Combater as bets é possível
A história da civilização pode ser lida através de seus tabuleiros de jogos. Do Jogo Real de Ur à sofisticação estratégica do Xadrez, o ato de jogar sempre foi o que Johan Huizinga chamou de “círculo mágico”: um espaço sagrado, com regras próprias, onde o ser humano exerce sua liberdade e criatividade. No entanto, na contemporaneidade digital, esse círculo parece ter sido rompido. O jogo, que outrora era um elemento de coesão cultural e desenvolvimento de habilidades, foi transmutado em um mecanismo de extração financeira e entorpecimento social.
O fenômeno recente das plataformas de apostas digitais, exemplificado pelo onipresente “Jogo do Tigrinho”, não é apenas uma evolução tecnológica dos antigos cassinos. Trata-se de um novo paradigma: o uso do Estado de Flow não para o florescimento humano, mas para o Sequestro da Subjetividade Este artigo propõe uma reflexão sobre essa transição e como a lógica do algoritmo perverteu o instinto lúdico sob a metáfora do embate entre a ordem e o caos.
A história dos jogos remonta a milênios. Stewart Culin apontou similaridades culturais globais como prova de contatos primordiais humanos através do lúdico. Roger Caillois entendia o jogo como uma gama de restrições voluntárias que estabelecem ordem num universo sem lei. David Parlett reforça essa visão ao definir o jogo por duas características: finalização e significado.
Desde as civilizações suméria e egípcia, os jogos aliavam habilidade e sorte. O Jogo Real de Ur (2.600 a.E.C.) e o posterior surgimento do Gamão demonstram a evolução das mecânicas de estratégia. Paralelamente, os jogos de pura habilidade, como o Xadrez e as Damas, consolidaram-se como simulacros de guerra e intelecto. No entanto, o “azar” (do árabe al-azar, dado) sempre caminhou à margem, muitas vezes confundido com rituais de magia e adivinhação. Tácito, em 98 já relatava que povos germânicos apostavam a própria liberdade em dados, mostrando que o risco extremo é um espectro antigo na humanidade.
A partir da década de 1970, Mihaly Csikszentmihalyi denominou de Estado de Flow a experiência de envolvimento profundo onde o tempo se distorce e a autoconsciência desaparece. No design original, o flow é uma experiência de “funcionamento ótimo”. Contudo, na era das Big Techs, esse conceito é sequestrado.
Diferente dessa visão original, o design de jogos como o “Fortune Tiger” opera uma perversão desse fluxo. O objetivo não é o prazer do desafio, mas a retenção. É neste ponto que ocorre o Sequestro da Subjetividade. Ocorre uma apropriação planejada das atividades psíquicas e emocionais do sujeito. O jogador não joga mais por autonomia; sua subjetividade é capturada por um algoritmo que mimetiza a esperança de ascensão social para esconder uma engrenagem de endividamento e controle dopaminérgico.
O “Jogo do Tigrinho” e as plataformas de slots online representam a dissolução das fronteiras do cassino físico. Se antes o jogo era restrito aos ridotti venezianos ou aos cassinos da era Vargas, hoje ele reside no bolso de cada cidadão. A combinação entre interfaces viciantes e a vontade de se livrar de dívidas motiva as classes média e baixa a apostar o que não têm.
O sofrimento psíquico relatado por especialistas como Lucas Spanemberg destaca que a dependência comportamental perverte o sistema de recompensa cerebral. Quando a dopamina de uma situação normal é 10, a do elemento aditivo sobe para 100, inaugurando um parâmetro de satisfação química impossível de ser alcançado pela vida real e cotidiana.
Vivemos sob a “retórica do ódio” e a crise dos jogos, que guarda semelhanças assustadoras com a crise do ópio na China do século XIX: um entorpecimento em massa com consequências devastadoras para a soberania nacional e a saúde pública. O “bolsonarismo” e o neoliberalismo extremado alimentam essa visão bélica onde o inimigo é interno e a sobrevivência é uma aposta individualista.
Para contrapor essa barbárie, precisamos retomar o lúdico em sua essência. Se o Batman é o bilionário vigilante e o Coringa é o caos do vício, a saída talvez resida na figura do “Menino Maluquinho” de Ziraldo: uma subjetividade não sequestrada, capaz de ver o mundo através da arte, da poesia e do amor. É urgente utilizar os princípios do game design (objetivos, recompensas e interatividade) não para o vício, mas para a educação e a emancipação. A batalha entre a minoria dominante e a classe trabalhadora continua, mas o jogo só será verdadeiramente humano quando o círculo mágico for devolvido ao povo, livre dos algoritmos do azar.
Proposição:
A criação de uma plataforma de jogos em que a premiação se dê com ingressos para shows e exposições culturais, experiências gastronômicas e turísticas. Como forma de propor um espaço onde as pessoas possam fluir seu impulso lúdico e usufruir de uma atividade produtiva e com grandes possibilidades de aprendizado.
Para tanto nos propomos a desenvolver o conceito central de combater as bets com a utilização de jogos tradicionais e modernos que realmente contribuam com o desenvolvimento cognitivo das pessoas, em lugar de prendê-las na armadilha do algoritmo dos novos cassinos.
Que tenham arruinado fortunas mundo e tempo a fora, mas não venham fazer o mesmo com o povo brasileiro. Porque o Brasil com Lula não o permitirá.



Ainda estamos aqui. E não vamos esquecer
Feminismo não, feminicídio, pode ser!
Hoje o Senado vai ter que decidir de que lado está