EUA apostam em acordo sobre diesel russo para retomar negociações de paz
247 – Os Estados Unidos apresentaram à Ucrânia um acordo para permitir exportações de diesel russo como parte de uma estratégia para levar Moscou de volta às negociações de paz.
Segundo a Reuters, representantes do presidente americano, Donald Trump, também reiteraram o pedido para que Kiev suspenda os ataques a refinarias russas, na expectativa de obter uma contrapartida do Kremlin.
A proposta foi discutida em uma reunião em Miami, na sexta-feira (9), com o enviado americano Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump. Três pessoas familiarizadas com o encontro relataram à agência que Washington considera o entendimento comercial uma tentativa de destravar o diálogo, após iniciativas anteriores não conseguirem estabelecer negociações sustentadas para encerrar a guerra.
De acordo com duas dessas fontes, Witkoff e Kushner disseram às autoridades ucranianas que o presidente russo, Vladimir Putin, ainda não estava preparado para negociar o fim do conflito, que dura quatro anos e meio. Os enviados argumentaram que o acordo anunciado na semana anterior poderia ajudar a retomar conversas entre Estados Unidos, Rússia e Ucrânia.
Uma terceira fonte afirmou que os americanos apresentaram o entendimento como uma forma de “suavizar” a posição de Moscou, em parte porque “envia um sinal de que Trump está aberto a negociar” com a Rússia.
O acordo prevê o fornecimento de mais de 2,25 milhões de barris de diesel russo aos mercados americano e internacional. A iniciativa provocou críticas de parlamentares dos Estados Unidos, que avaliam que a operação dará recursos a Moscou para continuar a guerra sem exigir concessões de Putin.
Trump defendeu publicamente o entendimento na segunda-feira (12), classificando-o como “a escolha certa para o povo americano”. O presidente sustenta que a medida reduzirá os preços da energia nos Estados Unidos, um problema político para o Partido Republicano às vésperas das eleições de meio de mandato, que definirão o controle do Congresso.
Pedido para interromper ataques a refinarias
Durante o encontro, Kushner voltou a dizer que Trump queria a interrupção dos ataques ucranianos a refinarias russas. Segundo duas fontes, ele ressaltou que o governo americano já havia feito essa solicitação diversas vezes.
“A ideia era que os EUA pudessem voltar à Rússia e dizer: ‘Vejam, os ucranianos pararam de atacar e nós lhes demos este acordo. Agora é a vez de vocês fazerem alguma coisa’”, afirmou uma das pessoas ouvidas pela Reuters.
As autoridades ucranianas receberam a abordagem com ceticismo. Duas pessoas informadas sobre a reunião e uma que participou do encontro disseram que Kiev vê a estratégia americana como uma tentativa de apaziguar a Rússia por meio de acordos comerciais.
Os representantes da Ucrânia não assumiram nenhum compromisso formal ao fim das conversas. Sinalizaram, mas, disposição para aceitar um cessar-fogo voltado à infraestrutura energética, desde que a Rússia também aderisse.
No domingo (11), Trump anunciou uma trégua energética entre os dois países, poucos dias depois de apresentar o acordo sobre o diesel. Os governos russo e ucraniano, entretanto, não confirmaram o cessar-fogo. Na segunda-feira, a Rússia atingiu alvos de energia na Ucrânia, enquanto o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, rejeitou uma proposta do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, para uma trégua completa de 60 dias.
Exigência territorial dificulta entendimento
Uma pessoa próxima ao Kremlin afirmou à Reuters que o acordo sobre o combustível “é uma forma de trazer a Rússia de volta” às negociações. A mesma fonte disse que Putin só retornará à mesa quando “obtiver os 11% restantes do Donbas, o que poderá apresentar internamente como uma vitória”.
A Ucrânia afirma que não entregará mais território à Rússia. Kiev admite, por outro lado, que o congelamento do conflito nas atuais linhas de combate poderia servir de base para um acordo de paz.
A avaliação atribuída aos enviados americanos sobre a falta de disposição de Putin para encerrar a guerra contrasta com as declarações públicas de Trump. O presidente dos Estados Unidos tem afirmado repetidamente que o líder russo deseja um acordo e voltou a defender essa posição no sábado (10). Autoridades ucranianas e europeias questionam a disposição de Moscou para interromper a campanha militar no curto prazo.
O governo Trump já tentou atrair Putin para as negociações com propostas de alívio de sanções e possíveis acordos envolvendo minerais. Segundo a reportagem, essas iniciativas não alteraram substancialmente as principais exigências russas nem levaram o Kremlin a aceitar um cessar-fogo abrangente.
Apoio militar e reconstrução também estiveram na pauta
Apesar da pressão para interromper os ataques às refinarias, os americanos não ameaçaram suspender a assistência militar ou de inteligência à Ucrânia, de acordo com três fontes. Witkoff e Kushner destacaram durante a reunião “tudo o que os EUA fizeram pela Ucrânia”, incluindo o apoio às forças do país.
O encontro durou várias horas e também abordou garantias de segurança para Kyiv, fundos de reconstrução e a necessidade de o governo ucraniano formalizar planos para investimentos. Autoridades europeias participaram das conversas, assim como representantes do Banco Mundial, que acompanharam parte da reunião virtualmente. A instituição não comentou o encontro.
As discussões ocorreram após visitas de Witkoff e Kushner a Moscou e Kyiv em setembro. Na ocasião, Witkoff afirmou que as partes haviam criado um “novo impulso” e que outra rodada de negociações poderia começar em breve.
O anúncio do acordo sobre o diesel ampliou as tensões entre Washington e Kyiv. Zelensky classificou a iniciativa americana como uma “decisão fraca” e um “presente para Putin”. Trump respondeu no sábado que o presidente ucraniano “poderia ter encerrado esta guerra muitas vezes” e que os ucranianos precisavam “ter um novo presidente”.
Além das divergências diplomáticas, há dúvidas sobre o efeito econômico da operação. Especialistas ouvidos pela Reuters disseram que o volume adicional de diesel corresponde a menos de um dia de abastecimento apenas do setor de transportes dos Estados Unidos e terá pouco impacto sobre os preços. Embora Trump atribua aos ataques ucranianos parte da alta dos combustíveis, a maioria dos especialistas citados pela agência aponta a guerra no Irã como o principal fator por trás dos custos elevados.



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