Micro desinformação segmentada e abstenção induzida: como explicar as eleições brasileiras
O processo de votação brasileiro tem duas viradas. O eleitor sai de casa analógico (um documento no bolso, uma lembrança vaga de onde votou há quatro anos e um papelzinho com números), entra num sistema digital que é provavelmente o mais auditado do mundo e sai dele analógico de novo, na forma de um comprovante e de um total que alguém vai interpretar. A urna cuida do meio. Das duas pontas ninguém cuidou – nem o PT, nem o TSE, nem os TREs – e é nelas que mora o problema que proponho aqui como hipótese a ser investigada. Aviso logo que é hipótese. Os dados por seção do 1º turno ainda não foram publicados pelo TSE e, sem eles, ninguém prova nada. Nem eu, nem quem disser que foi tudo normal.
No domingo, na seção em que minha esposa trabalhou, ela fez ou orientou mais de 150 processos de justificativa. Numa seção só. Gente que estava dentro do local de votação, com documento na mão, querendo votar, e que não votou porque tinha ouvido que bastava a identidade mas não sabia a própria seção, ou porque foi mandada para a seção errada e desistiu na segunda fila. O relato é de uma seção e uma seção não é amostra. Ocorre que os números do próprio TSE apontam na mesma direção: 4,3 milhões de justificativas registradas no dia, 8,6 milhões de emissões de documento pelo e-Título e mais de 22 milhões de consultas de local de votação, com a transmissão dos dados atrasando uns 50 minutos por “tráfego acima do normal”. Vinte e dois milhões de consultas ao celular para saber onde votar, no dia de votar. E esses são os que têm celular, pacote de dados e sabem usar o aplicativo (os outros não aparecem em estatística nenhuma, a não ser numa).
Aparecem na abstenção. Foram 33,4 milhões de eleitores, 21,08% do eleitorado, a maior taxa em eleição geral desde 1998, e a leitura corrente já está pronta: “desencanto com a democracia”, “cansaço da polarização”. Desencantado, contudo, não pega fila. Quem está dentro da escola, com o documento na mão, e sai sem votar não desistiu da democracia. Foi impedido de exercê-la por falta de informação ou por informação errada, e essa diferença muda todo o sentido do número. O ministro Nunes Marques declarou que a eleição “transcorreu dentro da normalidade” e comemorou a queda de 86% nas denúncias de desinformação (de 18.487 para 2.606). Faz sentido que tenham caído. Desinformação de massa gera denúncia porque todo mundo vê. A micro desinformação segmentada não gera denúncia nenhuma, porque quem a recebe não sabe que recebeu.
A estratégia que suspeito ter operado se apoia em três coisas. A primeira é que o voto brasileiro ficou mapeável. A diferença de classe e de região entre o eleitor de Lula e o eleitor dos Bolsonaro é tão grande que se sabe, bairro a bairro e seção a seção, onde mora cada voto, e sobre voto mapeável se constrói campanha de desinformação com endereço. O caso do Rio é o exemplo da semana: em Nova Iguaçu circularam santinhos com a foto de Eduardo Paes e o número 22, que é o do adversário, e panfletos que colavam em Paes o 13 de Lula, quando o número dele era 55. Segundo a ação que a campanha apresentou à 188ª Zona Eleitoral, cerca de 204 mil eleitores digitaram 13 para governador e tiveram o voto anulado. Isso é algo como 2,3% dos votos válidos do estado, numa eleição em que Douglas Ruas ficou com 49,27% e Paes com 42,76%. Quem imprimiu e quem mandou distribuir a Justiça Eleitoral ainda vai dizer (a campanha de Ruas também se declara prejudicada); o que já se pode dizer é que papel com número errado, entregue no bairro certo, tira voto. A segunda coisa é a realocação de seções. Só no Rio mais de 70 locais de votação mudaram de endereço, afetando uns 202 mil eleitores, por “motivos de segurança”. No Rio Grande do Sul foram 203.349 eleitores em 746 seções de 192 municípios, e na Paraíba 868 das 10.845 seções. Todos avisados pelo e-Título, vejam só, que é justamente o que o eleitor não letrado digitalmente não abre. Não sei se alguém estudou estatisticamente onde mexer para deslocar dois ou três por cento do eleitorado das suas seções. Desconfio que sim, e a desconfiança se testa com dado. A terceira é a mais simples. Vi, no domingo, grupos de 6 a 15 eleitores evangélicos sendo conduzidos às suas seções, com colinha na mão e alguém cuidando de cada um, numa eleição de seis votos e 19 dígitos. Aquilo é colher voto, com método e com carinho. Na esquerda ninguém fez esse trabalho.
Há uma objeção boa e eu mesmo a faço: a abstenção quase não mudou de 2022 (20,95%) para agora. Acontece que o total pode ficar parado enquanto a composição muda. Se de um lado se leva o eleitor pela mão e do outro se espalha endereço errado, o número final fica igual e o resultado não. E 2022 não serve de linha de base limpa, porque naquela eleição a mesma lógica já estava em campo, e com a versão física dela, as blitz da PRF no Nordeste que levaram o seu diretor à cadeia.
A conta
Faço a conta com as ordens de grandeza do país: perto de 470 mil seções, uns 330 eleitores em cada uma, 119 milhões de votos válidos para presidente. Tirar um eleitor da urna só muda a diferença entre dois candidatos se esse eleitor não for sorteado. Se de cada dez impedidos sete votariam no mesmo candidato, cada dez impedimentos tiram quatro votos da margem. Com essa pontaria, que é modesta para quem tem o mapa, bastam 12 eleitores impedidos por seção, em média, para mover 2 pontos percentuais do resultado nacional, e 25 por seção para mover 4 pontos. Com pontaria perfeita seriam 5 e 10. Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno com 47,03% e Lula com 45,16%: a diferença inteira é de 1,87 ponto, uns 2,2 milhões de votos.
Agora comparem 12 por seção com 150 justificativas numa seção só. O relato está uma ordem de grandeza acima do necessário. É claro que aquela seção pode ser um ponto fora da curva, e parte das justificativas é de gente em trânsito, fora do seu município, que não tem nada a ver com esta história. Por isso é hipótese. Só que é uma hipótese em que a conta fecha com folga.
Fecha também para as pesquisas. A maioria dos institutos dava Lula numericamente à frente e Flávio terminou na frente; em 2022 previam de 11 a 14 pontos de vantagem para Lula e a urna deu 5,2. O erro tem sempre o mesmo sinal, e erro com sinal fixo é viés. A pesquisa mede a vontade de votar. Ninguém mede a capacidade de votar, que depende de letramento político, de letramento digital e, se eu estiver certo, de não ter sido alvo de ninguém no caminho. Basta que os 33 milhões de abstentos se inclinem 55 a 45 para um lado e a pesquisa feita no eleitorado inteiro já erra 2 pontos de margem. Com 60 a 40, erra 4.
O que precisa ser testado
Essa última conta é também a principal adversária da minha hipótese, e convém dizê-lo. A abstenção brasileira sempre foi maior entre os mais pobres e os menos escolarizados, e isso sozinho – sem campanha, sem santinho falso, sem ninguém planejando nada – produziria parte do efeito. O que distingue a desigualdade de sempre de uma operação é a mudança: onde a abstenção cresceu, em quem, e se cresceu mais onde se mexeu no endereço da seção. Proponho quatro comparações mínimas, todas com dados públicos do TSE por seção (2022 e 2026), medindo sempre a variação da abstenção entre as duas eleições, as justificativas e os votos anulados em número de partido sem candidato, onde o dado existir.
Vinte e cinco seções é pouco, eu sei. Serve para mostrar o desenho e para qualquer pessoa refazer a conta em casa; o sorteio precisa ser repetido mil vezes e depois conferido no universo inteiro das seções, que o TSE publica. O quarto cenário é o que decide. Pobreza e região existiam em 2022; o endereço novo da seção, não. Se a abstenção subiu por igual nas seções mexidas e nas que ficaram quietas, a minha hipótese cai e sobra a desigualdade de sempre (que já seria motivo bastante para a esquerda se organizar). Se subiu mais nas mexidas, e se as mexidas estão onde Lula tinha mais voto, então alguém vai ter que explicar o critério.
O segundo turno é no dia 25 e não dá para esperar artigo com parecer. Que o TSE publique já os dados por seção e a lista completa das seções realocadas, com data e motivo de cada uma. Que os TREs avisem o eleitor por carta, por rádio e por agente de saúde, e não só por aplicativo. E que os partidos, os sindicatos e os movimentos façam nas próximas semanas o que as igrejas fizeram no domingo: saber onde cada um vota, levar pela mão, entregar o número certo. A urna continua segura. Eleição se perde nas pontas.
Referências
Agência Brasil. Eleições: abstenção cresce e soma 33 milhões de brasileiros. Out. 2026.
Agência Senado. TSE destaca normalidade no 1º turno e redução das denúncias de desinformação. 4 out. 2026.
Brasil 247. Paes aciona Justiça contra panfletos com números falsos após 204 mil votos no 13 serem anulados no Rio. Out. 2026.
Brasil 247. Eduardo Paes aciona TRE após distribuição de santinhos com o número errado. 4 out. 2026.
Tribuna do Sertão. Eleições 2026: por que as filas para votação estão demorando tanto? 4 out. 2026.
Agora RS. Mais de 203 mil eleitores têm seção transferida no RS. 2026.
TRE-PB. 868 seções eleitorais sofreram alteração no local de votação na Paraíba. Set. 2026.
Gazeta do Povo. Resultados das urnas ampliam pressão sobre pesquisas eleitorais. Out. 2026.
Luiz Fernando Horta é historiador. Formou-se na UFRGS e fez mestrado e doutorado em História das Relações Internacionais na UnB; é pós-doutor pela Josef Korbel School of International Affairs, da Universidade de Denver, onde foi bolsista Fulbright. É autor de Revolução Russa: o povo pede passagem (Alameda, 2022), de Fascismo e Neofascismo: De Hitler e Mussolini a Trump e Bolsonaro (Alameda, no prelo) e de A transformação digital: fluxos, código e soberania (no prelo, 2026).


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