonaro perdeu sete pontos percentuais entre os jovens.

Chong, entretanto, ressalta que esse grupo apresenta elevada volatilidade eleitoral. A participação em manifestações, a mobilização nas redes sociais e o interesse pelo processo político podem influenciar tanto a manutenção das preferências quanto o comparecimento às urnas.

A diretora observa que, sem mobilização, parte desse eleitorado pode mudar de candidato ou simplesmente deixar de votar.

Polarização impede que resultados econômicos se traduzam em aprovação

A diretora do Datafolha identifica na polarização política uma das principais explicações para a dificuldade de Lula em ampliar sua aprovação, mesmo diante de indicadores econômicos positivos e da implementação de programas sociais.

Segundo Chong, a divisão política funciona como uma “trava” para o reconhecimento dos resultados do governo.

O contraste com os mandatos anteriores é significativo. Lula encerrou seu segundo governo, em 2010, com aprovação superior a 80%, mas não conseguiu alcançar sequer metade desse patamar durante o terceiro mandato.

A pesquisa mais recente mostra que 41% dos brasileiros consideram o governo ruim ou péssimo, enquanto 35% o avaliam como ótimo ou bom. Outros 23% classificam a administração como regular, e 1% não respondeu.

Os números persistem apesar da redução do desemprego a níveis historicamente baixos e de medidas anunciadas pelo governo na reta final da campanha.

Entre as iniciativas mencionadas pela reportagem estão a anistia de dívidas de microempresários, o reajuste de 15% do Bolsa Família e a oferta de medicamentos para emagrecimento pelo Sistema Único de Saúde.

Para Chong, a polarização dificulta que essas ações sejam convertidas automaticamente em aprovação presidencial.

Diretora questiona regras tradicionais sobre reeleição

Um dos pontos centrais da entrevista é a avaliação de que parâmetros historicamente utilizados para analisar eleições perderam parte de sua capacidade explicativa.

A ideia de que um presidente com reprovação superior à aprovação não conseguiria se reeleger, por exemplo, não pode mais ser tratada como uma regra definitiva.

Chong argumenta que a polarização alterou profundamente o comportamento político dos brasileiros.

“Considerando a polarização, é uma eleição em aberto. Não dá para afirmar que [Lula] não vai conseguir [se reeleger]. Os dois vão chegar muito empatados”, declarou.

A análise sugere que a avaliação do governo e a escolha entre os candidatos não seguem necessariamente a mesma lógica. Um eleitor pode desaprovar aspectos da administração e, ainda assim, considerar outros fatores ao decidir seu voto.

Da mesma forma, a rejeição a um candidato pode desempenhar papel importante na definição das preferências eleitorais.

Fim da escala 6×1 ainda pode beneficiar Lula

Luciana Chong também destacou o possível impacto eleitoral da aprovação, pelo Senado, da proposta de fim da escala 6×1, ocorrida na quarta-feira (14).

A medida prevê a redução gradual da jornada semanal de trabalho, de 44 para 40 horas, com garantia de dois dias de descanso e sem redução salarial.

Segundo a diretora do Datafolha, os efeitos políticos da votação ainda não haviam sido captados pelas pesquisas divulgadas até aquele momento.

A proposta tem forte repercussão entre trabalhadores submetidos a jornadas prolongadas e pode influenciar a avaliação das políticas trabalhistas defendidas pelos candidatos.

A eventual conversão desse apoio em intenção de voto, entretanto, dependerá da percepção dos eleitores e de como o tema será discutido nos últimos dias da campanha.

Novas expectativas de consumo mudam relação entre governo e eleitorado

Outro aspecto abordado por Chong é a transformação das expectativas econômicas e sociais da população brasileira.

Segundo a diretora, as demandas dos eleitores já não se limitam à garantia de alimentação, emprego e renda. O acesso a bens de consumo, experiências e padrões de vida divulgados por influenciadores digitais passou a integrar o horizonte de aspirações de diferentes segmentos sociais.

Essa mudança ajuda a explicar por que políticas públicas que anteriormente produziam grande reconhecimento eleitoral podem apresentar efeitos mais limitados atualmente.

Chong também observa que os eleitores tendem a esquecer com maior rapidez medidas anunciadas pelos governos, o que contribui para a concentração de entregas e promessas no período imediatamente anterior às eleições.

A avaliação oferece uma explicação para a sequência de iniciativas anunciadas pelo governo Lula nas últimas semanas, especialmente nas áreas social, econômica e trabalhista.

Bolsa Família continua importante, mas perdeu parte de seu impacto eleitoral

A diretora do Datafolha também chamou a atenção para mudanças no comportamento dos beneficiários do Bolsa Família, historicamente um dos segmentos de maior apoio a Lula.

Segundo Chong, Flávio Bolsonaro conseguiu ampliar sua presença eleitoral inclusive entre pessoas atendidas pelo programa.

A pesquisadora considera que o Bolsa Família continua sendo uma política social relevante, mas já não apresenta necessariamente a mesma capacidade de mobilização eleitoral observada no passado.

“O programa ainda é uma política muito importante, mas não tem aquele apelo que teve no passado. Ou talvez também as pessoas não tenham tanto medo de perder, já que foi mantido”, afirmou.

A análise aponta para uma transformação na relação entre políticas de transferência de renda e comportamento eleitoral.

A continuidade do programa ao longo de diferentes governos pode ter reduzido, na percepção de parte dos beneficiários, a associação exclusiva entre o benefício e uma determinada liderança política.

Nordeste e trabalhadores informais entram no centro da análise

Ao avaliar os espaços de crescimento dos candidatos, Chong afirma que Lula ainda dispõe de possibilidades de ampliar seu apoio no Nordeste, região em que mantém uma base eleitoral historicamente expressiva.

A diretora também destaca o desempenho de Flávio Bolsonaro entre trabalhadores informais, segmento que foi contemplado por medidas anunciadas pelo governo federal na última semana.

A disputa por esses eleitores envolve questões relacionadas à renda, à atividade econômica, ao custo de vida e às perspectivas de melhoria das condições materiais.

A pesquisa sugere que o comportamento desses grupos merece atenção especial, tanto pela dimensão de sua participação no eleitorado quanto pela possibilidade de mudanças nas preferências individuais.

Debates e mobilização podem influenciar a reta final

A entrevista ao Valor foi publicada antes do debate presidencial realizado pela Rede Bandeirantes no domingo (18), que colocou Lula e Flávio Bolsonaro frente a frente em discussões sobre corrupção, segurança pública, economia, direitos trabalhistas e política externa.

Na avaliação de Chong, os debates e a mobilização popular constituem elementos relevantes para compreender o comportamento da parcela do eleitorado que ainda não consolidou seu voto.

O último confronto televisivo entre os candidatos, previsto para sexta-feira (23), na TV Globo, será realizado apenas dois dias antes da votação.

A análise da diretora do Datafolha indica que, em um ambiente de polarização intensa e preferências majoritariamente consolidadas, a definição do resultado dependerá também das decisões tomadas por uma parcela relativamente pequena dos eleitores e do comparecimento às urnas.

Com o segundo turno marcado para domingo (25), a disputa chega à última semana sem uma definição estatística nas pesquisas citadas pela diretora do instituto.

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