Antifascismo versus Reinvenção da Extrema-Direita
No Dicionário de Política, organizado por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino (11ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998), verbete “Antifascismo” do Dicionário de Política oferece uma contribuição especialmente importante para compreender o cenário político contemporâneo: o antifascismo não nasceu como uma ideologia exclusiva da esquerda, mas como uma convergência de correntes políticas diferentes contra movimentos e regimes fascistas.
A partir dessa definição, é possível defender três proposições. Primeira, o antifascismo histórico constituiu uma frente plural, incluindo liberais, republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas e setores católicos.
Segunda, o neofascismo não surgiu apenas no século XXI: suas primeiras manifestações organizadas apareceram no pós-guerra, adaptando-se posteriormente às democracias eleitorais e aos novos meios de comunicação.
Terceira, a extrema-direita contemporânea não reproduz necessariamente o nazifascismo histórico. Algumas de suas correntes procuram alcançar o poder por eleições e enfraquecer gradualmente os mecanismos de controle democrático.
Há uma distinção essencial: nem toda direita radical contemporânea é necessariamente neofascista, assim como nem toda oposição ao fascismo representa uma mesma orientação ideológica.
O autor do verbete sobre o antifascismo é o historiador italiano Massimo Legnani. O texto organiza-se em três partes: Componentes e fases do antifascismo, O antifascismo italiano e O antifascismo do pós-guerra aos nossos dias.
O antifascismo é apresentado como o conjunto de ideias, movimentos, organizações e regimes políticos em oposição a tendências, movimentos e regimes caracterizados como fascistas. Essa definição contém uma dificuldade reconhecida pelo próprio verbete: identificar o antifascismo pressupõe saber o que se entende por fascismo.
Não há identidade perfeita entre fascismo italiano, nazismo alemão, franquismo espanhol e outras experiências autoritárias. Por isso, o antifascismo pode ser compreendido tanto como oposição a regimes históricos determinados quanto como resistência a características políticas compartilhadas por diferentes experiências fascistas.
Legnani examina as divergências entre três interpretações históricas do fascismo capazes de dificultarem a formação de uma frente antifascista.
A distinção é importante porque demonstra o antifascismo nunca ter constituído uma doutrina homogênea. Havia divergências profundas entre seus participantes sobre capitalismo, propriedade privada, democracia parlamentar e revolução socialista. Sua convergência foi o reconhecimento de um adversário considerado mais perigoso para todos: o fascismo.
A formação das frentes antifascistas teve uma transformação decisiva nos anos 1930. Inicialmente, a divisão entre comunistas e social-democratas dificultava a resistência conjunta ao fascismo.
A ascensão de Hitler em 1933 e a mudança de orientação da Internacional Comunista, consolidada em seu VII Congresso de 1935, favoreceram a formação de frentes populares. A experiência espanhola de 1936 e as Brigadas Internacionais representaram manifestações importantes dessa convergência.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o antifascismo adquiriu dimensão internacional, reunindo movimentos de resistência e governos aliados contra o Eixo. O significado histórico dessa união foi a capacidade de suspender parcialmente divergências ideológicas para enfrentar uma ameaça comum às liberdades políticas.
O antifascismo italiano, inicialmente, foi a oposição a Mussolini, mas passou por transformação no pós-guerra. Legnani destaca a resistência dos trabalhadores, as organizações clandestinas, os exilados políticos e a oposição cultural representada por intelectuais como Benedetto Croce. Também registra as dificuldades de articulação entre comunistas, socialistas, liberais e republicanos.
A unificação ganhou força durante a Segunda Guerra Mundial, especialmente com a criação do Comitê de Libertação Nacional. Porém, depois da derrota do nazifascismo, entretanto, a frente antifascista perdeu parte de sua unidade. A Guerra Fria recolocou a oposição entre comunismo e anticomunismo no centro da política internacional.
A memória antifascista permaneceu importante na política italiana, embora os objetivos de seus diferentes participantes continuassem distintos. O verbete já identifica manifestações do neofascismo italiano nas décadas de 1960 e 1970.
Legnani distingue três modalidades: 1. uma face legalista, com participação eleitoral; 2. uma face populista e subversiva, associada a movimentos de contestação das instituições; 3. uma face terrorista, vinculada a atentados e violência política.
Essa classificação demonstra o neofascismo já combinava, há décadas, atuação institucional e práticas antissistêmicas. A resposta antifascista também se dividia entre estratégias de defesa institucional, reformas sociais e formas mais radicais de resistência. Portanto, a tensão entre antifascismo democrático e antifascismo revolucionário não é uma novidade contemporânea.
O neofascismo nasceu no contexto posterior à derrota militar do Eixo, em 1945, quando organizações inspiradas no fascismo tentaram preservar ou reformular sua identidade em sociedades onde se havia passado a rejeitar abertamente os regimes de Mussolini e Hitler.
A Itália constitui o exemplo mais documentado. Em dezembro de 1946, antigos integrantes do regime fascista fundaram o Movimento Social Italiano (MSI). A organização procurou preservar parte da herança fascista, mas também disputar espaço dentro das instituições da nova República italiana.
Posteriormente, surgiram organizações mais radicais, como Ordine Nuovo e Avanguardia Nazionale, algumas associadas a projetos golpistas e à violência. Essa origem revela duas tendências presentes também nas décadas seguintes: 1. a participação em eleições e 2. a atuação de organizações abertamente contrárias ao regime democrático.
O historiador Roger Griffin identifica como núcleo do fascismo a ideia de renascimento nacional: a crença de uma nação supostamente decadente precisar passar por uma regeneração política, moral e cultural. Sua análise do fascismo posterior a 1945 mostra como essa ideia central pôde sobreviver à derrota dos regimes históricos, assumindo novas formas organizacionais e novos discursos.
Não à toa, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, é classificada politicamente como de extrema-direita ou direita radical, mas ela rejeita o rótulo de neofascista e declara-se conservadora democrática. Em discursos oficiais, como ao assumir o cargo no parlamento, Meloni afirmou nunca ter tido simpatia ou proximidade com regimes antidemocráticos ou com o fascismo.
Seu governo mantém forte aliança com a União Europeia, com a OTAN e apoio à Ucrânia contra a Rússia, afastando-se do perfil fascista clássico de ruptura internacional. O governo declarou a luta contra o antissemitismo como prioridade e reconheceu os fascistas italianos terem sido cúmplices do Holocausto.
Porém, aos 15 anos, Meloni ingressou na Frente da Juventude, ala juvenil do Movimento Social Italiano (MSI), um partido fundado no pós-guerra por simpatizantes de Benito Mussolini. Seu partido atual, o Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália), possui raízes diretas nessa linhagem pós-fascista, embora tenha buscado se consolidar como uma sigla de direita conservadora tradicional.
Críticos e opositores apontam a permanência de símbolos históricos, discursos nacionalistas (“Deus, Pátria e Família”) e eventuais episódios envolvendo militantes do partido como indícios de ligação ideológica com o passado fascista.
O candidato à reeleição para a Presidência da República, Jair Bolsonaro (PL), em 2022, voltou a usar o slogan “Deus, Pátria, Família”, criado pelo fascismo, em suas considerações finais no primeiro debate entre presidenciáveis. A frase é uma versão ampliada do slogan do movimento fascista Ação Integralista Brasileira (AIB), criado na década de 1930. Recordar é viver… para não reviver o mal.



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