Especialistas cobram fortalecimento do SUS frente ao avanço do vício em apostas e ao risco do mercado clandestino
247 – O avanço das casas de apostas virtuais, conhecidas como “bets”, desde a sua legalização no Brasil em 2018, vem provocando reflexos graves na saúde pública com o aumento expressivo no número de pessoas acometidas pelo transtorno de jogo que procuram o Sistema Único de Saúde (SUS). Dados do Ministério da Saúde revelam que foram registrados 10,5 mil atendimentos até maio de 2025, o que representa um salto de 140%, sendo que a projeção da pasta indica que esse volume deve mais do que dobrar até o ano de 2028, informa o jornal O Globo.
Frente ao agravamento dessa crise de saúde pública, o governo federal decretou a proibição das plataformas de apostas por meio de medida provisória instituída na última sexta-feira (25). Embora especialistas avaliem que a limitação do acesso facilitado às casas de apostas ajude a proteger pacientes em tratamento e evite a formação de novos dependentes, existe uma grande preocupação com o risco iminente de migração desses apostadores para plataformas e bancas clandestinas. Esse fator, somado ao elevado contingente de atingidos que ainda não conseguem atendimento na rede pública, demanda uma resposta estruturada e ampliada por parte do SUS.
O tamanho do problema é estatisticamente expressivo. Segundo dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas no Brasil (Lenad), conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre os anos de 2023 e 2024, cerca de 10,9 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais apresentam um padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
O impacto socioeconômico e financeiro do transtorno também atinge índices alarmantes. Uma análise realizada pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estimou em R$ 30,6 bilhões por ano o custo total associado à saúde em decorrência do vício. O montante equivale a 11,3% de todo o orçamento do Ministério da Saúde aprovado para o ano de 2026, levando em consideração mortes adicionais por suicídio, redução drástica na qualidade de vida motivada por quadros graves de depressão e os custos de tratamentos médicos para a doença.
Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, professor aposentado da Unifesp, onde coordenou a Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, a medida de proibição das plataformas representa um passo importante, contudo não resolverá o problema de forma imediata ou isolada: “grande parte das pessoas com transtorno vão migrar para apostas clandestinas, então o problema persiste, só que o SUS não tem ainda uma estratégia com profissionais treinados, programas suficientes e bem organizados para lidar com essa complexidade. A rede de cuidados de saúde mental, de um modo geral, tem uma atuação limitada. Muitos não conseguem acesso nos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Nos grandes centros urbanos, há uma cobertura maior, mas ainda assim aquém do necessário”.
Em contrapartida, sob a perspectiva do acompanhamento do paciente individualmente, a barreira do banimento traz benefícios ao tratamento. Hermano Tavares, psiquiatra e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), ressalta a importância da restrição para a manutenção da abstinência: “a proibição, na perspectiva do paciente, é bastante positiva porque ele será alcançado. Quem estiver engajado no tratamento vai encontrar nisso uma barreira que não é perfeita, mas que ajuda na adesão à abstinência. Se vamos ter um impacto populacional significativo, ainda será necessário um acompanhamento para saber. Mas a ‘caixa de Pandora’ já foi aberta, então todo o esforço para lidar com esse problema precisa encontrar correspondência nas políticas de saúde pública, com investimento em prevenção e acesso a tratamento”.
Com o objetivo de enfrentar o aumento da demanda por acolhimento e assistência, o Ministério da Saúde lançou, em janeiro, o Guia de Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, com diretrizes voltadas para o atendimento e acompanhamento desse público na rede pública. O órgão governamental também disponibilizou um autoteste virtual para triagem, que contabilizou mais de 170 mil acessos, e expandiu expressivamente a oferta de teleatendimento, saltando de 600 atendimentos mensais em março para 100 mil em agosto.
Além das iniciativas no âmbito da saúde mental, as pastas da Saúde e da Fazenda criaram de forma conjunta uma ferramenta que possibilita o autobloqueio aos portais de apostas pelo próprio usuário. A funcionalidade já foi ativada por 1,3 milhão de pessoas no país, das quais 35% apontaram explicitamente a perda do controle sobre o ato de apostar como a razão principal para o bloqueio.
Contudo, para Laranjeira, que possui doutorado em Psiquiatria pela Universidade de Londres e atua como presidente da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), o conjunto de iniciativas ainda é insuficiente perante a gravidade e alcance do cenário: “sabíamos que isso se tornaria um grave problema de saúde, mas pouco foi feito. É um tratamento que requer acompanhamento psicológico de perto. O objetivo é que a pessoa readquira a capacidade de controle para não jogar. E envolve muito a família, as negociações da dívida. Ainda vamos ter um mercado paralelo, então vamos precisar de ações planejadas de longo prazo para conseguir de fato lidar com esse problema”.
Danos sociais e severidade do transtorno
O transtorno de jogo é devidamente reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um distúrbio caracterizado pelo desejo persistente e incontrolável de jogar, resultando em severos danos às esferas pessoal, familiar, profissional e financeira da vida do indivíduo. No contexto brasileiro, os atendimentos aos pacientes afetados concentram-se majoritariamente na faixa etária dos 20 aos 49 anos.
A severidade dos impactos atinge indicadores críticos de mortalidade. Um levantamento científico conduzido na Suécia com aproximadamente 2 mil indivíduos diagnosticados indicou que a chance de morte por suicídio entre pessoas com o transtorno é 15 vezes maior em comparação à população em geral. Outra pesquisa, realizada na Austrália, revelou que pelo menos 4,2% de todos os suicídios registrados no país apresentavam relação direta com o vício em jogos de azar. Estimativas apontam ainda que, para cada indivíduo operando em níveis de jogo de alto risco, em média seis outras pessoas ao seu redor — especialmente membros da própria família — sofrem impactos diretos.
Conforme as diretrizes da OMS, pessoas que passaram por acontecimentos com grande carga emocional — como processos de separação matrimonial, aposentadoria, lesões corporais severas ou o falecimento de entes queridos — apresentam vulnerabilidade ampliada ao vício. Condições socioeconômicas adversas, tais como a pobreza e a exposição a situações de discriminação, também estão estatisticamente associadas a um risco maior.
Durante o pronunciamento oficial de anúncio da proibição das apostas, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha (PT), enfatizou o lado humano por trás das estatísticas oficiais do governo: “os dados expressam o tamanho do problema, mas certamente não conseguem traduzir todo o sofrimento que aparece quando ouvimos os relatos de pacientes, profissionais de saúde e familiares”.



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