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Quem pode aparecer no retrato do poder?

24.09.2026 5 min read

Homens de terno, alinhados em torno de uma mesa, diante de um prédio público, em um gabinete, num tribunal, numa empresa, numa igreja, numa cerimônia. Eles apertam as mãos, conversam, sorriem, posam. A fotografia muda, mas os corpos parecem pertencer sempre à mesma família simbólica. São homens que se reconhecem, que circulam entre si, que sabem como chegar, como cumprimentar, como ocupar uma cadeira e, sobretudo, que raramente precisam explicar por que estão naquele lugar.

É disso que tenho falado quando penso na chamada foto oficial. Ela parece apenas um registro, mas também conta uma história sobre quem pode ocupar o espaço público como alguém autorizado. A fotografia mostra uma reunião, mas também registra uma espécie de pacto silencioso. Pierre Bourdieu já nos ensinou que o poder se inscreve nos corpos, nos gestos, na roupa, na postura e nas formas de circulação. Eve Kosofsky Sedgwick chamou atenção para a homossociabilidade, essa rede de reconhecimento entre homens que também participa da construção das relações de poder. Cida Bento, ao pensar os pactos narcísicos da branquitude, nos oferece outra ferramenta para perceber como determinados privilégios se preservam justamente porque os semelhantes se reconhecem e se legitimam entre si, assim, quando uma travesti entra nessa fotografia, alguma coisa muda.

Não necessariamente porque alguém diga uma palavra ofensiva. Muitas vezes, a mudança acontece antes que qualquer palavra seja dita. Está no corpo que recua, no olhar que se desloca, na conversa que termina rápido demais, na pessoa que encontra uma razão para não se aproximar. Está naquele cumprimento que parece calculado, naquela fotografia em que alguém procura uma distância segura, naquele encontro em que a proximidade comigo parece produzir mais preocupação do que a própria conversa.

Tenho observado isso também em homens evangélicos desde sempre, aliás desde quando um pastor usou de sua autoridade para separar meu filho de mim. Homens que ocupam espaços políticos e institucionais. E aqui é preciso fazer uma distinção importante, não falo da população evangélica como se fosse um bloco único, porque não é. Falo de determinados homens e de determinadas formas de masculinidade religiosa que, quando se encontram com a presença travesti, podem produzir um desconforto bastante visível. Quanto mais perniciosos, maior a distância que mantém de nós. Em algumas situações, parece existir uma preocupação não apenas com a aproximação, mas com o que essa aproximação pode significar diante dos outros. Como se apertar a mão de uma travesti, conversar com ela, dividir uma mesa ou aparecer ao seu lado em uma fotografia pudesse comprometer uma imagem pública cuidadosamente construída. Sempre construída, nunca genuína…

É uma cena curiosa porque nós, travestis, estamos acostumadas a perceber aquilo que muitas vezes passa despercebido para quem nunca precisou pensar sobre o próprio corpo como diante de uma fronteira. Nós sabemos quando alguém se aproxima e quando alguém se aproxima apenas o suficiente para cumprir um protocolo. Sabemos quando o sorriso é espontâneo e quando ele serve para encerrar uma situação ou encenar a compaixão. Sabemos quando uma mão é estendida para estabelecer contato e quando ela aparece apenas porque existe uma câmera.

A fotografia revela essas coisas.

Judith Butler escreveu sobre os corpos que conseguem ser reconhecidos socialmente e aqueles cuja presença é empurrada para zonas de menor inteligibilidade, palavra difícil que remete aquilo que conseguimos imaginar. E Berenice Bento mostrou como a transfobia também se organiza estruturalmente, atravessando instituições, relações e práticas cotidianas, a presença de uma travesti em determinados espaços produza desconforto porque ela coloca diante dos olhos uma pergunta que a instituição preferia não fazer. Quem pode ser reconhecida como autoridade? Quem pode representar? Quem pode negociar? Quem pode sentar à mesa sem que sua presença seja transformada em assunto?

Eu não quero apenas entrar na fotografia.

Quero poder existir nela com a mesma naturalidade com que tantos outros corpos aparecem há décadas.

Quero que uma conversa comigo seja apenas uma conversa, que um cumprimento seja apenas um cumprimento, que dividir uma mesa não precise ser interpretado como uma declaração política, que um homem possa ser fotografado ao meu lado sem precisar olhar para os lados para verificar quem está vendo.

O problema não é apenas a ausência de travestis nas fotografias do poder. O problema está na estrutura que produz essa ausência e depois apresenta o resultado como se fosse natural.

A fotografia é pequena, mas o que ela revela é enorme, por que mostra quem se sente autorizado a ocupar aquele espaço e quem chega carregando no próprio corpo a memória de todas as vezes em que foi convidada a permanecer do lado de fora.

O que a nossa presença produz é o incômodo. Uma travesti diante do poder não leva apenas seu corpo para aquele lugar, leva também uma pergunta sobre a história daquele lugar, sobre os pactos que o construíram e sobre os corpos que foram mantidos longe dele.

Assim a fotografia deixa de ser apenas uma imagem como tão bem expõe Valentin Bardawil e Christine Delory-Momberger, a partir de teóricas como Susan Sontag. A fotografia passa a ser pensada como fotobiografia, uma forma de construir a própria história a partir da imagem, da memória e da comunidade. O íntimo se torna matéria de elaboração e, ao mesmo tempo, de performance e performatividade, cada fotografia escolhe o que mostrar, o que guardar e como narrar uma existência. A experiência foto(bio)gráfica difere da vivência fotobiográfica, assim, não apenas registra uma vida, mas participa da construção de sua história e transforma a experiência individual em memória compartilhada.

Ela se transforma em documento no singular-plural

Documento de quem esteve ali, quem foi recebido, quem foi reconhecido, quem permaneceu invisível, foi apagado ou esquecido.
E também de quem, finalmente, decidiu aparecer.

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