Genoino: “A vitória de Lula foi a vitória do Sul Global”
247 – O ex-presidente do PT José Genoino afirmou, em entrevista ao programa Bom Dia 247, que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 representa uma mudança nas relações de força da política internacional. Na avaliação do dirigente, o resultado ultrapassa as fronteiras brasileiras e fortalece os países que defendem o multilateralismo, a autodeterminação dos povos e uma ordem mundial menos dependente da hegemonia dos Estados Unidos.
“A vitória do Lula foi a vitória do Sul Global, a vitória do multilateralismo, a vitória da autodeterminação dos povos, a vitória da luta pela paz, a vitória que articula um campo político representado pelos Brics a partir de uma integração regional”, declarou Genoino.
Segundo ele, o resultado eleitoral oferece ao Brasil a possibilidade de ampliar sua participação nas articulações internacionais e assumir uma posição de liderança na construção de alternativas à influência norte-americana. O dirigente considera que a reeleição de Lula ocorre em um momento de disputa sobre a organização do sistema internacional, marcado por conflitos, pressões econômicas e mudanças nas relações entre as potências.
Genoino destacou o reconhecimento do resultado brasileiro por governos latino-americanos de diferentes orientações políticas. Para ele, essa reação demonstra que o Brasil dispõe de condições para ampliar o diálogo regional e construir iniciativas de cooperação mesmo com países cujos governos não compartilham integralmente das posições de Lula.
“Os governos, mesmo de perfil de direita, reconheceram o resultado, e o Lula tem que dialogar com esses governos para implementar uma integração regional que enfrente a tentativa do imperialismo americano de América para os Estados Unidos”, afirmou.
Na avaliação do ex-presidente do PT, o reconhecimento internacional da vitória brasileira pode ser convertido em capacidade de articulação diplomática. Ele defendeu que Lula utilize esse espaço para fortalecer a integração sul-americana, ampliar a cooperação entre os países do Sul Global e estabelecer posições comuns diante das pressões exercidas pelos Estados Unidos.
Genoino considera que a política externa brasileira deve partir do entendimento de que a hegemonia norte-americana enfrenta um processo de desgaste. Ele relacionou esse cenário aos conflitos internacionais, à situação política de aliados de Washington e às disputas em curso na América Latina.
“Eu acho que os Estados Unidos atravessam uma decadência do ponto de vista da sua hegemonia no mundo”, avaliou.
O dirigente também associou o resultado brasileiro ao enfrentamento político da influência de Donald Trump na região. Para ele, a derrota de Flávio Bolsonaro representa um obstáculo à formação de um governo brasileiro alinhado à estratégia internacional do presidente norte-americano.
Genoino afirmou, contudo, que a vitória eleitoral não significa o desaparecimento das pressões externas sobre o Brasil. Segundo sua análise, Washington poderá continuar utilizando instrumentos econômicos e diplomáticos para tentar influenciar decisões do governo Lula.
“Agora, nós não podemos achar que o imperialismo vai deixar a gente tranquilo. Não vai”, advertiu.
Entre os instrumentos de pressão mencionados pelo ex-presidente do PT estão ameaças comerciais, imposição de tarifas e iniciativas de intimidação política. Genoino classificou esse conjunto de ações como parte de uma estratégia de “guerra psicológica” destinada a limitar a autonomia dos países que buscam caminhos próprios de desenvolvimento.
“Agora, o imperialismo vai usar a guerra psicológica no primeiro momento, que é ameaça, tarifa aqui, tarifa lá”, afirmou.
Diante desse cenário, Genoino defendeu que o Brasil fortaleça sua capacidade de resposta por meio de uma política externa articulada à estratégia de desenvolvimento econômico. Para ele, a soberania nacional depende tanto das relações diplomáticas quanto da capacidade de controlar recursos e setores considerados fundamentais para o futuro do país.
Nesse contexto, mencionou a necessidade de avançar nas políticas relacionadas às terras raras e aos minerais críticos, recursos que ganharam importância nas disputas internacionais por tecnologia, energia e cadeias industriais.
“O governo vai ter que avançar nessa questão das terras raras, minérios críticos, que eu acho que é um problema importante. O próprio projeto que foi aprovado não é suficiente”, afirmou.
Genoino considera que a defesa desses recursos deve integrar uma estratégia mais ampla de desenvolvimento e de redução da dependência externa. Na sua avaliação, a política econômica, a integração regional e a proteção dos recursos naturais precisam ser tratadas como dimensões de um mesmo projeto de soberania.
O ex-presidente do PT também defendeu que Lula amplie sua atuação nas organizações e nos espaços de negociação internacional, especialmente no G20 e nos Brics. Segundo ele, o Brasil reúne condições políticas para assumir uma função de articulação entre países interessados em reformular as relações internacionais.
“Nós temos o capital político para o Lula ser a principal liderança do multilateralismo, a principal liderança das articulações do G20, a principal liderança de articulação dos Brics”, declarou.
Para Genoino, essa liderança deve ser exercida a partir de uma agenda que inclua questões econômicas, ambientais e sociais. Ele mencionou o equilíbrio ecológico, os direitos dos migrantes, a autodeterminação dos povos, a solidariedade à população palestina e o fortalecimento das relações entre os países do Sul Global.
“A pauta da humanidade tem que ser colocada nessa agenda”, afirmou.
O dirigente sustentou que a reeleição de Lula também produz consequências para os movimentos progressistas de outros países, especialmente em um contexto de dificuldades enfrentadas por organizações de esquerda na Europa e na América Latina.
Ele citou experiências políticas no México, movimentos sociais na França e mobilizações nos Estados Unidos como parte de um cenário internacional no qual diferentes forças procuram construir alternativas ao avanço da extrema direita.
Na sua interpretação, o resultado brasileiro altera as possibilidades de articulação entre essas experiências e recoloca o país em uma posição de referência para setores que defendem transformações sociais.
“A vitória do Lula muda o eixo da articulação geopolítica do mundo. Muda o eixo”, afirmou.
Genoino defendeu que essa mudança seja acompanhada por uma reformulação da atuação diplomática brasileira. Para ele, o novo mandato deve superar uma política externa limitada à representação institucional e desenvolver iniciativas com objetivos definidos, maior capacidade de articulação e participação nas disputas internacionais.
“Esse eixo é uma diplomacia diferente. Não é a diplomacia ativa e altiva. É uma diplomacia mais programática, é uma diplomacia com mais alvos, é uma diplomacia mais militante”, explicou.
O ex-presidente do PT reconheceu a importância do trabalho desenvolvido pelo Itamaraty, mas afirmou que o momento exige uma atuação que vá além dos procedimentos diplomáticos tradicionais. Em sua avaliação, a política externa precisa estar vinculada a um projeto nacional de desenvolvimento e às transformações em curso no sistema internacional.
Para Genoino, o quarto mandato de Lula oferece ao Brasil a oportunidade de combinar integração regional, fortalecimento dos Brics e defesa da soberania em uma estratégia de inserção internacional. Ele considera que o país poderá contribuir para a construção de novas relações entre os Estados, desde que mantenha sua autonomia diante das pressões externas.
Ao avaliar o significado da eleição, o dirigente concluiu que a vitória de Lula representa não apenas a continuidade de um governo, mas a abertura de uma etapa na qual o Brasil poderá exercer maior influência nas articulações políticas do Sul Global.
“O Brasil dá uma grande lição para o mundo”, afirmou.


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