Flávio diz que Lula é “recordista de mentira”, mas teve mais propaganda derrubada no TSE
No primeiro debate do segundo turno, realizado pela Band no domingo (18), o senador Flávio Bolsonaro afirmou que o atual presidente Lula “é o recordista de mentira. Já foi condenado várias vezes pelo TSE por fake news”.
Os dados, contudo, não sustentam a acusação de Flávio. Na verdade, a contrariam. Por meio do Boletim LEME, o Instituto Sivis levantou todas as decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre propaganda dos dois candidatos até 4 de outubro, data do primeiro turno. O TSE expediu 19 ordens de remoção contra Flávio Bolsonaro e 12 contra Lula. A acusação, portanto, descreve melhor o histórico de quem a fez do que o de quem a recebeu: quem mais teve propaganda tirada do ar até então foi justamente Flávio, com sete ordens a mais que o adversário.
As palavras escolhidas pelo senador aumentam a imprecisão dos fatos. Os ministros recorrem a categorias jurídicas mais precisas, como propaganda eleitoral negativa ou conteúdo descontextualizado, e a expressão “fake news” não aparece em nenhuma das decisões levantadas. Ademais, as ordens contra Lula são decisões liminares, isto é, medidas provisórias tomadas para conter um possível dano antes do julgamento definitivo pelo tribunal. Falar em “condenações” sugere um histórico judicial no tema que nenhum dos dois candidatos possui.
Há, ainda, uma ironia difícil de ignorar: para acusar o adversário de espalhar desinformação, recorreu-se justamente a uma informação, no mínimo, imprecisa. Quem aponta o dedo, especialmente nesse tema, deveria ser duplamente rigoroso com os fatos. Hannah Arendt alertava, em seu ensaio “Verdade e Política”, que a liberdade de opinião se torna uma farsa quando os próprios fatos deixam de ser um terreno comum. Num debate tão polarizado quanto o do dia 18, foi justamente esse chão que faltou.
O confronto entre os candidatos certamente será lembrado não pela comparação de diagnósticos e planos para o país, mas sim pelos ataques pessoais proferidos ininterruptamente. Esse resultado é favorecido pelo formato escolhido, que impôs poucos limites aos candidatos. Com poucos momentos de perguntas sobre projetos e muitos espaços de interação livre, o estúdio tornou-se palco de ataques.
A Justiça Eleitoral também se converteu em uma arena paralela da campanha, onde cada lado tenta derrubar o discurso do outro e as próprias decisões viram munição retórica, mesmo quando os candidatos não as descrevem com fidelidade. Debates presidenciais deveriam ajudar o eleitor a escolher entre projetos. Quando até os fatos viram objeto de disputa, a escolha do eleitor passa a ser em quem acreditar, e quem perde com isso é a democracia.


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