Arrumem as malas: a esquerda brasileira não vai mais para Cuba nem para a China. O novo destino é o Texas
Por anos, o repertório argumentativo da direita brasileira cabia confortavelmente em um cartão de embarque só de ida para Havana ou Pequim. Bastava defender o aumento real do salário mínimo, a taxação de grandes fortunas ou o fortalecimento de serviços públicos para ouvir, em coro automático nos grupos de família e nos plenários: “Vai pra Cuba!” ou “Muda pra China!”. Era o argumento definitivo, a cartada final de quem acreditava que o livre mercado absoluto era uma lei da natureza, tão imutável quanto a gravidade.
Pois bem. A Terra não é plana, mas parece ter dado uma volta completa — e aterrisou bem no meio de Austin.
Diante dos novos ventos que sopram na política dos Estados Unidos, a militância progressista brasileira já pode cancelar o curso de mandarim e guardar o guia turístico de Varadero. O novo paraíso socialista atende pelo nome de Texas — sim, a terra dos cowboys, do petróleo, do churrasco defumado e do conservadorismo mais raiz do planeta. Com a eleição de James Talarico para o governo estadual e o anúncio de uma plataforma que faria corar muito deputado do PSOL, a geopolítica da implicância acaba de sofrer um colapso irreversível.
A lista de “heresias” anunciadas pelo novo governador texano parece ter sido redigida em algum congresso sindical do ABC Paulista, mas em inglês com sotaque sulista: valorização agressiva do salário mínimo, taxação das grandes fortunas, justiça tributária progressiva, implementação de creches universais e, para o desespero dos falcões de Washington, uma postura firme contra o apoio a guerras imperialistas. Como se não bastasse, o pacote vem embrulhado sob o rótulo explícito de pôr fim ao neoliberalismo no estado da Estrela Solitária.
É preciso ter empatia com o cidadão de bem brasileiro neste momento de luto ideológico. Como reagir quando o próprio coração do capitalismo norte-americano decide que deixar bilionários sem pagar impostos e trabalhadores sem creche não é exatamente um modelo de sucesso? A dissonância cognitiva é brutal. Afinal, se o Texas agora defende justiça tributária e Estado de bem-estar social, o que sobra para o manual do liberal brasileiro que ainda insiste que qualquer direito trabalhista “quebra o país”?
A ironia histórica é saborosa demais para passar batida. Durante décadas, importamos dos Estados Unidos não apenas filmes, hambúrgueres e séries policiais, mas também a cartilha do Estado mínimo, da desregulamentação e da demonização de qualquer política redistributiva. Agora, quando o próprio eleitorado texano dá sinais de exaustão com a receita neoliberal e elege um projeto focado na base da pirâmide social, os entusiastas do ultraliberalismo tupiniquim ficam órfãos de sua matriz favorita.
Resta saber como será a adaptação dos novos exilados voluntários. Trocar o mojito em Havana pelo brisket em Dallas, mantendo intacta a defesa do salário mínimo digno e da taxação dos super-ricos, não parece um mau negócio. E, da próxima vez que um defensor do livre mercado perder a paciência no debate e mandar um progressista “ir para onde essas ideias funcionam”, a resposta já está pronta na ponta da língua: “Já comprei a passagem. Desembarco em Houston na terça-feira”.



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