Lula não deve diluir seu poder e terá ao menos quatro presidenciáveis em seu governo
O presidente Lula está certo em não antecipar a formação de seu quarto governo. Como revelou Edinho Silva, presidente nacional do PT, Lula está mais preocupado, neste momento, em concluir bem o atual mandato, aprovar projetos importantes no Congresso Nacional e organizar uma transição consistente para si próprio. Há sabedoria política nessa decisão. Afinal, embora Lula não deva disputar novamente a Presidência da República, isso não significa que precise escolher, desde já, um sucessor para 2030.
Ao contrário. A indicação prematura de um herdeiro político poderia enfraquecer o presidente logo na largada de seu novo mandato, deslocando o centro das atenções para a sucessão e antecipando disputas que só deveriam amadurecer mais adiante. Lula foi reeleito para governar o Brasil por mais quatro anos, e não para administrar uma corrida presidencial permanente dentro de seu próprio governo. Seu maior desafio será entregar resultados, fortalecer o projeto político que representa e criar condições para que o campo progressista chegue competitivo à próxima eleição.
Nesse sentido, Lula tem diante de si uma oportunidade singular: formar um governo com pelo menos quatro nomes que poderão disputar sua sucessão, todos com qualidades próprias, trajetórias relevantes e condições de ampliar a base política e social do projeto governista. Em vez de concentrar expectativas em um único sucessor, o presidente poderá distribuir grandes responsabilidades entre lideranças capazes de demonstrar, na prática, sua capacidade de governar.
O primeiro desses nomes é Camilo Santana, ex-governador do Ceará e um dos personagens decisivos na virada eleitoral do segundo turno. Camilo reúne experiência administrativa, capacidade de articulação política e uma trajetória de resultados na educação. Poderá assumir a Casa Civil, o futuro Ministério da Segurança Pública ou permanecer à frente de uma Educação fortalecida, com a missão de implantar um ambicioso programa nacional de escolas em tempo integral.
A segurança pública, hoje talvez o maior desafio do país, poderia oferecer a Camilo uma oportunidade de demonstrar capacidade de liderança nacional. Mas a Educação também pode ser o caminho para construir um legado histórico. Uma revolução baseada na universalização progressiva do ensino em tempo integral teria efeitos profundos sobre a produtividade, a desigualdade social e até mesmo a criminalidade. Em qualquer uma dessas posições, Camilo terá condições de se consolidar como uma liderança de dimensão nacional.
O segundo nome é Fernando Haddad, que aceitou o sacrifício político de disputar uma eleição extremamente difícil em São Paulo, vencida por Tarcísio de Freitas, demonstrando lealdade ao presidente Lula e compromisso com o projeto coletivo. Haddad mantém elevado prestígio junto ao presidente e reúne atributos raros na política brasileira: formação intelectual sólida, experiência administrativa, capacidade de diálogo e reconhecimento internacional.
Ele poderá assumir a Casa Civil, de onde coordenaria o conjunto das ações governamentais, ou ser deslocado para o Itamaraty. Esta segunda hipótese merece atenção especial. Como ministro das Relações Exteriores, Haddad teria contato permanente com os principais líderes mundiais, ampliaria sua projeção internacional e poderia se tornar uma das novas faces do progressismo global. Num mundo em transformação, em que o Sul Global reivindica maior protagonismo e a ordem internacional atravessa uma profunda reorganização, seria uma experiência política de enorme valor.
O terceiro nome é Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí, que também desempenhou papel decisivo na mobilização eleitoral do segundo turno. Jovem, preparado e com experiência na gestão pública, Fonteles desponta como um dos nomes mais cotados para assumir o Ministério da Fazenda.
Sua missão seria especialmente desafiadora: equilibrar as contas públicas, preservar e ampliar os programas sociais e criar as condições para uma redução sustentável das taxas de juros, capaz de acelerar o crescimento econômico. O Brasil precisa combinar responsabilidade fiscal com desenvolvimento, investimento produtivo e distribuição de renda. Se conseguir liderar esse processo, Fonteles poderá adquirir uma projeção nacional muito superior à que já conquistou no Piauí.
Naturalmente, sua eventual ida para Brasília dependerá de uma decisão política importante: deixar o governo estadual para assumir uma responsabilidade federal. Mas, caso essa transição se concretize, Lula poderá contar com um ministro da Fazenda que representa uma nova geração de lideranças do campo progressista.
Finalmente, há um quarto nome que não pode ser descartado: o vice-presidente Geraldo Alckmin. Sua lealdade ao presidente Lula, sua experiência política, como governador de São Paulo por quatro mandatos, e sua capacidade de diálogo com setores amplos da sociedade fazem dele uma peça fundamental na arquitetura do próximo governo.
Alckmin realizou um excelente trabalho no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, contribuindo para a retomada da política industrial e para o fortalecimento da interlocução entre o governo e o setor empresarial. Sua permanência no MDIC seria uma escolha natural. Mas ele também poderia assumir o Ministério da Fazenda, especialmente se Rafael Fonteles decidir concluir seu mandato no Piauí.
Alckmin representa uma combinação de experiência, moderação, conhecimento da máquina pública e capacidade de articulação que poderá ser especialmente valiosa num governo empenhado em acelerar o crescimento econômico sem perder a estabilidade. E sua própria posição institucional, como vice-presidente da República, faz dele um participante incontornável de qualquer discussão sobre a sucessão presidencial.
Camilo Santana, Fernando Haddad, Rafael Fonteles e Geraldo Alckmin são quatro excelentes nomes, com perfis distintos e qualidades complementares. Nenhum deles precisa receber agora a condição de sucessor preferencial. Todos poderão ocupar posições estratégicas e ser avaliados pelos resultados que entregarem ao país, assim como outros nomes que surgirem ao longo do caminho, como por exemplo, Simone Tebet, Gleisi Hoffmann e Guilherme Boulos.
É justamente essa diversidade que fortalece Lula. Com várias lideranças relevantes em áreas distintas, o presidente preserva sua autoridade, estimula uma competição saudável por resultados e impede que a sucessão se transforme prematuramente no eixo organizador do governo.
A escolha de um candidato para 2030 deverá surgir de um processo de amadurecimento político, da avaliação dos resultados do próximo mandato e da capacidade de cada liderança de construir uma conexão efetiva com a sociedade brasileira. Não há razão para antecipar uma decisão que dependerá de circunstâncias ainda desconhecidas.
Lula conquistou seu quarto mandato com uma vitória histórica e terá diante de si a oportunidade de consolidar um legado político, econômico e social duradouro. Para isso, precisará de um governo forte, plural, competente e inteiramente comprometido com seu programa.
A melhor forma de preparar a sucessão não é escolher agora um herdeiro, mas construir um governo tão bem-sucedido que vários de seus integrantes tenham condições de reivindicar, legitimamente, a continuidade do projeto.
Com quatro presidenciáveis fortes, Lula não dilui seu poder. Ao contrário, permanece como o grande centro de gravidade política do governo e como o principal fiador de um projeto que poderá ultrapassar seu próprio ciclo presidencial.



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