A irresponsabilidade e a perversão da maioria evangélica ao apoiar Flávio Bolsonaro
Será que Silas Malafaia, Edir Macedo, R.R Soares, Marco Feliciano, André Valadão, Valdemiro Santiago, entre outros tantos pastores evangélicos que declararam apoio a Flávio Bolsonaro, também fazem suruba? A pergunta pode até parecer desrespeitosa, mas o desrespeito maior consiste em homens que se dizem honestos, abençoados e ungidos por Deus, apresentarem a seus fiéis um candidato à presidência envolvido em dezenas de falcatruas – incluindo orgias e bacanais – como um defensor dos valores da família e da igreja de Cristo.
Na verdade, tal afirmação feita por esses líderes apenas comprova o que muitos ainda não conseguiram perceber: Deus nunca os escolheu para nada. E tudo o que eles pregam e defendem, sobretudo, em matéria de política, fala apenas sobre suas personalidades e interesses. O problema é que toda irresponsabilidade tem limites e consequências. E tal apoio da maioria do segmento evangélico a um candidato que mais se assemelha a um dos homens que foi crucificado ao lado de Jesus, do que ao próprio Cristo, precisa ser cobrado pela sociedade, caso Flávio Bolsonaro seja eleito.
A sede de poder de um determinado grupo religioso não pode se sobrepor à democracia. Tais homens e mulheres que se julgam revestidos de uma unção que Deus nunca lhes deu, precisam ser chamados à razão. Enquadrados. Sabatinados em nome de Jesus, para que revelem o que, de fato, possuem dentro de suas mentes e corações. A perversão política produzida pelo neopentecostalismo evangélico na sociedade já passou de todos os limites de aceitabilidade. A impressão que eu tenho é que eles querem destruir o Brasil, para depois dizerem que é a palavra de Deus se cumprindo em um apocalipse que eles mesmos produziram.
Em nome do seu projeto de poder, fecham os olhos para o que há de pior
na política e tentam transformar a fé em instrumento de obediência, como se questionar um candidato apoiado por seus pastores fosse o mesmo que questionar a Deus. É justamente aí que mora o perigo. Quando a igreja abandona seu papel espiritual para se tornar cabo eleitoral de um projeto político, a consciência dos fiéis passa a ser tutelada por interesses humanos, e o púlpito deixa de ser um espaço de reflexão para se transformar em palanque. A fé, que deveria libertar, passa a ser usada como mecanismo de controle.
A história mundial está repleta de exemplos dos estragos provocados quando religião e poder político se confundem. Das perseguições promovidas em nome da fé às guerras justificadas por interpretações religiosas, passando pela legitimação de ditaduras e regimes autoritários, a instrumentalização de Deus serviu inúmeras vezes para encobrir ambições humanas, silenciar opositores e naturalizar injustiças. Não se trata de afastar os religiosos da política, pois eles têm o mesmo direito de participação que qualquer cidadão, mas de impedir que a autoridade espiritual seja usada para impor escolhas políticas ou blindar lideranças contra críticas.
O Brasil não precisa de pastores que escolham candidatos em nome de Deus, mas de líderes que respeitem a liberdade de consciência de seus fiéis. Igreja não é partido, pastor não é dono do voto alheio e candidato nenhum pode ser colocado acima do julgamento público sob o pretexto de representar os valores cristãos. Quando a fé vira escudo para interesses de poder, quem perde não é apenas a democracia: é também a própria religião, reduzida a instrumento de homens que falam em nome de Deus, mas parecem ter se esquecido de que ninguém deveria usar o nome dele para escapar da responsabilidade por seus próprios atos.


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