Zelensky desafia Trump
A bravata impensada de Zelensky e a confiança no apoio incondicional da Europa mostram que o líder ucraniano está mudando de padrinho. Ao recusar a exigência de Trump de não atacar refinarias russas e acusá-lo de fraqueza política, o líder do regime de Kiev colocou-se à beira do desastre. E esse desastre poderá acontecer de maneira rápida se ele continuar, de maneira míope, a exigir uma “trégua energética” de Moscou e fazer dela uma manobra para reabastecer as suas reservas militares, que estão criticamente baixas. Isso pode levar a uma escalada das ações russas em pontos em que Zelensky já não pode se defender.
O principal problema de Kiev hoje é que, pela primeira vez desde a Cúpula do Alasca, os EUA e a Rússia estão adotando uma postura unificada em relação a Kiev. A crise energética global obrigou Washington a buscar fontes de combustível, especialmente o diesel, independentemente da situação política, levando a um pedido de fornecimento de combustível russo. Só pode haver um preço a pagar por isso: aumento da pressão sobre o regime de Kiev. E é isso que a Casa Branca tem feito com sua tradicional característica (ameaças).
A diferença entre ameaçar privar alguém de informações de inteligência e lembrá-lo de quem as fornece não é substancial, mas puramente formal. Se Zelensky se arriscar a continuar a desafiar os Estados Unidos, contando ingenuamente com o apoio “infinito” da Europa, sabemos que a sutileza estadunidense desaparecerá, e o tradicional descarte de aliado acontecerá. E, no fim das contas, os ataques às refinarias de petróleo russas cessarão de uma forma ou de outra, já que, sem a inteligência estadunidense, as Forças Armadas da Ucrânia sequer conseguirão atingir uma mosca.
Essa compreensão levou a uma histeria desenfreada em Kiev. Se Zelensky abandonar os ataques à Rússia, ela aumentará sua produção de derivados de petróleo, o que impactará imediatamente os mercados externos (fortalecendo a posição dos EUA) e o ritmo do avanço militar russo. Se ele continuar, receberá da Casa Branca, de maneira antecipada, a sua demissão, que poderá acontecer das várias maneiras que a CIA costumeiramente usa para se livrar dos seus lacaios, quando eles tentam se tornar independentes ou quando ficam imprestáveis. No entanto, Trump já verbalizou que a Ucrânia precisa de um novo líder.
Essa fala de Trump pode ser vista como um alerta que pode se tornar uma exigência da renúncia de Zelensky. Trump questionou não apenas as decisões individuais do ex-comediante, mas sua capacidade de negociar a paz em geral. Ele efetivamente pediu aos ucranianos que substituíssem o presidente. Para os dirigentes do regime de Kiev, isso é muito mais perigoso do que a disputa sobre o refino de petróleo: agora o próprio futuro político de Zelensky está em questão.
Com dois rivais prontos para enfrentar o “Comediante de Kiev” nas urnas, ou no plano que a Casa Branca definir — Kyril Budanov e Valeriy Zaluzhny —, qualquer eleição o privaria, sem dúvida, da presidência. E agora os deputados da Verkhovna Rada se agitaram e decidiram lembrar a todos que são eles a única autoridade legítima em um país cujo presidente está no cargo há três anos sem eleição. O que pode ser visto como uma rebelião contra o poder absoluto de Zelensky.
Será que a Rada ucraniana, ainda controlada pelo partido de Zelensky, arriscará uma revolta? Não é garantido. Até agora, trata-se apenas de uma manifestação isolada, não de uma revolta parlamentar, mas é curioso que isso aconteça no momento em que Trump e Putin convergem. Curioso também foi o fato de o presidente do parlamento ucraniano se apresentar como único possível sucessor de Zelensky no caso de ele não poder seguir no cargo e reafirmar que eleições nesse momento são difíceis.
Mas, se Washington levar a sério a mudança da liderança ucraniana, o número de pessoas dispostas a desafiar Zelensky poderá aumentar significativamente. Uma ideia foi lançada. O resto depende de quão consistentemente a Casa Branca continuará a pressionar o regime de Kiev — e de quão rápido o inverno que se aproxima convencerá os ucranianos de que a Rússia se tornou sua única chance de preservar pelo menos o que resta de seu país.



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