Estudo revela quadro preocupante de sofrimento psíquico na Polícia Federal
247 – Quadros alarmantes de tensão e distúrbios do sono atingem quase metade dos servidores da Polícia Federal que atuam na Superintendência Regional em Curitiba. Um mapeamento conduzido pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (UFPR) expõe os graves impactos psicossociais que a rotina institucional causa na saúde mental dos agentes, informa a CNN Brasil.
Conforme a investigação, 47,26% dos profissionais escutados relataram dificuldades para dormir, enquanto 43,15% vivenciam um estado diário de nervosismo e estresse. O dado mais dramático indica que seis integrantes do órgão admitiram ideação suicida. O levantamento também revelou discrepâncias de gênero: as mulheres enfrentam níveis sensivelmente maiores de desmotivação e desgaste psíquico. Essa vulnerabilidade ampliada decorre do acúmulo da dupla jornada associado à convivência em um espaço corporativo historicamente dominado pela presença masculina.
A despeito da pressão ininterrupta, dos horários imprevisíveis e do perigo constante que caracterizam o cotidiano da corporação, o bem-estar psicológico dos policiais federais é raramente pesquisado quando comparado ao das polícias civis e militares. A análise foi elaborada pela pesquisadora Jenira Priscila dos Anjos na dissertação de mestrado orientada por Fernanda Moura D’Almeida Miranda — docente responsável pelo Observatório Nacional de Saúde Mental e Trabalho. Os dados serão apresentados durante a 17ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão da instituição acadêmica.
Para a coleta das informações, executada entre outubro e novembro de 2025, foram aplicados questionários físicos autoaplicáveis. Dos 320 formulários distribuídos ao pessoal elegível, 146 retornaram preenchidos de forma voluntária. O perfil predominante dos entrevistados consiste em homens, brancos, casados, com média de 48 anos e mínimo de 18 anos de serviços prestados à instituição.
Do ponto de vista operacional, 68,49% realizavam tarefas mistas (externas e de escritório) e 30,82% atuavam estritamente no meio administrativo, sem registros de profissionais dedicados exclusivamente ao trabalho de rua. A maioria cumpria carga semanal de 40 horas sem expediente noturno fixo, salvo exceções. A qualificação do grupo é elevada: mais de 95% possuem ensino superior ou pós-graduação em áreas como Direito, Engenharia e Ciências Contábeis.
A Polícia Federal conta com equipe própria de médicos, assistentes sociais e psicólogos, além de oferecer o Programa Rosa dos Ventos — iniciativa de suporte psicológico e psiquiátrico 24 horas, confidencial, direcionada à mentoria de carreira e prevenção ao suicídio. Ainda assim, os índices de adoecimento emergem com força. A pesquisa identificou que o descontentamento com o ambiente institucional cresce na razão direta do tempo de serviço do servidor. A autora ressalta, no entanto, que o estudo aponta correlações, sem cravar uma causalidade direta entre o tempo na carreira e a deterioração da saúde.
Por se tratar de um estudo transversal focado na realidade de Curitiba, os resultados não podem ser estendidos automaticamente a todo o contingente nacional da corporação. Não obstante, os achados embasam recomendações diretas para a melhoria do trabalho.
As autoras sugerem o fortalecimento do Programa Rosa dos Ventos via campanhas de conscientização que combatam estigmas culturais sobre o apoio psicológico, assegurando dotação orçamentária e capilaridade do atendimento em todas as unidades do país. Defendem também a implantação de canais oficiais de escuta e denúncia para mitigar fatores estressantes no cotidiano laboral.
Depoimentos colhidos no estudo evidenciaram ainda denúncias de assédio moral e o temor constante de perseguições internas — razão pela qual a coleta de dados precisou ser feita via papel, afastando o risco de rastreamento digital. Para o público feminino, propõe-se a implementação de jornadas flexíveis a fim de suavizar o peso da dupla jornada, além do estabelecimento de protocolos corporativos para detecção precoce de quadros de sofrimento mental.



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