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A derrota de Trump e o horror que testemunhei no Irã

04.11.2026 6 min read

A derrota de Donald Trump nas urnas tem uma explicação econômica imediata: a guerra contra o Irã, desencadeada em 28 de fevereiro, provocou uma escalada nos preços dos combustíveis, pressionou a inflação e atingiu o bolso dos americanos. Segundo as pesquisas, esse foi um dos principais fatores da rejeição ao presidente dos Estados Unidos e ao seu partido.

Mas há outra dimensão dessa derrota que não pode ser ignorada. É a dimensão moral de uma guerra injustificada, que matou inocentes, destruiu famílias e espalhou o terror entre populações que nada tinham a ver com os objetivos militares anunciados por Washington.

Para quem esteve no Irã depois do início dos bombardeios, como eu, essa dimensão não é abstrata. Tem rostos, nomes, lágrimas e histórias que jamais serão esquecidas.

Estive em Lamerd, uma cidade de aproximadamente 35 mil habitantes, onde, segundo os moradores que entrevistei, a vida econômica está ligada à pesca e às atividades locais. Não identifiquei ali qualquer instalação militar que pudesse justificar qualquer ataque.

Entrevistei duas mães que perderam suas filhas no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro. Vi de perto a dor dessas mulheres. Uma dor que não cabe nas estatísticas dos conflitos internacionais nem nos discursos dos governantes que ordenam bombardeios a milhares de quilômetros de distância.

Uma das vítimas era uma menina de apenas dois anos. Brincava no quintal de casa quando foi atingida por um fragmento de bomba. Sua vida terminou antes mesmo que pudesse compreender o significado da palavra guerra.

As informações periciais apresentadas sobre o ataque apontavam para o emprego de armamentos de fragmentação, capazes de espalhar milhares de estilhaços. Eram esses fragmentos que haviam atingido casas e pessoas.

Entrevistei também uma mulher que caminhava com o auxílio de muletas. Um dos fragmentos havia penetrado sua perna e não pôde ser retirado. Ela carregava no próprio corpo uma lembrança permanente da violência.

Visitei ainda um ginásio de esportes onde adolescentes foram atingidos por pedaços de uma bomba.

O que encontrei foi um cenário de horror.

Diante daquelas mães, daquela mulher ferida e dos locais atingidos, era inevitável perguntar: que objetivo militar poderia justificar tamanha brutalidade? O padrão de destruição e os relatos que ouvi levantavam uma suspeita perturbadora: a de que o bombardeio pudesse ter sido destinado não apenas a destruir estruturas, mas também a produzir terror entre os civis.

Minha passagem por Lamerd aconteceu quando o grupo de jornalistas se dirigia a Minab. Tivemos de alterar a rota porque, naquele dia, os Estados Unidos haviam retomado os bombardeios na região, em meio às cerimônias fúnebres de Ali Khamenei.

A guerra continuava a impor seus riscos até mesmo a quem tentava documentar suas consequências.

Trump apresentou a necessidade de impedir que o Irã desenvolvesse armas nucleares como uma das justificativas centrais da ofensiva.

Mas o que testemunhei e ouvi no país me levou a questionar a racionalidade dessa estratégia.

As instalações nucleares iranianas contam com estruturas subterrâneas fortificadas, e a profundidade atribuída a algumas delas coloca em discussão a eficácia de ataques aéreos para eliminar definitivamente a capacidade de enriquecimento de urânio.

Mesmo que os bombardeios destruíssem equipamentos e instalações, isso não significaria necessariamente eliminar o conhecimento científico e tecnológico acumulado pelos iranianos.

Entrevistei moradores que defendiam a fabricação de uma bomba nuclear como instrumento de dissuasão. Para eles, possuir esse armamento seria uma maneira de impedir novas agressões estrangeiras.

Ao mesmo tempo, esses entrevistados afirmavam que o Irã não havia tomado essa decisão em razão da oposição do líder supremo, Ali Khamenei, que havia manifestado publicamente sua posição contrária à produção e ao uso de armas nucleares.

Há uma contradição evidente na estratégia americana: uma guerra apresentada como instrumento para impedir a proliferação nuclear pode fortalecer, entre os iranianos, a convicção de que somente a posse da bomba seria capaz de proteger o país.

A violência que deveria eliminar uma ameaça pode acabar produzindo as condições políticas para torná-la mais provável.

A guerra contra o Irã foi, a meu ver, um erro estratégico, político e moral.

O preço mais alto foi pago pela população iraniana. Pelas crianças mortas, pelas mães que enterraram suas filhas, pelos adolescentes feridos, pelas pessoas que perderam suas casas e pelos sobreviventes que carregarão para sempre as marcas físicas e psicológicas dos bombardeios.

Mas os americanos também pagaram por essa decisão.

Pagaram nas bombas financiadas com recursos públicos, na alta dos combustíveis, no encarecimento dos alimentos e no agravamento das dificuldades econômicas de milhões de famílias.

A inflação tornou-se uma consequência doméstica de uma aventura militar conduzida longe do território americano.

E as urnas passaram a cobrar essa conta.

A derrota eleitoral de Trump e de seu partido pode representar, portanto, mais do que uma reação ao aumento do custo de vida. Pode ser também interpretada como parte de uma rejeição mais ampla a uma política externa baseada na força, na intimidação e na ideia de que os Estados Unidos têm o direito de decidir o destino de outros povos.

A derrota nas urnas, entretanto, não repara a brutalidade da guerra.

Não devolve a vida à menina de dois anos que brincava no quintal. Não restitui as filhas às mães que entrevistei. Não retira o fragmento alojado na perna da mulher que conheci. Não apaga o sofrimento dos adolescentes atingidos no ginásio.

A responsabilidade pelos ataques contra civis precisa ser investigada de maneira independente. Se comprovados ataques deliberados contra a população civil ou o emprego de meios de guerra indiscriminados, seus responsáveis devem responder por crimes de guerra.

Defendo que Donald Trump seja investigado e, havendo provas de sua responsabilidade criminal, julgado por esses atos. Sei que essa possibilidade é remota, sobretudo diante do poder político e militar dos Estados Unidos e dos obstáculos que historicamente dificultam a responsabilização internacional de seus dirigentes.

Mas existe também o julgamento moral.

E, nesse julgamento, considero que Trump já foi condenado.

A condenação se manifesta nos votos negados ao seu partido, na rejeição à guerra e na indignação de pessoas que, em diferentes partes do mundo, se recusam a aceitar como normal o assassinato de crianças em nome de supostos interesses estratégicos.

O que ocorreu nos Estados Unidos precisa ser observado também à luz de um fenômeno político mais amplo.

A extrema direita transformou o ressentimento, a intolerância e a fabricação de inimigos em instrumentos centrais de mobilização política.

Seus líderes frequentemente apresentam a agressividade como demonstração de força, a negociação como fraqueza e a violência como solução para conflitos complexos.

Trump é uma das expressões mais poderosas dessa concepção de mundo.

No Brasil, a rejeição eleitoral ao bolsonarismo pode ser interpretada como parte de uma reação semelhante. E, na Argentina, Javier Milei também enfrenta as contradições de um projeto político que faz do confronto permanente uma marca de governo.

Não é possível afirmar que todos esses movimentos estejam definitivamente derrotados. A extrema direita mantém bases sociais, capacidade de mobilização e instrumentos de poder.

Mas há sinais de resistência a essa política do ódio.

A população parece estar dizendo: basta!

Basta de guerras injustificadas. Basta de governantes que transformam adversários em inimigos. Basta da brutalidade apresentada como coragem. Basta de fazer os mais vulneráveis pagarem pelas decisões dos mais poderosos.

A escolha entre civilização e barbárie não é uma abstração filosófica.

Eu a vi concretamente em Lamerd, diante de mães que haviam perdido suas filhas. Vi essa escolha no sofrimento de uma mulher apoiada em muletas. Vi no ginásio onde adolescentes foram atingidos por estilhaços.

A barbárie estava ali, diante dos meus olhos.

Se a derrota de Trump contribuir para impedir que tragédias semelhantes se repitam, terá um significado muito maior do que a simples perda de votos por um partido.

Será um sinal de que a humanidade ainda é capaz de reconhecer os limites da violência e de rejeitar aqueles que a transformam em método de governo.

Porque nenhuma vitória militar, nenhum interesse geopolítico e nenhum discurso sobre segurança nacional justificam a morte de uma criança que brincava no quintal de sua casa.

E essa é uma verdade que nenhuma potência militar poderá bombardear.

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