China aposta nos formatos curtos para ampliar seu poder brando
Microcena 25. Uma milionária lança um olhar de desprezo para sua recém-chegada nora e, maldosa como poucas, pergunta se no campo as pessoas conhecem as regras de etiqueta para usar talheres de prata ou se ela prefere comer diretamente com as mãos. Longe de se intimidar, a jovem se serve de uma porção generosa e responde com um sarcasmo implacável: “Na minha terra, aprendemos a usar as mãos para trabalhar a terra e a boca para dizer a verdade; uma pena que aqui, com tantos talheres finos, ainda não tenham aprendido a mastigar direito a boa educação”, responde, palavra mais, palavra menos.
É difícil não sentir empatia pela protagonista de A jovem senhora vem do Nordeste, o microdrama que, neste ano, ultrapassou 1 bilhão de visualizações nos três primeiros dias após o lançamento, segundo a revista New Weekly e dados do Baidu, o popular mecanismo de busca chinês.
Em 2025, os microdramas alcançaram cerca de 800 milhões de usuários na China e movimentaram aproximadamente US$ 14,91 bilhões. A Administração Nacional de Rádio e Televisão informou que foram registradas cerca de 430 mil produções nos primeiros oito meses de 2026, uma média de 1.770 por dia. Quase sete enquanto você lê esta matéria.
Conhecidos na China como duǎnjù, esses dramas curtos ultrapassaram as fronteiras e chegaram a mais de 200 países, com produções adaptadas aos gostos de diferentes públicos. Na América Latina, os downloads de aplicativos como ReelShort, DramaBox e PineDrama cresceram 913% em relação ao mesmo período do ano anterior, durante o primeiro trimestre de 2026, segundo a plataforma de análise Huxiu, que apontou a região como uma das que registraram maior expansão do formato.
A receita não tem muito mistério. Episódios de 60 segundos a cinco minutos, tela vertical e uma sucessão de traições familiares, vinganças, romances impossíveis e milionários que costumam descobrir tarde demais que o dinheiro não compra tudo. As novelas de sempre, mas com capítulos muito breves, mais reviravoltas e o celular no lugar da televisão.
A diferença mais significativa talvez seja que muitos aplicativos oferecem os primeiros episódios gratuitamente e, depois, começam a cobrar quando o conflito já prendeu a atenção do espectador. Desbloquear cada capítulo exige um desembolso pequeno, mas acompanhar uma série completa de 80 episódios pode custar mais do que a assinatura mensal de um serviço global de streaming. O Conselho de Consumidores da China e a consultoria iMedia Research alertaram para esses custos acumulados. O antigo romance publicado em capítulos encontrou um novo cobrador, desta vez dentro do telefone.
Primeiros sinais de crescimento
O fenômeno começou a ocupar um espaço na estratégia chinesa de expansão cultural. A China incorporou os microdramas às chamadas “Três Novas Modalidades” de exportação, ao lado dos videogames e da literatura digital, e os incluiu entre as indústrias culturais contempladas no 15º Plano Quinquenal (2026-2030). A aposta tem uma lógica comercial evidente. Uma história que funciona em uma tela pequena pode chegar a outros mercados sem exigir os orçamentos de uma superprodução cinematográfica.
Mas também existe uma dimensão geopolítica. No debate sobre o poder brando, as plataformas chinesas conseguem alcançar públicos internacionais que não necessariamente acompanham a política do país. A pesquisadora Lu Xiao, da Universidade Xi’an Jiaotong-Liverpool, destacou que muitas produções utilizam atores locais e adaptam sua estética a cada mercado, embora a infraestrutura, os algoritmos e as empresas responsáveis pela distribuição continuem vinculados ao ecossistema chinês. Essa presença cotidiana no entretenimento global pode se transformar em uma forma de influência, mesmo quando as histórias não fazem qualquer referência à China.
O economista norte-americano Noah Smith descreveu essas produções como “verdadeiros primeiros sinais do poder brando da China”. O que ainda precisa ser demonstrado é quanto desse consumo melhora a imagem do país e quanto resulta simplesmente do interesse por romances, vinganças e histórias nas quais os poderosos recebem o castigo que merecem. Assistir a uma produção chinesa não significa simpatizar com seu governo, embora também não seja irrelevante saber quem controla as plataformas.
Nesse processo, a chegada da inteligência artificial é fundamental. Trata-se de um avanço tecnológico que revolucionou a criação de roteiros, cenários, vozes e personagens, sem a necessidade de repetir todas as etapas de uma filmagem tradicional. Segundo veículos de comunicação chineses, mais de 90% dos títulos lançados em 2026 utilizaram ferramentas de inteligência artificial generativa (AIGC), o que permitiu reduzir custos e, em alguns casos, multiplicar os lucros.
O Hubei Daily informou que The Persian Revenge custou aproximadamente US$ 443 e gerou mais de US$ 500 mil em receitas provenientes de pagamentos dos usuários nas primeiras 72 horas após sua estreia na plataforma YourChannel. Trata-se de um caso excepcional, que, isoladamente, não representa a rentabilidade de toda a indústria.
De fato, a consultoria DataEye e a BigGo Finance alertam que muitas produções não conseguem recuperar o investimento. Produzir a baixo custo não garante audiência, e conquistar espectadores tampouco significa que eles estarão dispostos a pagar. Em um mercado saturado, os produtores precisam investir em publicidade para ganhar visibilidade nos algoritmos das plataformas.
A DataEye estima que o mercado global de microdramas alcançará US$ 650 milhões em 2026, um crescimento de 550% em relação ao ano anterior. O Securities Daily também informou que os pedidos internacionais registraram “um crescimento anual que deverá chegar a até 50 vezes” e que, por exemplo, “Revenge of XXL Wife ultrapassou 200 milhões de visualizações em vídeos relacionados”.
Essa multiplicação de produções e personagens criados por algoritmos levou as autoridades chinesas a reforçar a regulamentação. A Administração Nacional de Rádio e Televisão (NRTA) estabeleceu medidas contra a ostentação de riqueza, determinadas representações das relações matrimoniais e violações de direitos autorais. O setor cresce orientado por critérios comerciais, mas dentro de um marco político e cultural definido por Pequim.
A expansão dos microdramas também trouxe dois problemas que exigem a atenção da NRTA. Muitos atores foram substituídos por personagens digitais e tiveram de se contentar com trabalhos menores no turismo cultural, realizando apresentações ao vivo em parques temáticos e espaços históricos.
Além disso, uma investigação da emissora estatal CCTV revelou a comercialização de licenças de uso de rostos por meio de plataformas como ActID e Mirafans. Alguns usuários receberam promessas de pagamentos de até US$ 400 para ceder sua imagem à criação de personagens digitais, mas nunca receberam os valores prometidos. A inteligência artificial reduz os custos de produção, mas seus efeitos sobre o emprego e o uso da identidade digital levantam questões que ultrapassam os limites da tela.
Em A jovem senhora vem do Nordeste, a nora do campo dá uma lição na sogra milionária. A cena dura alguns segundos, e o prazer da revanche é compreendido em qualquer idioma. Conseguir que milhões de pessoas continuem assistindo já é uma conquista. Fazer com que essa atenção finalmente se transforme em poder brando é uma aposta muito mais longa do que qualquer microdrama.



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