O Iraque não é soberano
O anúncio da retirada das últimas tropas estadunidenses do Iraque traz algum alívio e foi comemorado, naquele país, como uma espécie de independência.
Na ocupação, que durou 23 anos, calcula-se que cerca de 300 mil iraquianos tenham morrido devido à violência trazida pelo conflito.
Mas, se contarmos as mortes causadas indiretamente pelo conflito, como as relacionadas à fome, às doenças, à precarização dos serviços públicos essenciais etc., esse número pode ter ultrapassado a casa de 1 milhão.
Segundo a Universidade Brown, o número total de mortes ocasionadas pelas guerras ocorridas após o 11 de Setembro (no Iraque, no Afeganistão, na Síria e no Iêmen) deve se situar entre 3,6 e 3,8 milhões, a grande maioria civis.
Assim, os iraquianos têm, de fato, algo a comemorar.
Porém, ainda resta, no Iraque, um problema enorme de soberania: além de não ter mais forças armadas capazes de defender o país, Bagdá não recuperou o controle sobre seus próprios recursos econômicos e financeiros.
As empresas que produzem e exportam o petróleo do Iraque, em sua maioria estadunidenses, são obrigadas, por Washington, a depositar seus pagamentos, em dólares americanos, em uma conta específica nos EUA.
O governo dos EUA controla essa conta e envia, no ritmo e na escala que lhe convier, os dólares para Bagdá.
De forma direta, como seria o correto, o governo de Bagdá não recebe um centavo sequer das petroleiras que atuam no Iraque.
Esse mesmo modelo está sendo aplicado, agora, na Venezuela.
Algo muito conveniente para os EUA, pois reforça a associação entre o mercado do petróleo e o dólar e, ao mesmo tempo, assegura um férreo controle geopolítico em países produtores dessa commodity estratégica. Obviamente, há a tentação de estender esse modelo o máximo possível. O Irã resiste, até agora.
Imaginem se o petróleo brasileiro tivesse que percorrer esse caminho. Seria um desastre para o país.
Fico imaginando se Eduardo e Flávio Bolsonaro já conversaram com Marco Rubio e Trump sobre as nossas reservas de hidrocarbonetos, especialmente sobre o óleo da Margem Equatorial.
Afinal, quem prometeu um lugar para os EUA na equipe de transição e o acesso privilegiado às nossas terras raras pode ter prometido outras coisas. Quem sabe uma venda “camarada” da Petrobras a empresas ou grupos financeiros dos EUA? Quem sabe o acesso exclusivo às nossas novas reservas?
No mundo repugnante do entreguismo e dos traidores da pátria, tudo é possível. Nada faz corar.
Brasília está muito distante de Bagdá, mas não está tão distante assim de Caracas. E os tentáculos da Doutrina Monroe são poderosos e longos.



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