Republicanos se voltam contra chefe do Pentágono após derrota eleitoral de Trump
247 – A derrota do Partido Republicano nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos abriu uma crise no governo de Donald Trump e colocou o secretário de Defesa, Pete Hegseth, sob ameaça de impeachment. Parlamentares e integrantes do círculo político do presidente responsabilizam o chefe do Pentágono pela condução da guerra contra o Irã, apontada como um dos principais fatores do desgaste eleitoral que permitiu o avanço dos democratas.
Segundo informações da CNN, divulgadas pelo jornal O Globo, republicanos avaliam que Hegseth desempenhou papel decisivo na escolha de iniciar os ataques contra o Irã, no fim de fevereiro, sem apresentar uma estratégia consistente para encerrar o conflito. A insatisfação pode resultar em uma votação de impeachment na Câmara dos Representantes já na próxima semana, antes da posse da nova maioria democrata, prevista para janeiro.
A iniciativa é liderada pelo deputado republicano Thomas Massie, do Kentucky, crítico frequente de Trump. Massie apresentou uma proposta de impeachment contra Hegseth em setembro e afirmou à CNN que pretende forçar sua votação quando o Congresso retomar as atividades. Fontes republicanas consultadas pela emissora consideram possível a aprovação da medida.
Guerra contra o Irã provoca desgaste político
A ofensiva militar contra o Irã tornou-se um dos principais pontos de contestação à política externa de Trump. Integrantes do Partido Republicano afirmam, sob anonimato, que Hegseth apresentou ao presidente avaliações excessivamente otimistas sobre a capacidade militar estadunidense de alcançar uma vitória rápida.
De acordo com esses relatos, o secretário insistiu na intensificação dos bombardeios mesmo quando os resultados das operações não indicavam uma rendição iraniana. A continuidade dos confrontos prolongou o envolvimento militar dos Estados Unidos no Oriente Médio e ampliou as consequências econômicas do conflito.
O aumento do custo de vida, associado aos efeitos da guerra, contribuiu para o descontentamento dos eleitores e atingiu diretamente o desempenho republicano nas urnas.
Na quarta-feira (4), o vice-presidente JD Vance reconheceu o impacto eleitoral do conflito. “Perdemos por causa da guerra”, declarou, sem identificar responsáveis individuais pelo resultado.
Um republicano próximo à Casa Branca, ouvido pela CNN, atribuiu diretamente a Hegseth a responsabilidade pelo desgaste.
“Se o presidente quer mesmo que alguém assuma a responsabilidade, é Pete Hegseth”, afirmou.
A mesma fonte questionou as avaliações apresentadas pelo secretário desde o início das operações militares.
“Pete foi desonesto ou errou, e nenhuma das duas coisas é aceitável, sobre prazos, metas e objetivos desde o início”, acrescentou.
Aliados tentam preservar Trump e responsabilizar Hegseth
Apesar das críticas à condução da guerra, a liderança republicana evita responsabilizar diretamente Donald Trump. O presidente permanece como principal referência política do partido e ainda dispõe de dois anos de mandato, circunstância que reduz a disposição dos parlamentares para um confronto aberto com a Casa Branca.
A situação de Hegseth é diferente. O secretário acumulou resistências no Congresso desde sua chegada ao Pentágono e não dispõe da mesma proteção política oferecida ao presidente.
Entre integrantes do governo, cresce a avaliação de que sua saída poderia funcionar como uma resposta à derrota eleitoral e reduzir parte da pressão sobre Trump.
O eventual impeachment também poderia antecipar um processo de responsabilização que os democratas pretendem conduzir quando assumirem o controle do Congresso.
Uma autoridade do governo ouvida pela CNN afirmou acreditar que Hegseth reconhece a gravidade da situação, mas poderia tentar transformar uma eventual saída do cargo em oportunidade política.
“Acho que ele provavelmente sabe que está morto, mas gostaria de uma saída dramática o suficiente para servir de trampolim para concorrer à Presidência”, declarou a fonte, em referência ao futuro político do secretário.
Trump mantém apoio ao secretário de Defesa
Embora a pressão republicana tenha aumentado, Trump continua defendendo publicamente seu secretário de Defesa. Segundo a CNN, o presidente consultou aliados sobre a atuação de Hegseth, mas não demonstrou disposição para afastá-lo.
Uma autoridade relatou que Trump reafirmou sua confiança no auxiliar durante uma reunião recente.
“Você é o meu melhor homem. O melhor que eu tenho”, teria dito o presidente, conforme o relato da fonte à emissora.
Questionado na quarta-feira sobre a possibilidade de demitir Hegseth, Trump negou qualquer intenção de substituí-lo e afirmou que o secretário realiza “um ótimo trabalho”.
O presidente também voltou a defender sua decisão de atacar o Irã, apesar das consequências políticas e econômicas da guerra.
“Se eu tivesse que fazer de novo, eu teria que fazer de novo”, declarou.
Em entrevista à ABC, Trump reconheceu ter recebido telefonemas de aliados insatisfeitos com o chefe do Pentágono. Entretanto, minimizou as reclamações e reiterou que pretende mantê-lo no governo.
Outro fator considerado pela Casa Branca é a dificuldade de substituir o secretário. Com a nova maioria democrata no Senado a partir de janeiro, a confirmação de um eventual sucessor poderá enfrentar obstáculos adicionais.
A permanência de Hegseth também é considerada importante por integrantes do governo caso Trump decida realizar novas operações militares contra o Irã.
Pentágono promete enfrentar impeachment e investigações
Hegseth, por sua vez, não demonstra intenção de renunciar. Segundo uma pessoa próxima ao secretário, ele comunicou à Casa Branca que está preparado para enfrentar o processo de impeachment e defender publicamente as decisões tomadas durante a guerra.
O chefe do Pentágono também estaria disposto a comparecer a audiências no Congresso, inclusive diante de parlamentares democratas que pretendem investigar o planejamento e a execução das operações militares.
Em comunicado, o porta-voz-chefe do Departamento de Defesa, Sean Parnell, rejeitou as pressões políticas.
“O secretário Hegseth não vai recuar nem se intimidar com políticos que buscam marcar pontos partidários ou abrir investigações falsas onde não há irregularidades”, afirmou.
Parnell acrescentou que o secretário permanece “100% comprometido em liderar o Departamento até o fim do mandato do presidente Trump”.
A Casa Branca também reagiu à perspectiva de investigações conduzidas pela oposição. A porta-voz Lauren Bis acusou os democratas de tentar utilizar o Congresso para atingir politicamente o governo.
“Se os democratas escolherem conduzir investigações fraudulentas e políticas radicais de esquerda, estarão escolhendo trabalhar contra o povo americano”, declarou.
Derrota eleitoral amplia crise no governo Trump
A possibilidade de impeachment surge em um momento de enfraquecimento político dos republicanos, após o resultado das eleições legislativas de terça-feira (3).
Antes mesmo da votação, assessores da Casa Branca e integrantes da estrutura partidária já identificavam a guerra contra o Irã como um dos principais obstáculos eleitorais enfrentados pelo governo.
O prolongamento das operações militares, sem perspectiva clara de encerramento, ampliou o desgaste de uma administração que passou a enfrentar críticas tanto pelos custos econômicos quanto pelos resultados estratégicos da ofensiva.
A responsabilização de Hegseth, entretanto, não significaria necessariamente uma mudança na política externa estadunidense. Trump continua defendendo a intervenção e não demonstrou intenção de abandonar a estratégia militar adotada contra Teerã.
Para os críticos do conflito, a eventual saída do secretário representaria apenas uma primeira medida. O encerramento da guerra dependeria de uma mudança de posição do próprio presidente.
A próxima semana será decisiva para avaliar a dimensão da crise dentro do Partido Republicano. Caso Massie consiga levar o impeachment à votação, o resultado poderá revelar até que ponto os parlamentares governistas estão dispostos a sacrificar um dos principais auxiliares de Trump para responder à derrota eleitoral.



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