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Durante quase todo o debate, Flávio fugiu das perguntas de Lula

19.10.2026 8 min read

247 – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou repetidamente do senador Flávio Bolsonaro (PL) respostas sobre episódios de sua trajetória política e propostas para o país durante o primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais, realizado pela Rede Bandeirantes no domingo (18). Segundo balanço divulgado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Flávio evitou responder diretamente a diversas perguntas, recorrendo a ataques pessoais, ironias e mudanças de assunto.

Durante quase todo o confronto, Lula insistiu em questões relacionadas aos direitos das mulheres, à jornada de trabalho, à segurança pública, ao financiamento das universidades e à negociação de recursos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para a produção de um filme sobre Jair Bolsonaro.

O relato do PT destaca que o presidente procurou confrontar o adversário com seu histórico de votações e manifestações políticas, enquanto Flávio direcionou parte de suas respostas a acusações contra Lula e seus familiares.

Entre os momentos de maior tensão, Lula chegou a reclamar da ausência de respostas objetivas. “Você não vai responder, pelo amor de Deus. Três perguntas, você não responde nenhuma”, afirmou.

Lula cobra explicações sobre voto contrário à ampliação da licença-maternidade

Um dos primeiros questionamentos apresentados por Lula envolveu o voto de Flávio Bolsonaro, em 2009, contra uma proposta de ampliação da licença-maternidade para servidoras públicas estaduais do Rio de Janeiro.

O projeto, apresentado pelo então deputado estadual Marcelo Freixo, previa a ampliação do benefício para seis meses, com possibilidade de prorrogação por mais três meses.

Segundo o PT, a proposta foi aprovada em primeira votação por 45 votos a um, sendo Flávio Bolsonaro o único parlamentar contrário.

Lula questionou diretamente o adversário sobre as razões daquele posicionamento.

“Você não respondeu a pergunta. O que que você tem contra garantir que as mulheres tenham apenas mais dois meses para cuidar de uma criança? Por que que você votou contra?”, perguntou o presidente.

De acordo com a publicação petista, Flávio não apresentou uma justificativa específica para seu voto e preferiu direcionar a resposta a críticas à família de Lula.

A discussão colocou em evidência as divergências entre os candidatos sobre direitos sociais e políticas de proteção à maternidade.

Escala 6×1 e direitos dos trabalhadores também entram no confronto

Outro tema abordado por Lula foi o fim da escala 6×1, que prevê seis dias de trabalho para apenas um de descanso.

O presidente cobrou esclarecimentos sobre a posição de Flávio Bolsonaro em relação à redução da jornada e sobre as propostas defendidas por integrantes de sua campanha.

A discussão ocorreu poucos dias depois da aprovação, pelo Senado, de uma proposta de emenda constitucional que prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, e a garantia de dois dias de descanso.

Embora Flávio tenha votado remotamente a favor do fim da escala 6×1 enquanto fazia campanha no Rio Grande do Sul, Lula questionou a compatibilidade dessa posição com iniciativas defendidas por aliados do senador.

Entre elas está a PEC 12/2026, associada ao senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, que prevê modalidades de contratação por hora, com remuneração e direitos proporcionais ao tempo trabalhado.

Parlamentares do PT criticam a proposta por considerarem que ela pode ampliar a precarização das relações de trabalho.

O relato petista também menciona declarações do líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, sobre a intenção de reapresentar, em 2027, uma proposta de jornada flexível negociada entre empregados e empregadores, caso Flávio seja eleito.

Segundo a publicação, o senador respondeu inicialmente com ironias sobre os gestos e a maneira de falar de Lula, sem esclarecer as divergências entre seu voto e as propostas de integrantes de seu campo político.

Lula questiona admiração de Flávio pelo modelo de Javier Milei

O presidente também confrontou Flávio Bolsonaro sobre sua admiração pelo modelo econômico e administrativo do presidente argentino Javier Milei.

A discussão envolveu especialmente o financiamento das universidades públicas e a proposta atribuída a Flávio de retirar essas instituições da estrutura do Ministério da Educação.

Lula mencionou as manifestações realizadas na Argentina contra os cortes orçamentários e as dificuldades enfrentadas pelas universidades durante o governo Milei.

Na quinta-feira (15), estudantes, professores e trabalhadores participaram da quinta Marcha Federal Universitária, reivindicando mais recursos para as instituições, recuperação salarial e cumprimento da legislação de financiamento universitário.

O presidente brasileiro utilizou a motosserra, símbolo político adotado por Milei para representar os cortes de despesas públicas, como referência para questionar os planos de seu adversário.

“Você vai pedir a motosserra emprestada do Milei?”, provocou Lula.

Em seguida, perguntou: “A tesourada vai cair nas costas de quem?”.

Segundo o PT, Flávio respondeu com acusações de corrupção contra o governo, sem detalhar os efeitos de suas propostas sobre o orçamento universitário.

Representantes de instituições federais têm manifestado preocupação com a possibilidade de mudanças administrativas que comprometam o financiamento do ensino superior.

A discussão envolve também as garantias constitucionais de investimento em educação e as diferenças entre os mecanismos de financiamento do Ministério da Educação e os destinados à ciência e tecnologia.

Morte de criança de cinco anos provoca confronto sobre segurança pública

Um dos momentos mais tensos do debate ocorreu quando Lula questionou a atuação de Flávio Bolsonaro em favor de um policial militar acusado de matar uma criança de cinco anos no Rio de Janeiro.

Ana Clara Gomes Machado foi atingida por um disparo de fuzil em 2 de fevereiro de 2021, enquanto brincava na porta de casa, ao lado do irmão de dois anos, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói.

O policial militar Bruno Dias Delaroli foi acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de responsabilidade pela morte da menina.

Lula cobrou explicações sobre a intervenção política atribuída ao senador no episódio.

“Você era senador da República e foi interferir para que um policial que matou uma criança de 5 anos com a bala de fuzil não fosse preso. Me explica por que você fez isso”, questionou.

Segundo o relato do PT, Flávio não esclareceu diretamente a atuação mencionada pelo presidente e desviou a discussão para o direito de voto de pessoas presas.

O episódio foi utilizado por Lula para questionar as prioridades do adversário na área de segurança pública e sua relação com políticas de enfrentamento à violência policial.

Rastreamento de munições e política de armas

Lula também questionou Flávio Bolsonaro sobre sua atuação em favor de mudanças nas regras de identificação e rastreamento de munições.

O debate envolveu o Projeto de Lei 3.723/2019, cuja versão aprovada pela Câmara prevê alterações nas exigências de identificação das embalagens e na marcação de lotes e compradores de determinados tipos de munição.

Esses mecanismos são utilizados para auxiliar investigações criminais, permitindo identificar a origem de cartuchos encontrados em cenas de crimes e eventuais desvios de estoques legalizados.

Segundo o PT, Flávio pressionou pela votação da proposta durante reunião da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em março de 2022.

Lula questionou as razões para flexibilizar instrumentos de rastreamento e relacionou o tema à expansão do acesso a armas durante o governo Jair Bolsonaro.

O presidente também mencionou o risco de armamentos originalmente adquiridos de maneira legal acabarem desviados para organizações criminosas.

De acordo com a publicação petista, Flávio concentrou sua resposta no problema das armas ilegais, sem abordar especificamente os efeitos das mudanças regulatórias promovidas durante o governo de seu pai.

Diante da sequência de respostas que considerou insuficientes, Lula manifestou irritação.

“Você não vai responder, pelo amor de Deus. Três perguntas, você não responde nenhuma”, declarou.

Os R$ 134 milhões negociados com Daniel Vorcaro para filme sobre Bolsonaro

Outro momento de confronto envolveu os recursos negociados por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro.

Lula cobrou explicações sobre o destino do dinheiro e questionou as informações divulgadas a respeito das transferências financeiras relacionadas ao projeto cinematográfico.

Segundo reportagens mencionadas pelo PT, a negociação previa um aporte de aproximadamente US$ 24 milhões, equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época.

A publicação afirma que foram identificadas ao menos seis transferências que somavam US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões.

Parte dos recursos teria sido transferida da Entre Investimentos e Participações para um fundo nos Estados Unidos controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

É importante distinguir o valor inicialmente solicitado dos recursos efetivamente transferidos. As cifras divulgadas não significam que a totalidade dos R$ 134 milhões tenha sido repassada.

Lula insistiu para que Flávio esclarecesse a operação.

“Explica os 134 milhões, é só isso que eu quero. A diretora do filme disse que não recebeu”, afirmou o presidente.

A cobrança colocou no centro do debate as relações financeiras entre integrantes da família Bolsonaro e Daniel Vorcaro, além do destino dos valores associados à produção cinematográfica.

As informações sobre transferências e beneficiários ainda exigem esclarecimento documental, e eventuais irregularidades dependem de apuração pelas autoridades competentes.

Debate marcado por cobranças e ataques pessoais

O primeiro debate do segundo turno evidenciou as diferenças entre as estratégias adotadas pelos candidatos.

Lula procurou concentrar parte de suas intervenções em perguntas sobre votações anteriores, iniciativas legislativas e episódios envolvendo o adversário. Flávio Bolsonaro, por sua vez, utilizou diferentes momentos para apresentar acusações contra o presidente, questionar seu governo e criticar integrantes de sua família.

Na avaliação divulgada pelo PT, o senador evitou responder objetivamente a uma série de questionamentos, especialmente aqueles relacionados ao seu histórico político e às posições defendidas por aliados.

O confronto ocorreu na reta final da campanha presidencial, a uma semana do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

As perguntas sobre licença-maternidade, escala 6×1, financiamento das universidades, segurança pública e recursos negociados com Daniel Vorcaro permaneceram entre os principais pontos de controvérsia levantados durante o debate.

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