Se meu pai acordasse hoje, vinte anos depois
O Brasil mudou muito desde a morte de João Pinheiro Neto. Mas algumas das questões que marcaram sua vida continuam esperando respostas.
Meu pai morreu em 2006.
Às vésperas de mais uma eleição presidencial, às vezes me faço uma pergunta: o que João Pinheiro Neto pensaria se acordasse hoje, vinte anos depois, e olhasse para o Brasil?
Encontraria Lula, que conheceu. E encontraria Flávio Bolsonaro, que nunca conheceu, disputando a Presidência.
Mas acredito que sua maior surpresa não seriam os candidatos.
Seria descobrir que, mais de sessenta anos depois de 1964, o Brasil continua discutindo muitas das questões estruturais que o acompanharam durante praticamente toda a vida.
Para quem não conheceu sua história, vale uma breve apresentação.
João Pinheiro Neto nasceu em 1928. Neto de João Pinheiro, ex-presidente de Minas Gerais, formou-se em Direito e dedicou grande parte de sua vida às questões sociais e ao desenvolvimento brasileiro.
Foi ministro do Trabalho de João Goulart e, depois, presidente da SUPRA, a Superintendência da Política Agrária, justamente quando a reforma agrária se transformava em uma das questões centrais das Reformas de Base.
Com o golpe de 1964, foi preso. Ficou incomunicável por cerca de dois meses e permaneceu aproximadamente seis meses na Fortaleza de Santa Cruz. Respondeu a inquéritos militares, teve seus direitos políticos cassados e, defendido por Sobral Pinto, acabou absolvido pela Justiça.
Jornalista, escritor e pesquisador da Fundação Getulio Vargas, passou o restante da vida refletindo sobre o Brasil e sobre aquele período. Em 1993, publicou “Jango, um depoimento pessoal”.
E o que esse homem encontraria se acordasse no Brasil de 2026?
Comecemos pela terra.
A reforma agrária, uma das questões centrais do governo Jango, praticamente desapareceu do grande debate político nacional.
Enquanto isso, a concentração permanece extraordinária. Segundo o último Censo Agropecuário, apenas 1% dos estabelecimentos rurais, aqueles com mil hectares ou mais, concentrava 47,6% de toda a área dos estabelecimentos.
O velho latifúndio modernizou-se.
Ganhou tecnologia, produtividade, enorme importância econômica e passou a ser chamado de agronegócio.
Mas a velha pergunta permanece:
Quem tem a terra no Brasil?
Depois, meu pai provavelmente olharia para os bancos.
Encontraria um sistema financeiro infinitamente maior e mais sofisticado do que aquele que conheceu.
E encontraria um país que continua convivendo com juros extremamente elevados.
Talvez perguntasse como uma nação que precisa desesperadamente investir, crescer, produzir e reduzir suas desigualdades consegue transferir parcela tão expressiva de sua riqueza para remunerar o dinheiro.
Depois, perguntaria pela educação.
Aqui seria injusto dizer que nada mudou.
O analfabetismo caiu. O acesso à escola aumentou. As universidades se expandiram. A escola pública em tempo integral avançou.
Mas milhões de brasileiros ainda não sabem ler nem escrever, e apenas uma parcela dos estudantes da rede pública passa o dia inteiro na escola.
Meu pai provavelmente reconheceria os avanços.
Mas talvez perguntasse:
Por que demoramos tanto?
E então viria a maior perplexidade.
Ele morreu acreditando que o golpe de 1964 pertencia definitivamente ao passado.
Acordaria e descobriria que o Brasil viveu novamente uma tentativa de ruptura da ordem democrática e que seus responsáveis foram julgados pelo Supremo Tribunal Federal.
Talvez permanecesse alguns segundos em silêncio.
Porque ele conhecia o preço de uma ruptura institucional.
Não pelos livros.
Conhecia pela prisão.
Pela cassação.
Pela perseguição.
Pelos meses em que minha mãe ficou em casa, com três filhos pequenos, sem saber quando o marido voltaria.
E ainda descobriria que, em plena eleição de 2026, os Estados Unidos voltaram a aparecer no debate político brasileiro, em meio a acusações e advertências sobre interferência externa.
Seria impossível para ele não se lembrar de 1964.
É evidente que o Brasil mudou nesses sessenta anos.
Mudou muito.
Mas talvez a grande decepção de João Pinheiro Neto fosse perceber que algumas das estruturas que sua geração tentou reformar não desapareceram.
Em certos aspectos, tornaram-se ainda mais poderosas.
A propriedade da terra continua fortemente concentrada.
O sistema financeiro tornou-se gigantesco.
Os juros continuam no centro da discussão nacional.
A desigualdade permanece.
A educação ainda espera a transformação que tantas gerações prometeram.
E até a democracia voltou a ser posta à prova.
Talvez meu pai concluísse que o problema brasileiro nunca foi a falta de diagnóstico.
Nós conhecemos nossos problemas há décadas.
O que faltou foi força e disposição política para enfrentar interesses suficientemente poderosos para impedir mudanças estruturais.
E então chegaria a pergunta inevitável:
Em quem João Pinheiro Neto votaria em 2026?
Em Lula?
Em Flávio Bolsonaro?
Não sei.
Não quero colocar na boca de meu pai uma resposta que ele não pode mais dar.
Mas, depois de uma vida inteira conhecendo suas convicções, suas lutas e o preço que pagou por elas, de uma coisa eu tenho certeza:
Sei em quem ele não votaria.



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