Acadêmicos e artistas denunciam no Le Monde tentativa dos EUA de interferir nas eleições brasileiras
247 – Um coletivo de acadêmicos, artistas e representantes de associações e entidades da sociedade civil assina um artigo de opinião publicado nesta quarta-feira (30) no jornal francês Le Monde, no qual alerta a opinião pública internacional para o avanço da extrema-direita na América Latina e para os graves riscos que ameaçam as eleições no Brasil. Sob o título “No Brasil, os Estados Unidos buscam influenciar a eleição presidencial, com a cumplicidade de um dos candidatos, Flavio Bolsonaro”, o manifesto afirma expressamente que “nos dias 4 e 25 de outubro, o Brasil votará para eleger seu próximo presidente” e que essa votação “não decidirá apenas um nome para chefiar o Estado: decidirá se a maior democracia da América Latina continuará sendo uma democracia”.
Entre os signatários de prestígio internacional figuram os Prêmios Nobel de Economia Philippe Aghion e Joseph E. Stiglitz (professor da Universidade de Columbia), o economista Thomas Piketty, o artista brasileiro Chico Buarque, o ex-jogador de futebol e presidente da associação Gol de Letra, Raí, e a diretora de teatro Ariane Mnouchkine. Subscrevem também o documento Erika Campelo, secretária-geral da associação Autres Brésils; Gabriel Feltran, diretor de pesquisa do CNRS no Centro de Estudos Europeus e de Política Comparada; Nina Santos, professora e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital; e Youlie Yamamoto, porta-voz da Attac França.
No manifesto, o grupo faz um resgate detalhado do recente histórico político brasileiro para demonstrar como as instituições e a sociedade civil têm sido submetidas a um desgaste contínuo. Os autores relembram que, desde a chegada de Jair Bolsonaro (PL) ao poder, em 2018, “o país sobreviveu a um presidente que desprezou abertamente suas instituições, a uma pandemia [de Covid-19] mal gerida — ao custo de centenas de milhares de vidas — e, posteriormente, a uma tentativa de golpe de Estado após sua derrota eleitoral, em 2022”. O texto destaca que Jair Bolsonaro acabou condenado a mais de 27 anos de prisão em decorrência dessa tentativa de ruptura institucional.
A publicação descreve ainda as graves violações de direitos humanos e ambientais cometidas ao longo daquele período. Segundo o coletivo, entre 2019 e 2022, o governo promoveu “ataques sistemáticos contra movimentos negros e indígenas, mulheres e pessoas LGBTQI+”. Os signatários denunciam que “logo nas primeiras horas de seu mandato, a demarcação de terras indígenas foi paralisada, a Amazônia registrou desmatamento recorde e os ataques contra pessoas LGBTQI+ se multiplicaram”. Além disso, ressaltam que “a violência contra as mulheres — incluindo feminicídios — e as agressões a defensores do meio ambiente atingiram níveis alarmantes, tornando o Brasil um dos países mais letais do mundo para esses grupos”.
Com a condenação e a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, o manifesto aponta que o ex-presidente, mesmo cumprindo pena de prisão, indicou seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL), para dar sequência à sua plataforma. O grupo adverte expressamente que a candidatura de Flávio “não é apenas mais uma: representa a continuidade declarada de um projeto cujo histórico em matéria de direitos humanos e ataques à democracia é documentado e inequívoco”.
O programa econômico do candidato da extrema-direita é apontado no texto como outro elemento de severo retrocesso social. O projeto ultraliberal, apoiado em austeridade fiscal, redução do papel do Estado, privatização de empresas públicas e diminuição da carga tributária, “ameaça deteriorar ainda mais o padrão de vida das classes populares e médias”. Conforme o documento, “ao reduzir a capacidade de investimento público e as políticas de redistribuição, o projeto corre o risco de agravar desigualdades já consideráveis e de aumentar a pobreza, atingindo, em primeiro lugar, os segmentos mais vulneráveis da população”. Essa orientação, segundo o texto, contraria frontalmente as iniciativas do próprio Brasil durante sua presidência no G20 em 2024, quando defendeu a tributação mínima sobre super-ricos para combater distorções em que estes pagam proporcionalmente menos impostos que os demais cidadãos.
A tribuna faz um alerta minucioso sobre a estratégia pré-eleitoral empregada para colocar em dúvida a legitimidade do pleito. O coletivo registra que, diante de uma plateia de diplomatas estrangeiros, Flávio Bolsonaro lançou dúvidas sobre o sistema eleitoral antes da votação, embora tenha alegado mais tarde que nunca questionou sua integridade. Para os signatários, essa sequência não é acidental: “não se trata de deslizes isolados e sim da preparação metódica de uma disputa judicial eleitoral, independentemente de vitória ou derrota”. A intenção é que, “ao incutir, antecipadamente, a suspeita sobre a legitimidade do pleito, essa estratégia prepara os ânimos para a contestação de um eventual resultado desfavorável”, fragilizando a confiança nas instituições guardiãs da democracia antes mesmo da ida dos eleitores às urnas.
O ponto central da denúncia reside na escala inédita de interferência vinda do exterior. O artigo destaca que o governo do presidente norte-americano Donald Trump aplicou ao Brasil tarifas alfandegárias de até 25%, “apresentadas explicitamente como uma resposta ao processo contra Jair Bolsonaro”. Paralelamente, o próprio candidato Flávio Bolsonaro viajou a Washington no dia 28 de maio para se reunir com Donald Trump, o senador Marco Rubio e o vice-presidente americano, J. D. Vance, oportunidade em que chegou a pedir publicamente uma supervisão internacional das eleições brasileiras.
Diante desses episódios, o texto denuncia que “uma potência estrangeira busca abertamente influenciar o resultado de uma eleição soberana, com a cumplicidade ativa de um dos candidatos”. O grupo adverte que esse movimento não ocorre isoladamente, mas faz parte de uma ofensiva reacionária em âmbito continental que já alcançou triunfos eleitorais na Argentina, no Chile, no Peru, na Colômbia e nos Estados Unidos. Essa onda, impulsionada por Washington, busca estabelecer uma hegemonia que ameaça enfraquecer a democracia, a justiça social e os direitos humanos em toda a região.
O coletivo enfatiza o risco histórico para a memória nacional, lembrando que o Brasil enfrentou uma ditadura militar de 1964 até 1985 e que “a geração que a combateu ainda está viva, e seus filhos e netos não querem reviver essa história”. Contudo, salientam que “um país não defende sozinho suas instituições diante de uma pressão internacional dessa magnitude”.
Na conclusão do manifesto, as personalidades e organizações fazem um apelo direto à comunidade global, convocando “a mídia, as lideranças políticas, as instituições europeias e a sociedade civil francesa a acompanhar esse pleito com toda a vigilância, a rejeitar qualquer interferência estrangeira e a apoiar sem ambiguidades as instituições, a sociedade civil e os movimentos sociais brasileiros em sua luta pela democracia e pelos direitos humanos”.



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