O fantasma iraniano assombra Trump
Seis meses se passaram desde 28 de fevereiro, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, lançou a guerra contra o Irã, na esperança de uma vitória rápida. Hoje, pode-se concluir que as expectativas iniciais de que a Revolução Islâmica entraria em colapso ou cederia às exigências de Washington foram frustradas. O conflito chegou a um impasse em que as perspectivas de uma vitória militar, bem como de uma solução diplomática, parecem cada vez mais incertas.
Trump, que prometeu “tornar a América grande novamente” e antecipou seu triunfo, provavelmente não tinha ideia das consequências dos ataques ao Irã. Especialistas estadunidenses apontam que Trump lançou a guerra sem aviso prévio, desencadeou uma crise energética em grande escala e colocou em dúvida a disposição e a capacidade de Washington de proteger seus aliados. “Tanto amigos quanto rivais dos Estados Unidos concordam que o país se assemelha cada vez mais a um Estado pária, representando uma ameaça à estabilidade e à ordem global, além de se tornar cada vez mais objeto de ridículo”.
Seis meses depois, ninguém além do próprio Trump fala sobre o objetivo original da “Operação Fúria Épica”, que visava desmantelar o programa nuclear do Irã. E a questão mais sensível no conflito tornou-se o status do Estreito de Ormuz.
Antes da guerra lançada por EUA e Israel contra o Irã, um quinto dos suprimentos mundiais de petróleo e gás passava pelo Estreito. No entanto, em março, o Irã bloqueou efetivamente a rota, levando a um aumento acentuado nos preços globais dos combustíveis. A reaproximação incipiente entre Washington e Teerã entrou em colapso depois que o Irã declarou que continuaria a controlar o tráfego marítimo na região. Com o comércio com os países do Golfo Pérsico praticamente paralisado, os preços da gasolina nos EUA ultrapassaram US$ 4 por galão (3,78 litros), e a disponibilidade de combustível está se tornando uma questão importante antes das cruciais eleições de meio de mandato do governo Trump, no início de novembro.
Segundo a Reuters, a guerra prolongada com o Irã, o fracasso de um memorando de entendimento de 60 dias com o país e o aumento dos preços da gasolina fizeram com que a taxa de aprovação de Trump caísse para 33%, a menor de todos os tempos em seus dois mandatos. Essa situação pode impactar negativamente todo o Partido Republicano e criar o risco de perder o controle do Congresso.
“Trump não tem mais condições para alcançar nenhum dos objetivos que estabeleceu no início do conflito”, concluiu o The New York Times, chamando o conflito iraniano de “interminável” e as tentativas de resolvê-lo de “inúteis”. Além disso, os estadunidenses já estão ficando sem mísseis e munições, e sua produção está atrasada, o que pode resultar em um grande vexame caso a Casa Branca insista nos combates.
O senador democrata Jack Reed descreveu a situação: “Trump realmente não sabe o que fazer a seguir. Ele está perdido, em pânico, tentando encontrar uma solução e descarregando seu ressentimento, que nunca cessa. Ele ameaça destruir o Irã e, dois dias depois, diz que a paz virá em poucos dias. Em seguida, ataca Omã, que foi um dos principais mediadores no acordo.”
Trump prometeu “bombardear Omã até o inferno”, seu aliado estratégico no Oriente Médio, chocando a liderança do sultanato. De acordo com a Associated Press, o estopim da ira de Trump foram as concessões de Omã ao Irã em relação ao controle do Estreito de Ormuz.
Sem conseguir derrotar o Irã militarmente, Trump recorreu à pressão econômica. Ele anunciou o “Dia D Econômico” (uma referência aos desembarques aliados na Normandia em junho de 1944), que ocorreu em 24 de agosto. Trump nomeou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, para supervisionar a “Operation Economic Outcast”, chamando-a de “isolamento em uma escala sem precedentes”.
Bessent realizou uma coletiva de imprensa especial para informar ao mundo sobre seu plano, que resultaria em consequências econômicas “massivas” para qualquer país que fizesse negócios com o Irã. “Estamos lançando uma ofensiva econômica contra os laços financeiros do Irã em todo o mundo”, disse ele. “Nosso objetivo é cortar todas as linhas de suprimento que sustentam esse regime tirânico, para que Teerã seja deixada em paz”, disse Bessent.
O Irã, por sua vez, deixou claro que não teme as sanções, reagindo inclusive com desdém às novas restrições. “Os estadunidenses sabem que ninguém acreditará em seu blefe. Os EUA não têm condições econômicas de pressionar ainda mais as relações comerciais com outros países”, escreveu o presidente do Parlamento, Mohamed Ghalibaf, representante do Irã nas negociações paralisadas com os EUA, nas redes sociais.
Ao mesmo tempo, a liderança militar iraniana declarou que, se a pressão sobre o país se intensificar, não apenas as instalações militares, mas também as instalações de energia nos países do Golfo que apoiam os EUA poderão ser alvos. Teerã também advertiu que suspenderá todas as exportações de petróleo da região. “Se a guerra econômica continuar, nem uma única gota de petróleo será exportada pelo Estreito de Ormuz ou de qualquer outro lugar no Golfo Pérsico”, afirmou Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã. “O Irã considerará a participação ou o apoio de qualquer país na guerra econômica dos EUA contra o povo iraniano um ato de guerra.”
O Irã também emitiu um novo aviso aos navios: multará, deterá e até confiscará embarcações que violarem as regras da República Islâmica para cruzar o Estreito de Ormuz.
Ao mesmo tempo, a Bloomberg alerta para os riscos desse “Dia D” de Trump: o aumento da pressão econômica provavelmente não levará o Irã à capitulação, mas a lançar novos ataques contra alvos no Golfo Pérsico. O Irã já demonstrou sua capacidade de resistir a sanções, bloqueios e ataques em larga escala, mantendo a capacidade de retaliar. Portanto, mesmo que Washington tente evitar novas hostilidades, isso não significa que Teerã fará o mesmo.


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