Dez milhões
Do A Terra É Redonda
1.
Eu entrei no exército do Lula quando devia ter menos de um milhão de pessoas por lá. Não fui dos últimos, mas não estive entre primeiros, até porque não gosto nem um pouco de usar WhatsApp. Aqui em casa, onde moramos três pessoas, fui o terceiro a entrar.
Mas logo fui vendo que se tornava uma ferramenta importante de mobilização. Não economizo meus elogios ao deputado André Janones, que está fazendo um trabalho extremamente competente e é o grande responsável pelo fato de que hoje somos capazes de lutar de igual para igual no ambiente digital. O que é muita coisa, porque este ambiente é todo organizado de maneira a nos prejudicar.
Não estou falando apenas das manipulações, a esta altura do campeonato já mais do que evidentes, da Meta, para beneficiar a candidatura de Flávio Bolsonaro.
É que o ambiente de debate nas plataformas é contrário a qualquer tipo de aprofundamento das questões, a qualquer tipo de reflexão que exija maior atenção do público, a qualquer argumento que não possa ser resumido em um meme, a tudo aquilo que luta contra o senso comum e mesmo contra os preconceitos arraigados na sociedade.
Com isso, as plataformas servem muito mais para reproduzir ideias já feitas e para fortalecer crenças já existentes do que para transformar mentalidades, que é exatamente aquilo que a esquerda precisa fazer.
A mobilização que André Janones propôs, estilo “tropa” e voltada a triunfar sobre o algoritmo, mostrou-se eficaz e é necessária. Não resolve, porém, o problema da educação política, que teremos que enfrentar. Mas esse é tema para outra conversa.
Daí, André Janones começou a comandar missões para aumentar o número de participantes do canal. Primeiro queria chegar a seis milhões; como foi rápido aumentou para sete, vocês devem lembrar.
Eu me engajei nessa tarefa, embora soubesse que seria algo inglório. Afinal, eu vivo numa bolha quase perfeita. Posso dizer que não conheço nenhuma pessoa que não vote no Lula. Toda minha família vota no Lula, meus amigos votam no Lula, meus alunos votam no Lula, meus colegas de trabalho votam no Lula, meus vizinhos votam no Lula. Todos os porteiros do meu prédio votam no Lula.
Embora o filhote de Satanás tenha ganhado no Distrito Federal, o bairro em que moro, a Asa Norte, é tradicionalmente um reduto de Lula. O presidente ganhou aqui em 2022 e ganhou de novo em 2026. Ficou 10 pontos à frente no primeiro turno.
Mas fui para o zap convidar as pessoas. A reação mais comum que obtive como resposta foi a indignação por eu ter imaginado que aquela pessoa ainda não estava no canal do André Janones. Chegamos aos 7 milhões e daí o nosso general fez o desafio dos 10 milhões. Continuei convidando as pessoas. Em vão; acho que, se muito, conquistei um novo seguidor, porque todo mundo com quem eu falava já estava lá.
E o que as pessoas diziam era: “Acho que agora o André Janones deu uma piradinha”. A meta de 10 milhões parecia inalcançável. Pois chegamos nela, umas horas antes do debate. No momento em que escrevo, o “Exército do Lula” no WhatsApp está se aproximando dos 11 milhões de membros.
Isso mostra que ainda há espaço para crescer, mesmo quando parece que já esgotamos tudo. Isso mostra que ainda tem voto para virar até amanhã. Que não podemos parar com o esforço de convencimento, com a mobilização nas ruas e nas redes, até fechar a última urna.
Como todos nós sabemos, o que está em jogo é muito grave.
2.
E o debate? A primeira lição do debate é que realmente não há como debater com alguém como o candidato miliciano. Não é só o formato do debate, que é ruim. É que o Flávio Bolsonaro é péssimo. Ele fez o que sempre faz: mentiu. A visão idealizada do debate como momento de confronto de propostas se estilhaça quando bate no material de que é feito um candidato como Flávio Bolsonaro. Aliás, a estratégia de sua campanha, do começo ao fim, se resumiu em uma única palavra: “mentira”. No debate, não foi diferente.
Não vou dizer que Lula foi bem no debate, porque estaria me iludindo. Lula estava menos afiado do que em outras ocasiões, parecia cansado. Deixou passar várias oportunidades de encurralar Flávio Bolsonaro. Ainda assim, foi nitidamente melhor do que o adversário. Foi minha impressão assistindo, e é o que dizem os grupos focais com indecisos e também todos os analistas que li.
Menos, claro, a análise da Brasil Paralelo. Que está tão alinhada à estratégia de seu candidato que foi capaz de produzir um arremedo de checagem de fatos concluindo que Lula mentiu e Flávio Bolsonaro… Bom, nem eles são capazes de dizer que o Flávio não mentiu, mas dizem que o Flávio mentiu menos que o Lula!
A Checagem ao Vivo comprova: vitória acachapante de Flávio… no quesito “mentira”!
Lula teve, como todo mundo está comentando, pontos altos no debate, que foram suficientes para definir a seu favor aquele enfrentamento. Um deles foi quando citou o caso Ana Clara. Flávio Bolsonaro não apenas mostrou completo desconhecimento do caso, trocando o nome da mãe pelo nome da menina, como fez uma inacreditável defesa do assassino.
Não custa lembrar: não existe nenhuma dúvida sobre a identidade do assassino de Ana Clara, Ele foi preso em flagrante. O julgamento não é para determinar a autoria do crime, é apenas para verificar se existe algum atenuante (o que é absolutamente improvável, é mesmo impensável, mas, dentro de um regime de direito, ele deve ser devidamente julgado). Então, naquele momento, a insensibilidade de Flávio Bolsonaro ficou evidente diante de todos os espectadores.
O outro momento foi a resposta de Lula quando foi chamado de “nove dedos”. Como escreveu o professor Felipe Demier, a resposta de Lula ”foi épica. Um forte teor classista, na provocação e na resposta. Ali ficou nítida a divisão de classe e de caráter. Não restou nada ao Flávio Bolsonaro senão cinicamente se desculpar”.
Lula enfatizou a diferença de sua trajetória, de trabalhador pobre, em relação à do miliciano, um playboy que ganhou um emprego fantasma do papai. Marcou a diferença entre a vivência de um integrante da classe trabalhadora e a das elites que dominam o nosso país.
Naquele momento, além de iluminar a truculência do candidato miliciano, ele marcou uma linha divisória entre quem está do lado e quem está contra a classe trabalhadora no Brasil.
Se houvesse lógica na escolha eleitoral, estes dois momentos bastariam para definir o resultado de amanhã. Mas, se houvesse lógica, uma criatura como Flávio Bolsonaro, desprovida de todas as virtudes, vestida de todos os vícios, nem teria sido cogitada como candidato.
O resultado está em aberto. Depende de nosso último esforço.


O mundo olha para a eleição do Brasil (e já definiu seu voto)
Meu último voto no Lula
O essencial permanece porque o amor supera a política