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Entre princesas, heróis e o pensamento de Caio Prado Júnior

28.09.2026 6 min read

Quase todos os domingos vou à padaria Ricco Pane que fica no Mall lá em Sousas. Não vou apenas buscar o bom atendimento ou a qualidade do que nos servem por lá, mas acompanhar nossas netas interagindo com outras tantas crianças, vencendo os medos e criando aventuras no “brinquedão” – já escrevi sobre ele aqui -, e vivendo o encantamento de ver e tocar os diversos personagens que visitam a padoca. 

Os olhos das crianças brilham quando chegam as princesas, os heróis – como o Homem-Aranha -, a Jessie e o Xerife Woody (Toy Story), a Elsa (Frozen), os Minions, a Luna dentre outros tantos. 

São momentos de enorme alegria.

Nem sempre as meninas me chamam para brincar com elas e, como “pai do noivo”, sei esperar e sei que meu lugar é o da espera; nós, “pais dos noivos” não temos o protagonismo das avós, do avô materno ou dos padrinhos… O avô paterno ou, como sempre falo, o “pai do noivo” tem que esperar, estar disponível, mas esperar e aproveitar cada momento em que é levado ao mundo mágico das crianças de dois e três anos, essa é a idade das minhas netas, Isabela, a Lalá e a Clarice.

Assim como tenho paciência para ser incluído nas brincadeiras, saberei esperar para falar para elas sobre livros que não envelhecem, ao contrário, eles permanecem e, de tempos em tempos, parecem voltar à nossa mesa de trabalho para perguntar se aprendemos alguma coisa desde que foram escritos.

Nesse ultimo domingo a Clarice não me deu muita bola, então fiquei pensando que quando minhas netas tiverem interesse sobre temas complexos vou apresentar a elas Caio Prado Junior, um autor fundamental para quem quer compreender o Brasil e pretende refletir sobre o futuro, compreendendo o passado. 

Caio Prado Júnior nasceu em 1907, numa das famílias tradicionais da elite paulista. Formou-se em Direito em 1928 e, muito cedo, escolheu um caminho que poderia parecer improvável para alguém de sua origem: tornou-se militante comunista, historiador, economista, editor e um dos mais importantes intérpretes do Brasil. Sua trajetória intelectual esteve sempre ligada à ação política.

E talvez esteja aí uma das primeiras lições: pensar não era, para ele, uma atividade separada da vida, a teoria precisava encontrar a realidade e a realidade brasileira não cabia, como ele percebeu muito cedo, nas cartilhas prontas.

Essa talvez seja a sua maior atualidade e, a meu juízo, originalidade.

Caio Prado Júnior foi marxista, mas não foi um repetidor de Marx. Foi comunista, mas não aceitou transformar o marxismo numa coleção de fórmulas. Dentro do próprio PCB, sustentou interpretações que contrariavam a visão predominante de que o Brasil colonial seria essencialmente feudal e que, portanto, deveria passar por uma etapa de revolução democrático-burguesa antes de avançar para o socialismo.

Ele olhou para o Brasil e disse, em essência: “vamos começar pelo Brasil”.

Parece pouco, mas não é, trata-se de uma enorme exigência intelectual.

Em Evolução Política do Brasil, de 1933, por exemplo, Caio Prado utilizou de maneira pioneira o materialismo histórico para interpretar nossa formação. Depois, em Formação do Brasil Contemporâneo, publicado em 1942, desenvolveu aquela que se tornaria uma das ideias centrais de sua obra: o sentido da colonização.

Para compreender o Brasil, dizia ele, era preciso olhar para o conjunto, não apenas para os acontecimentos, não apenas para os personagens, não apenas para as leis. Era preciso compreender a estrutura, pois o Brasil nasceu voltado para fora. 

A elite nacional, que liderou a colonização, não teve como objetivo fundamental construir aqui uma sociedade nacional autônoma. A economia colonial foi organizada como empreendimento comercial: grandes propriedades, produção de gêneros destinados ao mercado externo e utilização massiva do trabalho escravizado, era a própria lógica da colonização.

E essa percepção é extraordinariamente importante porque nos obriga a enxergar uma coisa que às vezes preferimos esquecer: a desigualdade brasileira não nasceu ontem, ela tem história, tem classe social e tem raça.

Caio Prado não estava dizendo que o Brasil permaneceu imóvel desde o século XVI. Muito ao contrário. O país mudou profundamente. Passou pela Independência, pela Abolição, pela República, pela industrialização, pela urbanização, pela expansão do mercado interno e por transformações sociais imensas, contudo, uma sociedade pode mudar sem romper completamente com aquilo que a constituiu, foi o que aconteceu conosco.

É justamente aí que sua reflexão continua provocadora, tenho certeza que, no momento certo a Lalá e a Claricinha vão se interessar a compreender que se o Brasil deixou de ser formalmente uma colônia, tornou-se uma República que se manteve a serviços da elite, que a industrialização, a urbanização, a criação de universidades, empresas, instituições, sempre esteve a serviço de uma classe, que não é a classe trabalhadora ou a classe-média.

Em 526 anos, desde o descobrimento, determinadas características de nossa formação histórica permaneceram intocadas: (a) a concentração da propriedade; (b) a desigualdade social e sua normalização; (c) a dependência de setores voltados ao mercado externo; (d) a dificuldade de construir um projeto nacional que articule crescimento econômico, distribuição de renda e cidadania.

Infelizmente Lula não é eterno, pois, apenas com ele na presidência teve início a articulação para criação de um projeto de nação; um projeto algumas vezes social democrata, as vezes social-liberal, mas que busca romper com as estruturas antigas.

Não sei muita coisa, não sei quase nada, mas as ideias de Caio Prado Junior precisam chegar às minhas netas para que elas possa, compreender o Brasil contemporâneo; para que elas não se importem mecanicamente com categorias construídas para explicar outras sociedades, pois, o Brasil é único e não precisa de formulas, precisa dar ao povo o protagonismo necessário, afinal a elite e a classe média – sempre disposta a engolir qualquer coisa em troca da manutenção de alguns privilégios -, tiveram 509 anos e não foram capazes de olhar para o povo, nem de propor um projeto soberano de pais.

O leitor pode estar perguntando se seu marxista. Minha resposta é não, não tenho nem cultura politica suficiente para isso, mas li Caio Prado e o seu marxismo era, nesse sentido, profundamente brasileiro; ele desconfiava das fórmulas porque sabia que sociedades concretas não obedecem a esquemas abstratos.

Para ele o Brasil não poderia ter a aplicação de modelos produzidos para explicar outras experiências históricas, pois, o país precisa ser estudado em sua especificidade.

Essa posição parece óbvia hoje. Não era naquele momento.

E continua sendo necessária.

Porque ainda temos uma tendência a procurar respostas prontas para problemas que são nossos.

Caio Prado preferia outra coisa: investigação, observação, História, Economia, Conflito social e realidade. Essa característica explica por que sua obra ultrapassou os limites da historiografia marxista e passou a integrar o patrimônio maior do pensamento social brasileiro.

Para mim, a grande contribuição de Caio Prado Junior é a seguinte questão: quando, afinal, deixaremos de ser apenas herdeiros da nossa história para nos tornarmos, de fato, construtores do nosso destino?

Quem sabe minhas netas farão parte da geração que vai fazer do Brasil uma grande nação.

Essas são as reflexões.

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