O pânico antes do voto: a máquina do medo já está ligada
A poucos dias da eleição, o medo voltou a ser matéria-prima da disputa política. Pânico moral, religião, sexualidade e desinformação se combinam numa engrenagem de disputa psicológica sobre o eleitorado. O que está em jogo já não é apenas o voto, mas o ambiente emocional em que ele será decidido.
O lixo que chegou antes do voto
A mensagem é grotesca. Talvez por isso seja tão fácil subestimá-la. Fala em fezes, esperma, cromossomos, crianças doentes, abuso sexual, violência e morte. Afirma que determinadas práticas sexuais contaminariam o sangue, alterariam a genética e adoeceriam bebês. Tudo aparece como orientação de saúde, com a segurança de quem acredita estar revelando uma verdade escondida. A poucos dias da eleição, esse material voltou a circular em grupos bolsonaristas. A reação mais confortável seria rir, chamar de delírio e seguir adiante. Foi exatamente por isso que resolvi abrir a mensagem.
O que apareceu do outro lado não nasceu nesta eleição. Em setembro de 2016, Gutemberg Pacheco Lopes já havia levado uma versão da mesma teoria a um órgão do governo federal. O texto ficou preservado numa decisão da Comissão Mista de Reavaliação de Informações da Presidência da República. Ali já estavam a expressão “pandemia de sodomia”, a associação entre sexo anal, fezes, esperma, doenças infectocontagiosas e microcefalia, além da convocação para que o público procurasse conteúdos relacionados no YouTube. Meses depois, o mesmo repertório apareceria em vídeos publicados em seu nome.
A primeira conclusão impede qualquer atalho. A peça que reaparece agora não foi criada para a eleição de 2026. Não temos prova de que tenha sido produzida por uma campanha, financiada por partido ou lançada por uma operação centralizada. Ela é mais velha. E justamente por isso interessa. Durante quase dez anos, ficou disponível para ser encontrada, copiada, deformada, transformada em meme e devolvida à circulação quando encontrasse um ambiente receptivo. A internet conserva um estoque quase inesgotável de ressentimentos, teorias conspiratórias, medos religiosos, pseudociência e fantasias de contaminação. A política digital aprendeu a trabalhar com esse estoque.
É aqui que a mensagem deixa de ser apenas uma coleção de absurdos médicos. Ela reúne sexo, nojo, doença, crianças, culpa, família e degeneração numa mesma sequência emocional. Não é necessário compreender genética nem acreditar literalmente em cada relação causal apresentada. A força do material está em comprimir medos diferentes até fazê-los parecer partes de uma única ameaça. O sexo vira risco biológico. A diferença vira contaminação. Quando a criança aparece no fim da cadeia, o medo ganha sua justificativa mais poderosa. A pergunta, então, já não é apenas se a mensagem é verdadeira. Ela não é. A pergunta que importa é o que uma mensagem como essa tenta fazer com quem a recebe.
Não é a mentira. É o estado psicológico
Essa pergunta muda o terreno. Quando deixamos de olhar apenas para o conteúdo e passamos a observar o efeito buscado sobre percepção, emoção e comportamento, entramos no campo das operações psicológicas. A doutrina militar brasileira é objetiva. Operações psicológicas são procedimentos sistematizados destinados a levar públicos específicos a manifestar comportamentos desejáveis em favor de objetivos previamente estabelecidos. O centro da operação não é a mentira. É o efeito.
Isso exige precisão. Fake news não é sinônimo de operação psicológica. Uma mentira pode nascer espontaneamente, circular sem comando e desaparecer sem produzir efeito relevante. Pânico moral também não é, por definição, uma PsyOp. Nem toda pregação religiosa, propaganda eleitoral ou conteúdo radicalizado pertence ao mesmo fenômeno. Para falar seriamente em operação é preciso encontrar método, público, objetivo, repetição, canais e algum grau de intencionalidade. Sem isso, a expressão deixa de explicar e vira rótulo.
Mas uma peça não precisa integrar uma operação formal para cumprir funções compatíveis com uma. A mensagem sobre “sodomia” mobiliza emoções elementares. Nojo diante da contaminação. Medo da doença. Proteção da criança. Ameaça à família. Culpa sexual. Ela não oferece apenas uma informação falsa. Oferece uma posição diante do mundo. Há algo degradando a sociedade, há inocentes em perigo, há um mal a reconhecer. Quando esse mecanismo se repete, o adversário político pode deixar de ser alguém com quem se discorda e passar a aparecer como agente de uma destruição que precisa ser interrompida.
É por isso que reduzir o problema a fake news é pouco. A disputa decisiva acontece antes, no campo emocional em que as informações seguintes serão recebidas. Uma população submetida continuamente a mensagens de ameaça não precisa acreditar em todas elas. Basta que algumas deixem resíduos. Desconfiança, repulsa, ansiedade, a sensação de que algo grave está acontecendo e de que as instituições talvez não consigam proteger ninguém. O próximo acontecimento chega a esse terreno. O fato pode ser o mesmo. A leitura disponível para recebê-lo, não.
A velha máquina aprendeu novas técnicas
Nada disso começou agora. O Brasil atravessa há mais de uma década ciclos em que sexualidade, infância, religião e ameaça moral são convertidas em instrumentos de disputa política. O chamado “kit gay” tornou-se um dos casos mais conhecidos. O que nasceu de uma controvérsia concreta em torno do projeto Escola Sem Homofobia foi arrancado de sua origem até reaparecer na eleição de 2018 como símbolo de uma suposta ameaça às crianças e à família. Trotti e Lowenkron mostraram como a proteção da infância contra perigos sexuais articulou cruzadas antipedofilia e antigênero e produziu pânico moral. Quatro anos depois, Cazzamatta e Santos encontraram outro elemento decisivo. Entre 349 verificações analisadas no segundo turno de 2022, a forma mais frequente de falsidade selecionada pelos checadores foi a descontextualização. Quarenta e cinco por cento dos conteúdos desmentidos trabalhavam com falso contexto.
É uma mudança de qualidade. A fotografia pode ser verdadeira. A frase pode ter sido dita. O projeto pode existir. A pessoa pode realmente ter estado naquele lugar. O trabalho começa na montagem. Retira-se a cronologia, apagam-se mediações, aproximam-se fatos de contextos distintos e entrega-se ao público uma conclusão que nenhum deles sustentaria isoladamente. É esse movimento que proponho chamar aqui de desinformação por enxerto. Não como substituto das categorias acadêmicas de falso contexto ou descontextualização, mas como uma maneira simples de enxergar sua potência política. A mentira cresce sobre uma base verdadeira e retira dela parte de sua credibilidade.
No Brasil recente, esse processo ultrapassou o terreno da propaganda. Em outubro de 2025, a Primeira Turma do Supremo condenou os sete réus do chamado Núcleo 4 da tentativa de golpe de Estado. Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República acolhida pelo tribunal, o grupo disseminou notícias falsas sobre as urnas e atacou instituições e autoridades como parte da articulação golpista. O precedente não transforma cada mentira de 2026 em peça de uma nova conspiração. Impede, porém, que a desinformação política seja tratada como folclore de rede social.
A velha máquina não precisou abandonar seus fantasmas. Aprendeu a montá-los sobre pedaços cada vez mais reconhecíveis da realidade. Por isso, a mentira política mais eficiente pode chegar carregando documentos verdadeiros, imagens autênticas e acontecimentos reais. O engano já não precisa parecer falso. Precisa apenas empurrar a verdade para o lugar errado.
Nossa Senhora e a anatomia da mentira verdadeira
A poucos dias do voto, Nossa Senhora Aparecida entrou no centro da disputa política. Na noite de 24 de setembro, espalhou-se a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Não há, até agora, declaração, projeto ou proposta pública do candidato com esse objetivo. Ele negou a história, e veículos que a repercutiram corrigiram a informação. Parar aí, porém, produziria uma leitura tão pobre quanto aceitar o boato.
A falsidade não surgiu num terreno vazio. Em 2007, o então deputado Victório Galli apresentou de fato o Projeto de Lei 2.623, que pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em 2008. Também é real a história de ataques de atores bolsonaristas a setores da Igreja Católica. Em 2021, depois de Dom Orlando Brandes afirmar em Aparecida que uma “pátria amada” não poderia ser uma “pátria armada”, Frederico d’Avila o chamou de “vagabundo” e “safado”, atacou o papa Francisco e disse que a CNBB era um “câncer”. A Assembleia Legislativa de São Paulo abriu processo ético. Nesta eleição, uma cartilha católica sobre democracia e valores cristãos voltou a provocar ataques de perfis bolsonaristas, com acusações de comunismo contra a Igreja e a CNBB.
É essa combinação que torna o episódio tão revelador. Existiu um projeto para mudar a denominação legal. Existiram ataques violentos contra Dom Orlando e a CNBB. Existem tensões reais entre setores católicos e atores do campo bolsonarista. O salto ocorre quando esses fatos são costurados para sustentar uma afirmação que eles não provam. A mentira chega carregando documentos, personagens e conflitos verdadeiros. A adulteração não precisa esconder a realidade. Basta reorganizá-la.
Há uma lição incômoda aqui. Desinformação não se torna aceitável quando atinge um adversário político que consideramos perigoso. Se a crítica à extrema direita pretende ter valor democrático, precisa recusar os mesmos atalhos que denuncia. Não é necessário atribuir a Flávio Bolsonaro uma proposta que ele não fez. O que está documentado já é grave o bastante. E justamente por ser documentado é mais difícil de desmontar.
A infraestrutura do medo
O medo não circula sozinho. Para sair de uma mensagem marginal e adquirir força política, precisa de meios concretos. Pessoas produzem conteúdo, organizações emprestam confiança, comunidades distribuem, plataformas aceleram alcance e uma economia inteira transforma atenção em ativo. É nesse ponto que a conversa sobre operações psicológicas deixa o terreno abstrato das narrativas e encontra sua materialidade. Toda disputa pela consciência depende de estruturas que pertencem ao mundo real.
O algoritmo não é um controle remoto da mente, e as plataformas não fabricam eleitores apertando botões. Seu poder é menos mágico e mais material. Elas organizam visibilidade, reduzem drasticamente o custo da distribuição, aproximam públicos dispersos, permitem testar linguagens em grande velocidade e convertem comportamento em dados. A influência nasce do encontro entre essa capacidade tecnológica e sociedades que já possuem conflitos, preconceitos, igrejas, partidos, empresários, militantes, desigualdades e medos próprios. Numa sociedade periférica há uma contradição adicional. Parte decisiva da esfera pública funciona sobre infraestruturas privadas cujos centros de decisão estão fora do país.
A mensageria fechada torna o problema ainda mais opaco. Sabemos que a velha mensagem sobre “sodomia” voltou a circular em grupos políticos, mas a pesquisa aberta não permite reconstruir toda a cadeia de encaminhamentos. Quem enviou primeiro, por quais grupos passou, quais contas funcionaram como ponte, quantas pessoas receberam. Essa zona de sombra não prova coordenação. Mostra apenas por que distinguir circulação espontânea de distribuição organizada exige dados que muitas vezes não estão disponíveis ao público.
Nas plataformas abertas, parte da infraestrutura fica visível. Em setembro, o TSE determinou que Facebook e Shopee preservassem e fornecessem informações numa ação que apura possível atuação coordenada de contas no Instagram por meio de publicações em colaboração durante a campanha de Flávio Bolsonaro. A investigação não prova abuso nem coordenação ilegal. Mostra, porém, onde uma parte importante do poder político contemporâneo precisa ser procurada. Não apenas no conteúdo, mas nas relações entre perfis, administração de contas, distribuição, monetização e mecanismos que multiplicam alcance.
É nesse terreno que a expressão máquina do medo deixa de ser metáfora. A máquina não precisa ser uma sala secreta com alguém distribuindo ordens. Pode existir na combinação concreta entre organizações, lideranças políticas, comunidades religiosas, profissionais da influência, empresas de tecnologia e estruturas econômicas que convertem atenção em alcance e alcance em poder. Seus componentes não precisam obedecer ao mesmo comando para produzir efeitos convergentes. Interesses compatíveis, repertórios comuns e a mesma infraestrutura podem fazer muito do trabalho. A psicologia também tem meios de produção.
Da guerra espiritual à disponibilidade para o choque
Nas últimas semanas, essa engrenagem apareceu com especial nitidez em segmentos do ecossistema evangélico alinhado ao bolsonarismo. Um relatório da Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque analisou 573 perfis de lideranças religiosas e políticas, igrejas, mídia e influenciadores. Entre 31 de agosto e 13 de setembro, foram 26.762 publicações e pouco mais de 189 milhões de interações no universo monitorado. A crise envolvendo o Supremo foi reinterpretada por parte dessas redes por meio de profecias, orações, referências bíblicas e linguagem de “guerra espiritual”. O mesmo levantamento registrou o reaparecimento do “Modo Nepal” em conteúdos de setores radicalizados à direita.
É preciso cuidado com a escala. Esses números não descrevem todos os evangélicos brasileiros. Revelam um ecossistema específico e sua capacidade de circulação. A diferença é crucial. Religião não é sinônimo de extremismo, assim como evangelicalismo não é sinônimo de bolsonarismo. O problema começa quando a disputa eleitoral é convertida em batalha transcendente. Se o conflito é entre Deus e seus inimigos, a negociação democrática perde sentido. Não se negocia com o demônio. Não se reconhece facilmente a legitimidade de uma derrota para quem foi apresentado como ameaça à própria existência moral da comunidade.
A própria Agência Brasileira de Inteligência trata o tema como risco para 2026. Em seu relatório “Brasil: desafios para a inteligência”, a Abin aponta a polarização social e a instrumentalização de crenças religiosas como fatores capazes de afetar a integridade do processo eleitoral. O documento registra que o adversário pode deixar de ser percebido como competidor legítimo e passar a ser tratado como inimigo a eliminar. Fala também em exploração de diferenças religiosas para mobilização eleitoral dentro de uma lógica de guerra religiosa e alerta para o risco de extremismo violento ideologicamente motivado.
É aqui que o pânico moral encontra sua utilidade estratégica. Ele não precisa dizer ao eleitor em quem votar. Pode fazer algo anterior. Ensina quais fatos devem provocar medo, quais grupos devem despertar repulsa, quais instituições merecem desconfiança e quais palavras funcionam como sinais de emergência. Mensagens sobre crianças ameaçadas, fé perseguida, comunismo, crime, sexualidade, tribunais inimigos e decadência nacional não precisam formar uma crença única. Basta que criem um repertório emocional pronto para uso.
Quando chega uma decisão judicial, uma denúncia, uma violência, uma declaração de bispo ou qualquer acontecimento capaz de concentrar atenção, esse repertório oferece a moldura. O fato pode ser inteiramente verdadeiro. O trabalho político começa na interpretação que corre para ocupá-lo. Antes que se saiba exatamente o que ocorreu, aparecem responsáveis, culpados, beneficiários e uma explicação pronta para o futuro do país. A mentira pura continua existindo, mas deixou de ser indispensável. Primeiro se organiza a ameaça. Depois se tenta capturar o acontecimento.
A democracia não pode chegar atrasada ao acontecimento
É aqui que o campo democrático precisa compreender a natureza do problema sem reproduzir os métodos que denuncia. A resposta não pode ser fabricar uma mentira melhor, organizar um pânico concorrente ou entregar ao público certezas que os fatos ainda não permitem. O caso de Nossa Senhora Aparecida mostrou isso com clareza. Uma acusação politicamente conveniente continuou sendo falsa mesmo quando cresceu sobre um terreno de conflitos verdadeiros. Defender a democracia começa pela recusa de trocar precisão por utilidade.
A primeira defesa parece elementar, mas se tornou difícil numa sociedade organizada pela velocidade. É preciso recuperar o direito de não saber imediatamente. Entre um acontecimento e sua interpretação existe um intervalo. A política digital tenta ocupá-lo em segundos. A investigação séria precisa de tempo. Jornalistas, instituições, pesquisadores e autoridades deveriam tratar esse espaço como território estratégico. Quando uma versão chega pronta antes das evidências, é preciso perguntar sobre quais fatos se apoia, o que deixou de fora e que comportamento procura produzir.
Isso exige capacidade institucional e jornalismo melhor. O TSE entrou em 2026 com instrumentos específicos para lidar com conteúdo manipulado por inteligência artificial e sistemas de denúncia de desinformação. São mecanismos necessários, mas insuficientes diante de um ambiente em que a manipulação pode utilizar material verdadeiro, mensageria fechada e redes distribuídas de influência. A defesa democrática não será apenas tecnológica. Dependerá da capacidade de reconhecer o método antes que o efeito se consolide.
Há ainda uma camada que tecnologia nenhuma resolve sozinha. A extrema direita não inventou a insegurança, a precariedade, o medo da violência, a perda de referências ou a crise de confiança nas instituições. Ela disputa politicamente essas contradições. Converte problemas materiais em inimigos morais, desloca conflitos sociais para guerras culturais e oferece pertencimento onde o Estado muitas vezes ofereceu distância. Combater apenas a narrativa sem tocar o mundo que lhe dá aderência é enxugar o chão com a torneira aberta.
Foi por isso que a velha mensagem sobre “sodomia” mereceu ser levada a sério. Não porque sua pseudociência tenha qualquer valor. Não porque tenhamos descoberto uma central secreta por trás dela. E muito menos porque cada pessoa que a encaminhou faça parte de uma operação organizada. Ela importa porque funciona como um pequeno fóssil de uma tecnologia política maior. Sexo vira contaminação. Diferença vira degeneração. Criança vira justificativa absoluta. Medo vira identidade. Identidade pode virar ação.
A mensagem tem quase dez anos. O ambiente que a torna novamente útil é de agora. A poucos dias do voto, essa é a advertência central. A eleição não acontece apenas quando o cidadão aperta uma tecla na urna. Acontece também antes, quando forças políticas disputam aquilo que ele deve temer, quem deve considerar inimigo e quais fatos estará preparado para enxergar como prova de que sua vida, sua família, sua fé ou seu país estão sob ataque.
A urna vem no fim. O pânico chega antes.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>



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