Um Brasil tri-oceânico com trilhas de paz, cooperação, prosperidade e conhecimento
“Trilhas” podem ser escolha de narrativa de política externa favorável ao Brasil, sobretudo se a intenção for construir uma linguagem diplomática própria, diferente do discurso de grandes projetos de infraestrutura e projeção geopolítica. Seria, então, feita a distinção entre “rota”, que é mais física e geoeconômica, e “trilha”, que pode ser mais humana, gradual e multidimensional.
Peço vênia, a propósito, para refinar reflexão sobre cenário futuro, publicada em 4 de fevereiro passado no LinkedIn, partindo dos interesses que nos são mais próximos. Recorrerei a experiências pessoais, vividas na África, Ásia e Índia, como diplomata brasileiro.
Teríamos, assim, que identificar como uma das condicionantes principais, para tal cenário futuro favorável, a capacitação, por exemplo, para negociação com a “rota” chinesa, que pretende se expandir pela América Latina e África, em nosso entorno mais próximo.
Seria conveniente, então, poder contar com uma “trilha” brasileira e uma “avenida” africana – para negociar em patamar mais próximo daquela iniciativa da China e de outros projetos de integração regionais, desde que sejam correta e prontamente identificadas nossas potencialidades nacionais e do continente ao qual pertencemos, bem como as vantagens competitivas das áreas continentais que nos são vizinhas ou parceiras em potencial.
Mais adiante, neste exercício de reflexão, proporei que se pense em projeto nacional brasileiro que coloque o Brasil como um ponto de convergência entre grandes espaços do Sul Global. Isto é, poderia haver uma estratégia brasileira muito mais ampla, que abrangeria o Atlântico Sul, a América do Sul, a África, a ASEAN e a Ásia, numa imensa trilha de cooperação.
Nesse modelo, o Brasil não precisaria competir com China, Índia ou outras potências pela liderança do Sul Global. Poderia exercer uma função diferente, como conector entre regiões.
Cabe, no entanto, iniciar a proposta acima pelo exame do que nos é imediato e nos define para chegar à inserção estratégica regional e mundial de nosso País.
Nesse processo, é indiscutível que uma política brasileira para o Atlântico Sul seja prioritária. Para além da grande quantidade e densidade de iniciativas multilaterais e bilaterais promovidas, ao longo de décadas, no sentido de consolidar uma região de paz, cooperação e desenvolvimento sustentável, é preciso considerar ainda a importância desta área marítima para a formação de nossa própria identidade nacional.
Percurso por onde passa cerca de 95% de nosso comércio exterior, fonte de grandes riquezas minerais e biológicas, as potencialidades do Atlântico Sul ainda não são plenamente aproveitadas pela sociedade brasileira.
Nesse sentido, como maior país da região, tanto em termos populacionais e geográficos quanto econômicos, compete ao Brasil assumir crescentes responsabilidades na segurança e gestão desse espaço e na concertação entre os países africanos e sul-americanos, de modo a conciliar interesses nacionais distintos e manter a região longe de tensões geopolíticas extrarregionais.
Este seria um dos fatores que contribuiriam para um projeto nacional brasileiro e a identificação de novas formas de cooperação que viessem a identificar soluções comuns para problemas compartilhados através do Atlântico Sul.
Verifica-se, a respeito, que a emergência de uma Nova África está presente tanto na história, na geografia e na política do continente africano contemporâneo como também em proposta da evolução de processo de integração com a margem sul-americana do Atlântico Sul. Entretanto, ambas as regiões ainda estão marcadas pela influência do seu passado, com seus distintos itinerários já percorridos, e da visualização de suas trajetórias estratégicas previstas para o século XXI, que ainda não estão em sintonia.
Retornando ao que diz respeito à proposta de um enunciado de “prosperidade através do Atlântico”, cabe a sugestão de que haja reflexão também sobre cenário futuro que valorize um Brasil “tri-oceânico”, levando em conta nossa influência em ambas as margens do Atlântico e a consolidação do acesso ao Pacífico e ao Índico.
Assinalo que, como diplomata, tive o privilégio de desempenhar cinco missões na África. As três primeiras, permanentes, sucessivamente em Libreville, Gabão, e Maputo, Moçambique, entre 1976 e 1979, e Pretória, na África do Sul, como encarregado de negócios (chefe interino) até 1982, durante a vigência do apartheid. As duas últimas, temporárias, em Uagadugu, Burkina Faso, durante três meses, em 2013, e, por dois meses, no ano seguinte, em Cotonou, Benin.
Deste total de quase sete anos vividos em solo africano, trago, entre outras lembranças, a noção da importância de reviver o imaginário da consolidação de parceria entre a América do Sul e a África, que se aproximam pelo Oceano Atlântico. Este seria fator que contribuiria para um projeto nacional brasileiro e a identificação de novas formas de cooperação que viessem a identificar soluções comuns para problemas compartilhados.
A linguagem chinesa da “Belt and Road Initiative”, que é utilizada em projetos no entorno brasileiro, na África e na América do Sul e Central, trabalha fortemente com a ideia de rotas, corredores, conectividade e infraestrutura. “Rota” transmite direção, fluxo e ligação entre pontos.
“Trilha”, por outro lado, sugere um caminho a ser construído progressivamente. Nesse sentido, tem que haver exploração de novas oportunidades, aprendizagem, intercâmbio, diversidade de trajetórias, participação de diferentes atores e possibilidade de múltiplos caminhos para chegar a um objetivo.
Tal postura combina com a concepção brasileira de cooperação. Ao invés de propor a criação de “corredores Brasil–África–Ásia”, poderíamos sugerir “abrir trilhas de prosperidade entre povos, continentes e oceanos”.
É uma mudança aparentemente pequena, mas conceitualmente importante, na medida em que “trilha” seria conceito abrangente, enquanto “rota” sugere fluxos físicos.
Por exemplo, “Trilhas de Prosperidade” poderia adotar conceito geral a incluir: Trilhas do Atlântico — Brasil–África; dos Oceanos — Atlântico–Índico–Indo-Pacífico; do Conhecimento — universidades, ciência e IA; da Inovação — tecnologia e empreendedorismo; da Energia — biocombustíveis, hidrogênio e energias renováveis; dos Alimentos — agricultura e segurança alimentar; da Cultura — música, cinema, literatura e patrimônio; da Juventude — intercâmbio e formação; da Economia Azul — oceanos, pesca, biodiversidade e portos; e Digitais — cabos, dados, conectividade e IA.
“Trilhas” também têm uma vantagem simbólica. Existe uma diferença importante entre construir uma rota e abrir uma trilha.
Uma rota normalmente pressupõe que já sabemos onde queremos chegar e como chegar lá. Uma trilha permite descobrir o caminho enquanto caminhamos. Isso é bastante adequado para relações entre Brasil, África e Ásia, porque não estaríamos propondo uma integração rígida como a União Europeia, nem uma aliança militar, nem um bloco econômico. Estamos propondo aproximação gradual e voluntária.
E isso pode ser uma característica da diplomacia brasileira, no sentido de não impor caminhos, mas abrir trilhas. “Trilha” possui uma ressonância particularmente interessante no imaginário brasileiro. A palavra remete a descobertas e novos encontros.
Ela pode dialogar com a própria experiência histórica brasileira de ocupação e conhecimento de um território continental, embora seja importante evitar qualquer associação com a lógica histórica de “desbravamento” ou conquista do interior do Brasil, por meios violentos e condenáveis.
Trilhas que aproximam, não caminhos que dominam. Isso poderia ser uma excelente diferença conceitual em relação a projetos de infraestrutura associados à competição entre grandes potências. “Trilhas de Prosperidade” é particularmente forte.
Poder-se-ia, então, ter o conceito de Prosperidade através do Atlântico, como primeira grande trilha. E prosperidade através dos Oceanos, como segunda grande trilha. Então, teríamos algo como projeto “Trilhas de Prosperidade do Atlântico Sul”, que incluiria Brasil e África, e “Trilha Oceanos Atlântico, Índico, Indo-Pacífico”.
É uma forma interessante de pensar o Brasil como conector entre povos, continentes e civilizações, privilegiando cooperação em vez de competição.
Poderíamos construir uma sequência: Trilhas de Paz, de Cooperação, de Conhecimento e de Prosperidade. Isso permitiria conectar diretamente com a renovação conceitual da ZOPACAS[1] (Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul).
Tal proposta poderia seguir a lógica de que a ZOPACAS conduziria a Paz, Cooperação e Prosperidade e sua agenda prática poderia ser implementada por meio de Trilhas de Prosperidade do Atlântico Sul. Depois, em uma dimensão mais ampla, seriam pensadas Trilhas de Prosperidade através dos Oceanos.
Conforme antecipado no início do texto, minha tese é a de que, talvez, se identifique aí uma posição de força nossa para negociação com a “rota” chinesa, que pretende se expandir pela América Latina e África. Contaríamos, então, com uma “trilha” brasileira e uma “avenida” africana – para podermos negociar a partir de patamar mais próximo daquela iniciativa da China.
A “avenida africana” deve ser tratada não como uma sequência sobre a África isoladamente, mas como um eixo de circulação, encontros e trocas, mostrando como o continente se relaciona historicamente com o Brasil, a Ásia e o restante do mundo. Isto é, a África como ponto de partida, não como periferia.
A análise do continente deve começar por sua diversidade histórica e cultural: reinos, cidades, rotas comerciais, sistemas de conhecimento, línguas e religiões. A ideia é romper com a representação da África apenas como destinatária de influências externas.
A interlocução com o continente africano deve explorar as conexões pelo oceano Índico: comércio, migrações, circulação de pessoas, mercadorias, tecnologias, religiões e ideias entre a costa oriental africana, a Península Arábica, Índia, Sudeste Asiático e China. Aqui, a África aparece como participante ativa de redes afro-asiáticas muito anteriores à globalização moderna.
Entraria então a relação com o Brasil, onde predomina a lembrança horrível do tráfico transatlântico de africanos escravizados – o pior genocídio jamais efetuado na história da humanidade –, mas também vigoram saberes, línguas, religiosidades, culinárias, tecnologias, música, formas de organização social e resistência trazidos e recriados no Brasil.
Em vez de apresentar a influência como uma via de mão única, mostrar o processo de recriação e transformação, pois o que foi trazido da África não permaneceu “africano” de maneira estática, pois encontrou povos indígenas, europeus e outros grupos e produziu novas culturas brasileiras.
Esse seria o trecho mais interessante da trilha. Mostrar que Brasil, África e Ásia não precisam ser apresentados apenas em relações bilaterais. Há fenômenos que atravessam os três espaços por meio do comércio marítimo, diásporas, religiões, alimentação, música, migrações, colonialismo, resistência e circulação cultural. A África não é apenas origem de fluxos históricos, continua produzindo e negociando sentidos com o mundo.
Assim, África, Brasil e Ásia aparecem como pontos de convergência de uma rede, e não como centro e periferia.
No que diz respeito a outra região prioritária para a política externa brasileira, é notável a evolução, na Ásia-Pacífico, do esforço para o diálogo e entendimento entre nações com origens culturais distintas.
Nessa perspectiva, caberia a reflexão sobre as estratégias de convivência pacífica entre os países do Sudeste Asiático, bem como sobre o processo de abertura chinesa que resultou na emergência de mecanismos de governança e de interação civilizatória, com ampla repercussão na dinâmica do desenvolvimento de seu entorno imediato.
Parece oportuno, portanto, exercício de reflexão sobre a visão chinesa e dos países situados ao sul de suas fronteiras, quanto à integração de fatores culturais, políticos, econômicos e de segurança, que veio a constituir projetos de nações que ora parecem consolidar-se em harmonia.
Trata-se, principalmente, de buscar identificar a visão estratégica chinesa de um futuro nacional, como potência emergente, que não seja imposto por estruturas de poder geradas no Ocidente ou por agenda de preocupações externas, mas, sim, ditado por valores internos.
Esse projeto nacional estava claramente presente na afirmação de Mao Zedong, quando, em primeiro de outubro de 1949, anunciou que “o povo chinês levantou-se” – referindo-se, portanto, a proposta de consolidação nacional mais abrangente do que a inserção da República Popular que se instalava na China em cenário internacional, permeado por referenciais estrangeiros à civilização chinesa. Essas palavras foram seguidas por exortação para que se “sacudisse o mundo”, após os últimos cem anos de dominação estrangeira.
Tal proposta obteve sucesso inicial com a consolidação de Hong Kong e Macau no sistema produtivo da RPC e futura reintegração de Taiwan. A consolidação da fronteira econômica chinesa com o Sudeste Asiático foi facilitada pela existência, ao sul da China, de uma rede de indivíduos com origem étnica comum, chamados de “chineses de ultramar”, que têm como referência uma mesma identidade cultural (vide textos que publiquei em 30 de agosto e 13 de setembro, no LinkedIn, sobre as particularidades das relações da China com Cingapura e Malásia).
O cenário futuro desejável seria uma etapa final do processo, cuja base de sustentação contaria com a herança político-cultural chinesa. Isto porque, até meados do século XIX, quando se iniciou a interferência europeia no Extremo Oriente, a China desempenhou papel político dominante, bem como foi o centro radiante de civilização no Sudeste Asiático, em virtude de seu desenvolvimento cultural e sofisticada capacidade de governança.
Por isso, os países do Sudeste Asiático eram mais ou menos atraídos à esfera de influência chinesa, em busca de fonte de inspiração e legitimidade. O império chinês reciprocava, atribuindo vínculos especiais a seus vizinhos austrais.
Peço vênia para registrar que servi, como diplomata, durante 21 anos na área de influência cultural da China. Entre 1982 e 1985, trabalhei na Embaixada do Brasil em Pequim. No período de 1986 a 1995, fui diplomata nas Embaixadas em Kuala Lumpur, Cingapura e Manila. Exerci as funções de Diretor do Escritório Econômico e Comercial em Taipé, entre 1998 e 2006.
Em seguida, fui designado o primeiro Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai, Índia, de 2006 a 2009. Na sequência de minha carreira, fui nomeado Embaixador em Baku, no Azerbaijão, de 2010 a 2012, e Minsk, na Belarus, entre 2014 e 2019, quando me aposentei.
No reforço da reflexão sobre uma política externa que tenha em vista um projeto nacional brasileiro, seria preferível a adoção de providências imediatas que fortalecessem uma “estratégia de parceria”, com menos retórica e mais projetos, a partir de reflexão inicial e prioritária sobre o que já somos, rumo à prosperidade tanto de uma “trilha brasileira” quanto de uma “avenida africana”, para negociar com a “rota chinesa” e, quando necessário, seja com “tarifaços” ou outras imposições de potências estrangeiras.
Existe, então, potencial para haver uma evolução conceitual sobre a proposta da ZOPACAS. Isto é, buscaria passar de uma visão predominantemente de “Atlântico Sul como espaço a ser protegido” para a ideia de “Atlântico Sul como patrimônio comum capaz de gerar prosperidade compartilhada”.
Há, inclusive, uma janela institucional muito favorável nesse sentido. Em abril de 2026, o Brasil sediou a IX Reunião Ministerial da ZOPACAS, assumiu a presidência do mecanismo por três anos e os países membros adotaram a Estratégia de Cooperação do Rio de Janeiro, com áreas como segurança marítima, pesquisa oceanográfica, clima e biodiversidade.
Hoje, o Atlântico Sul não deve ser visto apenas como uma área entre a América do Sul e a África. Ele pode ser concebido como um espaço civilizacional, econômico, científico, ambiental e humano que conecta dois continentes.
Esta evolução conceitual permitiria uma formulação bastante poderosa: A paz protege o oceano, a cooperação conecta seus povos e a prosperidade dá sentido concreto à paz e à cooperação.
O conceito de “Prosperidade pelo Atlântico” viria a transformar o oceano de uma distância geográfica em uma infraestrutura de aproximação entre sociedades. Isso é coerente com a própria história da ZOPACAS, que originalmente contemplava cooperação para o desenvolvimento socioeconômico e posteriormente incorporou meio ambiente, recursos marinhos e governança regional.
Mas poderia existir algo conceitualmente novo: um Plano de Prosperidade do Atlântico Sul. Não baseado em assistência, mas em investimento, comércio, conhecimento e criação conjunta de valor. Isso é importante para evitar uma relação Brasil–África baseada simplesmente em “ajuda”. A lógica deveria ser “Brasil e África produzem prosperidade juntos”.
Essa mudança de linguagem diplomática é politicamente importante. Seria possível, a propósito, propor as áreas de cooperação, no contexto desta trilha. A da Economia Azul talvez seja a mais natural. O Atlântico Sul possui recursos pesqueiros, biodiversidade, energia, minerais, rotas marítimas, portos e enorme potencial científico. O objetivo seria criar uma economia azul compartilhada.
O Brasil, como se sabe, já possui um programa nacional voltado ao desenvolvimento sustentável da chamada Amazônia Azul, incluindo pesca, aquicultura, turismo comunitário, bioeconomia e infraestrutura. A ideia seria levar parte dessa experiência para uma dimensão atlântica e cooperativa.
A área de Segurança Alimentar, visto que Brasil e África possuem complementaridades extraordinárias. O Brasil conta com experiência em agricultura tropical e pesquisa agropecuária. Países africanos possuem enormes áreas agricultáveis, populações jovens e mercados em expansão.
No que diz respeito à área de Energia, o Atlântico Sul pode ser uma região estratégica para Brasil, Angola, Nigéria, África do Sul e outros países que possuem capacidades diferentes e complementares. A meta poderia ser transformar o Atlântico Sul em um laboratório mundial de transição energética tropical.
A área de Ciência, Tecnologia e IA poderia existir como uma Rede de Inteligência Artificial Brasil–África–Atlântico Sul, com centros de pesquisa brasileiros e africanos trabalhando em oceanografia, mudanças climáticas, agricultura, saúde, biodiversidade, logística, segurança marítima, tradução automática e preservação cultural.
Isso permitiria que a IA fosse utilizada não para aumentar a dependência tecnológica, mas para acelerar a autonomia dos países do Sul Global. E há uma dimensão cultural extraordinária nisso, pois haveria modelos de IA treinados com maior participação de português, espanhol e línguas africanas, além de conhecimentos indígenas e tradicionais.
A área cultural talvez seja o componente mais original. Brasil e África possuem uma conexão histórica profunda, mas essa conexão, conforme já lembrado, foi marcada também pela tragédia da escravidão e pelo colonialismo.
A prosperidade futura não deveria apagar essa história. Pelo contrário, deveria transformar memória histórica em cooperação cultural contemporânea. Poderíamos imaginar uma Trilha Cultural do Atlântico Sul envolvendo: música; cinema; literatura; gastronomia; moda; esportes; universidades; museus; patrimônio histórico; turismo cultural e intercâmbio de jovens.
A IA poderia funcionar como ponte linguística e cultural, que criaria algo que o comércio sozinho não produz, que é a identificação entre os povos.
Uma área de prosperidade humana, que cuidaria de uma dimensão essencial: a das pessoas.
Isto é, a ZOPACAS poderia criar programas de mobilidade para estudantes, pesquisadores, médicos, engenheiros, empreendedores, artistas, profissionais marítimos, técnicos e professores. Assim, seria criada uma geração de brasileiros e africanos que enxergaria o Atlântico como espaço de oportunidades, e não como fronteira.
Nenhum projeto de prosperidade funcionaria sem infraestrutura. Seria necessário pensar em uma rede integrada de: portos, ferrovias, estradas, cabos submarinos, data centers, energia e logística.
Um ponto particularmente interessante são os cabos submarinos de fibra óptica, que permitiriam que o Brasil se tornasse uma espécie de ponte digital entre América Latina e África.
E há uma vantagem geopolítica, visto que esta proposta poderia conferir ao Brasil uma posição internacional particularmente interessante. Não seria necessário escolher entre: Ocidente × China ou Norte × Sul. O Brasil poderia defender uma terceira lógica: cooperação Sul–Sul baseada em desenvolvimento, soberania, sustentabilidade e prosperidade compartilhada.
A própria documentação brasileira atual já considera o Atlântico Sul relevante não apenas ambiental e economicamente, mas também para a projeção internacional do Brasil e para a construção de um ambiente cooperativo através da ZOPACAS.
Isso daria ao Brasil uma agenda positiva, não apenas para “impedir a militarização do Atlântico Sul”, mas também “fazer do Atlântico Sul uma das grandes regiões de desenvolvimento do século XXI”. Para tanto, não se transformaria a ZOPACAS em uma organização fechada.
Poderia haver uma geometria de cooperação em círculos concêntricos entre a ZOPACAS, incluindo o Brasil, países sul-americanos e africanos do Atlântico Sul.
Assim, o Atlântico Sul poderia ser uma ponte entre diferentes espaços de cooperação do Sul Global. Nessa perspectiva, aparece uma visão geopolítica inovadora: o Brasil não precisaria escolher entre Atlântico, África, Ásia ou América Latina. Poderia atuar como um dos pontos de convergência de uma rede de cooperação entre essas regiões.
Neste ponto de reflexão, voltamos à hipótese de situar o Brasil como um ponto de convergência na trilha entre grandes espaços. Para tanto, seria necessária uma estratégia brasileira muito mais ampla, abrangendo o Atlântico Sul, a América do Sul, a África, a ASEAN e a Ásia, no formato de uma rede de cooperação do Sul Global.
Nesse modelo, como já foi dito, o Brasil não precisaria competir com China, Índia ou outras potências pela liderança do Sul Global. Poderia exercer a função de conector entre regiões.
A ASEAN é particularmente importante porque já possui uma arquitetura de diálogo que permite parceiros externos sem exigir que eles se tornem membros. O Brasil aderiu ao Tratado de Amizade e Cooperação do Sudeste Asiático em 2012 — primeiro país latino-americano a fazê-lo — e tornou-se Parceiro de Diálogo Setorial em 2022.
Esta parceria poderia facilitar o papel do Brasil como ponte entre o Atlântico e o Indo-Pacífico, nas áreas econômica, cultural, científica, tecnológica e diplomática.
Tal iniciativa se enquadraria muito bem na agenda que Brasil e ASEAN já estão construindo: o plano 2024–2028 inclui ciência e tecnologia, educação, energia, saúde, segurança alimentar, clima e intercâmbio entre povos. Em 2025, os dois lados acrescentaram possibilidades em IA, economia criativa, transição verde, transformação digital, cadeias de suprimento e conectividade.
E aí a ideia de “Prosperidade pelo Atlântico” poderia ganhar uma segunda dimensão: “Prosperidade através dos oceanos” — usando Atlântico e Indo-Pacífico como espaços de conexão entre Brasil, África e Ásia, em vez de pensar esses oceanos como regiões geopolíticas isoladas.
Assim, caberia refletir sobre a ideia de “Prosperidade pelo Atlântico” e a segunda dimensão “Prosperidade através dos oceanos” — usando Atlântico e Indo-Pacífico como espaços de conexão entre Brasil, África e Ásia, em vez de pensar esses oceanos como regiões geopolíticas isoladas.
A política internacional tradicional tende a considerar blocos econômicos, alianças militares e áreas de influência.
Poderíamos sugerir discurso como “do oceano que separava ao oceano que conecta; da cooperação entre países à prosperidade entre civilizações”.
Conclusão
Conforme mencionado no início deste texto, a opção do Brasil pela identificação e construção de “Trilhas” pode ser escolha de narrativa de política externa inovadora, principalmente por construir uma linguagem diplomática própria, diferente do discurso de grandes projetos de infraestrutura e projeção geopolítica. Seria, então, feita a distinção entre “rota”, que é mais física e geoeconômica, e “trilha”, que pode ser mais humana, gradual e multidimensional.
Neste cenário futuro, o Brasil pretenderia abrir novos caminhos e não participar de ou construir blocos. Prefere conectar oceanos e não os dividir em áreas de influência, compartilhar capacidades e não impor modelos de desenvolvimento e fortalecer soberanias através da cooperação e não substituir dependências.
O Brasil reconhece os oceanos não como espaços que separam continentes, mas como sistemas de conexão entre povos, economias e civilizações. Através do Atlântico Sul, o Brasil deve aprofundar sua integração com a África, através das conexões marítimas e digitais entre o Atlântico, o Índico e o Indo-Pacífico. Ademais, deve ampliar sua cooperação com a Índia, a ASEAN e a Ásia. Essa conectividade deve estar orientada pela paz, pela cooperação, pelo desenvolvimento sustentável, pelo conhecimento e pela prosperidade compartilhada.
Sem deixar de citar algum antigo provérbio chinês, lembro que “toda a trilha começa com o primeiro passo”[2].
[1] A ZOPACAS nasceu em 1986, no contexto da Guerra Fria, com uma preocupação essencialmente geopolítica: manter o Atlântico Sul como uma zona de paz e cooperação e livre de armas nucleares. São hoje 24 países das duas margens do Atlântico Sul.
[2] Origem filosófica: “Toda a grande jornada começa com o primeiro passo”. A máxima é amplamente atribuída ao filósofo chinês Lao-Tsé, fundador do taoismo.


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